O esquerdista Tabaré Vázquez será o sucessor de Mujica no Uruguai

O candidato da Frente Ampla vence as eleições presidenciais contra Luis Lacalle, de centro-direita, segundo as primeiras projeções

Tabaré Vazquez comemora ao fim da eleição.
Tabaré Vazquez comemora ao fim da eleição.Matilde Campodonico (AP)

O progressista Tabaré Vázquez, de 74 anos, será o sucessor de José Mujica, 79, no governo uruguaio, cinco anos depois se tornar o antecessor desse mesmo homem. O candidato da coalizão social-democrata Frente Ampla ganhou as eleições presidenciais deste domingo contra o rival do Partido Nacional, Luis Lacalle Pou, de 41 anos, de centro-direita. As primeiras projeções depois do fechamento das urnas destacavam que Vázquez venceu por uma diferença de quase 14 pontos (53,9% contra 40%). Pela primeira vez em dois séculos, uma formação social-democrata governará o país por 15 anos e três pleitos consecutivos.

Termina assim uma campanha marcada pelo jogo limpo, o respeito e sem alusões à corrupção. Quase todas as mensagens giraram em torno dos grandes desafios que esperam o país para se fixar na modernidade. E tanto Lacalle quanto Vázquez destacaram esse bom sinal de convivência nos seus discursos posteriores aos resultados.

Nos últimos dez anos a riqueza do país quase  triplicou e a pobreza reduziu-se do 40 ao 10,5%

Vázquez assumirá o mandato em 1° de março, como prevê a Constituição, que não permite a reeleição consecutiva. Este oncologista, prefeito de Montevidéu em 1990, ganhou as eleições presidenciais de 2004 no primeiro turno. Em 2009, passou o mandato para Mujica e agora volta ao poder. Desta vez, necessitou de uma segunda votação. Mas, nas eleições de um mês atrás, foi tão grande a distância em relação a Lacalle Pou (47,8% dos votos contra 30,9%), que na realidade os militantes da esquerda ficaram 30 dias comemorando a vitória. Durante esse mês, Tabaré Vázquez limitou-se a lembrar os acontecimentos da "década vencida". Não havia que se esforçar muito em explicá-los.

Há imagens que podem explicar melhor que mil palavras o progresso que o Uruguai viveu nos dez anos do governo da esquerdista Frente Ampla. Moinhos de vento nas planícies, milhares de trabalhadores da construção civil deslocando-se às manhãs em motos, quando antes o faziam de bicicleta ou a pé, centenas de novos tratores nos campos de soja, centros comerciais lotados, filas de navios esperando dia e noite para atracar no porto de Montevidéu, balsas diárias para Buenos Aires. O progresso é tão evidente que o candidato de centro-direita concentrou a sua campanha à presidência na promessa de melhorar as conquistas da esquerda, reconhecidas por ele. E Tabaré Vázquez, candidato da Frente, de 74 anos, não precisou sequer reforçar que ele próprio contribuiu de forma decisiva para esses avanços como presidente do país entre 2004 e 2009. Os dois candidatos prometeram sempre que o grande desafio seria consolidar o que foi conquistado e dar um grande salto para a modernidade.

O Uruguai, assim como a Argentina, sofreu os efeitos da crise bancária de 2002. E nos últimos dez anos a riqueza do país quase triplicou; a pobreza caiu de 40% para 10,5% e, em um país de 3,3 milhões de habitantes, isso significa que aproximadamente um milhão de pessoas não são mais pobres; o desemprego passou de 19% ao nível mais baixo da história, em 6,5%. Em 2005, havia 278.00 hectares de soja plantados e agora há 1,2 milhão. A produção de energia renovável não convencional (exceto a hidráulica) passou de zero em 2004 a 30% atualmente. E isso tornou a conta de luz mais barata e colocou o país na posição de poder ser líder de produção eólica no mundo em 2016. Com os governos de Tabaré Vázquez e de José Mujica, o PIB per capita do Uruguai virou o maior da América Latina (16.834 dólares).

Uruguai continua sendo demasiado vulnerável às oscilações dos mercados de carne e cereais

Se isso não bastasse, o próprio Lacalle reconheceu em várias ocasiões que José Mujica colocou o Uruguai no mapa. Acima de tudo, esse crescimento foi conquistado sem escândalos de corrupção. Mas o Uruguai não é a Finlândia e nem a Suíça. Continua sendo vulnerável demais às oscilações do mercado da carne e dos cereais, seus principais produtos de exportação. E a imagem desse porto onde sempre há navios esperando é um motivo de orgulho e de preocupação. O porto ficou pequeno.

A venezuelana Gladis Genua, diretora da Comissão Andina de Fomento (CAF) para o Uruguai concorda com o que os dois candidatos presidenciáveis expressaram em suas campanhas: para não depender da agricultura ou da política de Argentina e Brasil, o Uruguai deveria "converter-se em uma plataforma logística do sul, ser o porto de saída dos produtos do Paraguai (que não tem acesso ao mar) e uma referência no Atlântico. Agora, o esforço é para modernizar as infraestruturas, o porto e o setor ferroviário."

A senadora Lucía Topolansky, mulher do presidente José Mujica, vai mais além: "Temos que ser o porto de saída para muitas zonas do sul do Brasil, do Paraguai e da Bolívia. Temos que reviver todo o sistema ferroviário que foi explorado pelo período neoliberal". E para isso, o país precisa de investimentos estrangeiros. Nesse terreno, o Uruguai tem uma boa carta na manga: "Aqui não pedimos suborno - dinheiro para suborno. Nos anos 1940, veio uma grande empresa investir por aqui e colocou dinheiro para propina em seu orçamento. Quando lhe disseram que isso não seria necessário, eles mesmo se perguntaram o que poderiam fazer com esse dinheiro. Sugeriram que fizessem uma doação à Universidade da República e com aquele dinheiro foram construídas as caldeiras da Faculdade de Engenharia. As empresas que vêm para cá sabem que somos um país sério, no qual se respeitam as instituições".

Topolansky acredita que nos próximos anos será importante a participação dos empresários argentinos que ajudaram a implantar tecnologia no cultivo da soja. Um dos mais destacados entre eles é Gustavo Grobocopatel, conhecido na Argentina como o "Rei da Soja". Do seu país, por e-mail, Grobocopatel explica que há dez anos os uruguaios do campo iam para Montevidéu e dali para fora do país. "E agora estão voltando novamente para o campo". No entanto, Grobocopatel esclarece que o Uruguai precisa melhorar suas infraestruturas e a integração com o sul do Brasil. Recorda que a nação se "atrasou muitíssimo" na educação e que os sindicatos e o Estado têm um grande desafio para alcançar um pacto para consertar esse atraso.

Esse era a prioridade de José Mujica em 2009 - "educação, educação, educação. E novamente educação" e esse é o seu grande fracasso assumido. No último relatório da Pisa (sigla em inglês para Programa Internacional para Avaliação de Estudantes), de 2012, o Uruguai teve os piores resultados desde que as provas começaram, em 2003. Os governos da Frente Ampla levaram computadores às escolas, mas a qualidade do ensino secundário continua sendo péssima. O novo presidente tem essa tarefa pela frente.

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