Futebol

A perversa relação entre as torcidas de futebol e a política na Argentina

Choque entre torcedores do River simboliza relação entre os dirigentes e os 'barras bravas'

Torcedores do River Plate durante um jogo.
Torcedores do River Plate durante um jogo. (REUTERS)

River Plate e Boca Juniors definirão na noite desta quinta-feira uma vaga na final da Copa Sul-Americana, na enésima edição de um clássico argentino ancestral. Só que além da tensão habitual destes duelos, por si só exacerbada depois de um duro 0 a 0 no jogo de ida, surgiu outro fator de preocupação: os ecos do brutal choque entre duas facções internas da torcida organizada (barra brava, na Argentina) do River, na tarde desta quarta-feira, dentro do clube.

A cisão entre Los Borrachos del Tablón e Los del Oeste não é nova. Vem de 2007 e já deixou no caminho um morto e vários feridos, mas o acontecimento mais recente é particularmente grave, por si mesmo e pelo exemplo. Porque evidencia falta de efetividade da política de aproximação com uma das facções (a Los Borrachos), posta em prática no ano passado pela nova diretoria do River. Seu presidente, Rodolfo D’Onofrio, admitiu o erro: “Erramos por não ter suspendido os barras como sócios”.

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E também porque serve como exemplo do que acontece em praticamente todos os clubes argentinos, não importando de qual categoria ou região geográfica: a estreita relação entre os gestores — dirigentes das entidades, mas também, e sobretudo, políticos, policiais e até integrantes do corpo judicial — com as forças violentas.

Esta convivência, nascida nos anos 1970, impossibilita qualquer tentativa de acabar com esses grupos, como foi feito na Inglaterra ou na Espanha. “Não quero que entrem na prisão por uma porta e saiam pela outra”, pediu D’Onofrio nesta terça-feira. A verdade é que 24 horas depois do que aconteceu, ninguém havia sido detido. E as “portas giratórias” não remetem à prisão, e sim levam os cartolas à política, e vice-versa.

Nos grandes clubes grandes, deter o poder nas torcidas organizadas permite o acesso a vários negócios

Nascidas no calor da paixão, as barras bravas foram paulatinamente se transformando. De um lado, “numa espécie de força-tarefa que exerce violência ilegítima e que tem como mandantes os dirigentes esportivos e os políticos”, segundo Pablo Alabarces, sociólogo e pesquisador do tema. De outro lado, numa verdadeira fábrica de dinheiro ilegal, o que explica por que as disputas internas, cada vez mais sangrentas, tomaram o lugar das velhas lutas entre torcidas de cores diferentes.

Nos grandes clubes da Argentina, ter o poder nas torcidas organizadas permite o acesso a diversos negócios: revenda de ingressos — fornecidos pelo clube —, controle das áreas de estacionamento nos estádios e nas ruas vizinhas, gerenciamento da venda de comida e bebida, e até a intromissão em decisões sobre jogadores das categorias menores ou da equipe principal, e participação direta nas transferências de atletas. Nas entidades menores, os benefícios costumam chegar por meio da obtenção de vagas em instituições públicas ou empresas privadas. Mas nos dois casos a disputa também se move para o controle de território, seja para exercer domínio político ou praticar atividades ilícitas de todos os tipos, incluindo narcotráfico. A impunidade, sempre, é o ingrediente principal para o crescimento dessas pequenas máfias.

Neste contexto, o recrudescimento de atos violentos nas últimas semanas, com quatro mortos e vários feridos, não é obra do acaso. 2015 é ano de eleições na Argentina, e a disputa por fontes de poder nos campos antecipa uma contenda nas urnas que atualmente não tem claros favoritos, mas que mostra uma coincidência. Mauricio Macri e Sergio Massa, dois dos principais candidatos de oposição ao Governo de Cristina Fernándes de Kirchner, chegaram à política depois de presidir o Boca Juniors e o Tigre, respectivamente. Aníbal Fernández, ex-chefe de Gabinete e atual senador situacionista, é presidente do Quilmes. Hugo Moyano, secretário geral de uma das centrais sindicais do país, preside o Independiente. Máximo Kirchner, filho da atual presidenta do país, participa de uma forma ou outra do que diz respeito ao Racing… E assim vai a lista.

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