Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine
COLUNA

E se Machado de Assis escrevesse sobre a Petrobras hoje?

Talvez, em vez de sair à procura de cidadãos loucos, ele se voltaria para os corruptos

Uma escritora brasileira me pergunta: “Se Machado de Assis escrevesse agora sua famosa novela O Alienista, que tema de fundo escolheria?”.

Dando uma olhada nas manchetes dos jornais sobre a minha mesa de trabalho, sou levado a pensar que o gênio machadiano teria centrado sua obra hoje não tanto na loucura em contraposição à prudência, e sim na corrupção frente à ética.

O personagem central da primeira obra de realismo literário de Machado de Assis é o médico alienista (psiquiatra) Simão Bacamarte. Repleto de conhecimentos médicos adquiridos nas universidades europeias, decide voltar à sua pequena cidade de Itaguaí, na então província do Rio de Janeiro, para colocar em prática o seu saber psiquiátrico. Quem seria hoje o personagem central da obra?

E os outros personagens variados, do barbeiro ao padre e à própria mulher do alienista – seriam eles hoje os mesmos que foram em O Alienista?

Talvez, em vez de sair à procura de cidadãos loucos para internar na Casa Verde, um manicômio mandado construir por ele, Bacamarte iria hoje atrás de corruptos e corruptores, de juízes, policiais e advogados dispostos a ajudá-lo em seu afã de distinguir aproveitadores de honestos.

O gênio de Machado, o Cervantes brasileiro, fundador da Academia Brasileira de Letras, teria encontrado para seu Alienista personagens tão ou mais interessantes do que aqueles de mais de cem anos atrás, quando escreveu sua obra tragicômica, cheia de humor ácido, bisturi da realidade social de então, povoada como hoje por interesses pessoais e maracutaias políticas.

Machado poderia se divertir amargamente com toda essa caravana de personagens que tingem as atuais notícias a respeito do maior escândalo de corrupção político-empresarial na história deste país.

Entre eles há de tudo: delatores e acobertadores, corruptos e corruptores, vítimas e verdugos; empresários e políticos, assim como um submundo de personagens à sombra, manipulados como bonecos por quem nunca vem à luz. Eles teriam inspirado o realismo e a comicidade de Machado, em quem Alcides Maia dizia ver o humor típico dos escritores britânicos, mas com um verniz tropical.

O médico Bacamarte acaba fazendo uma confusão para distinguir loucos de sãos na sua cidadezinha. Começa internando todos os que manifestavam alguma diferença de caráter, começando por sua esposa, que tinha dúvidas a respeito de como se vestir para uma festa.

Mais tarde, quando meia cidade já havia sido internada como louca, o médico se pergunta se não seriam estes os normais, e os ainda libertos os verdadeiros loucos. E interna também estes.

O médico, que acaba sendo prisioneiro da ciência e da convicção do seu saber, como muitos acabam sendo hoje vítimas das ideologias, decide ao final que o verdadeiro louco era ele. Assim, solta todos e se tranca sozinho na Casa Verde, onde morreria 17 meses depois.

Povoado de simbolismos, de fina ironia, de crítica mordaz à eterna politicagem que dificulta distinguir não só os loucos dos sãos, mas também os sábios dos ignorantes e os corruptos dos honrados, O Alienista poderia ser lido à luz das notícias de hoje sobre a maré de corrupção que assola o Brasil.

Poderia ser lido com o mesmo realismo, com a mesma cômica crueldade, com a mesma estreiteza de visão e com o mesmo ceticismo que Machado colocou em sua obra genial.

Se o mesmo zelo que distinguia o psiquiatra Bacamarte no diagnóstico entre loucos e sãos fosse dado hoje aos juízes para descobrir, por exemplo, entre os simples cidadãos quantos são os corruptos, os corruptores e os corruptíveis e quantos nunca mancharam as mãos para se livrar de uma multa ou comprar uma benevolência, eles teriam de abarrotar as prisões como Bacamarte enchia a Casa Verde de supostos loucos.

Além de juízes, policiais, advogados, delatores, prisões e CPIs em jogo no xadrez da corrupção ora em curso, entre a tragédia e a comédia como na obra machadiana, o Brasil precisaria hoje também de um novo gênio da literatura que fosse capaz de escrever não mais O Alienista, e sim O Corrupto.

Seria necessário um escritor que, como Machado, fosse capaz de transitar entre o absurdo e o realismo, entre a luz dos documentos e a sombra das intrigas.

Ingredientes não faltariam a quem se decidisse por tamanha aventura literária, dada a riqueza que começa a aparecer, tanto de elementos que irritam e envergonham a sociedade como também daquela ácida comicidade que Machado sabia manejar como ninguém.

Todos eles loucos sadios, ou todos sadios loucos?

Todos corruptos honestos, ou todos honestos corruptos?

Pelo menos o Bacamarte machadiano teve a coragem de castigar a si mesmo encerrando-se voluntariamente no manicômio, como responsável máximo.

Onde está, neste drama da corrupção brasileira, o personagem de Machado capaz de arcar com a culpa que lhe cabe, capaz de admitir que o verdadeiro responsável por tanta loucura de corrupção era ele, ao permitir, fechando os olhos ou açulando a fogueira a partir dos bastidores, que a chama da corrupção corresse por todas as veias do poder?

E recordando Machado vem à mente a célebre cena do excêntrico filósofo grego Diógenes, que, no século IV antes de Cristo, percorria as ruas com uma lanterna “à procura de um homem”.

O personagem machadiano de O Alienista procurava um homem sensato. Diógenes procurava um homem ético. Ambos hoje continuariam a procurar. As notícias indicam que essa parece ser uma tarefa impossível, mas, como se diz na Galícia, terra também de poetas e escritores, “las brujas no existen, pero las hay”.

Nas Escrituras Bíblicas, recorda-se que bastaria um justo para salvar a Humanidade.

O Natal poderia nos presentear com alguém justo, que não esteja à venda, para que a esperança não murche totalmente para nós.

MAIS INFORMAÇÕES