Estado Islâmico

EUA afirmam que Irã bombardeou o Estado Islâmico no Iraque

Os 60 países da coalizão contra os jihadistas realizam sua primeira reunião ministerial

Soldados iraquianos depois da retomada de Al Saadiya, no nordeste do Iraque

A convulsão causada pelo Estado Islâmico (EI) é capaz de alterar certas inimizades históricas. O porta-voz do Pentágono, John Kirby, confirmou pela primeira vez que o Irã realizou recentemente bombardeios aéreos contra posições do Estado Islâmico no leste do Iraque. Em declarações à rede britânica BBC, Kirby negou qualquer coordenação com Teerã nas operações.

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“Temos indicações de que houve bombardeios com aviões F-4 Phantom nos últimos dias”, disse, antes de ressaltar que cabe ao Iraque fiscalizar e coordenar os voos em seu espaço aéreo.

O sub-chefe do Estado Maior iraniano, Masoud Jazayeri, negou qualquer colaboração com os norte-americanos, frisando que Washington é responsável pelos “problemas” no Iraque, e que os EUA “não terão lugar no futuro do país”. Irã e EUA romperam relações diplomáticas como resultado da crise dos reféns depois da Revolução Islâmica em 1979.

No início de agosto, os EUA ordenaram os ataques no Iraque para conter os avanços do EI em direção a Kirkuk, cidade do Curdistão iraquiano, alegando um possível genocídio de minorias religiosas por parte do EI. Em setembro, Obama estendeu a operação à Síria e formou uma aliança, de início com 10 países da OTAN, para combater os jihadistas. A aliança hoje inclui 59 países e três organizações (a OTAN, a UE e a Liga Árabe), que oferecem diferentes tipos de apoio.

Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Jordânia e Bahrein participam dos bombardeios aéreos na Síria, enquanto Austrália, Bélgica, Reino Unido, Canadá, Dinamarca, França e os Países Baixos intervêm no Iraque. Dezenas de países oferecem outro tipo de apoio, como o intercâmbio de informação e inteligência.

Coalizão contra o Estado Islâmico, em sua primeira entrevista ministerial 

Essa coalizão internacional contra o grupo jihadista Estado Islâmico na Síria e no Iraque celebrou na quarta-feira em Bruxelas a primeira reunião de seus ministros de Relações Exteriores, convocada pelo secretário de Estado norte-americano, John Kerry. “Esta rápida união de esforços não é algo cosmético, é o reflexo das ações empreendidas por mais de 62 entidades e países para acabar com o Estado Islâmico”, destacou Kerry antes de entrar na reunião. O chefe da diplomacia americana considera que os 1.000 bombardeios realizados pela coalizão contra bastiões do Estado Islâmico “reduziu a liderança desse grupo e danificou suas capacidades logísticas e operacionais”.

O encontro obedecia à necessidade de dar coerência e mensagem política a uma coalizão com atores muito diversos unidos por um objetivo conjuntural. A reunião foi realizada na sede da OTAN em Bruxelas, mas todos os participantes insistiram em desvincular desta iniciativa o papel da Aliança, que pode despertar certos receios no mundo árabe. Os ministros de Relações Exteriores dos países da OTAN reuniram-se na sede da organização no dia anterior e, por isso, decidiu-se manter a reunião no mesmo local, segundo fontes diplomáticas.

O general John Allen, enviado especial dos EUA para a coalizão, informou os participantes – a maioria ministros – sobre a situação no Iraque e na Síria. O primeiro-ministro iraquiano, Haider Al Abadi, também participou da discussão.

O ministro espanhol do Exterior, José Manuel García-Margallo, sublinhou que os membros da coalizão contemplam uma solução política para um conflito que começou na Síria e agora se ampliou com a irrupção do Estado Islâmico. Apesar de tudo, a via militar revela-se essencial, na opinião de Margallo, contra a organização fundamentalista. “Não há dúvida de que isto requer presença em campo. Sem tropas não haverá solução para o conflito”, explicou à imprensa. Sobre a possibilidade de outros países enviarem essas tropas, Margallo afirmou que só se cogita a presença de “tropas locais”, iraquianas e curdas.

Os representantes da coalizão também discutiram meios de deter o fluxo de combatentes estrangeiros para o Iraque e a Síria e retirar a legitimidade da poderosa “marca” do EI. Debateram, ainda, meios de interromper as vias de financiamento dos jihadistas: vendas de petróleo, extorsões, saques, sequestros, tráfico de pessoas e o tráfico de antiguidades sírias.

O secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, indicou em uma entrevista coletiva na segunda-feira que a Aliança está disposta a ajudar o Iraque se o Governo daquele país solicitar seu apoio, conforme o consenso alcançado pelos líderes aliados na cúpula de setembro no País de Gales (Reino Unido). Stoltenberg deixou claro que, até o momento, não recebeu nenhuma solicitação de Bagdá.

A alta representante para a Política Externa da UE, Federica Mogherini, limitou o papel da UE como instituição ao afirmar que o bloco “pode contribuir pelo lado humanitário” na crise aberta pelo EI na Síria e no Iraque.

Para Mogherini, que também participou da reunião convocada por Kerry, a “mensagem é que existe a possibilidade de viver juntos nessa região, algo que está em risco hoje”. “O Islã não pode e não deve ser identificado com o EI, que é uma organização terrorista e não tem nada a ver com a religião”, considerou.

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