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Como é o cérebro do empreendedor

De proatividade a otimismo, para neurologia todos podem adquirir talentos para o negócio

Como é o cérebro do empreendedor

O empreeendedorismo vem fazendo a cabeça de um número cada vez maior de brasileiros. Motivados pela necessidade ou pelo desejo, hoje no Brasil existem cerca de 45 milhões de empreendedores, segundo o Monitor Global de Empreendedorismo (GEM) de 2014, relatório produzido desde 1999 por um grupo de universidades internacionais, liderado pela americana Babson College. Isso significa que hoje no país 34,5% da população entre 18 e 64 anos está envolvida no próprio negócio, percentual que vem crescendo mais fortemente desde 2011, quando a taxa era de 26,9%. Quase metade dos empreendedores, contudo, encontram-se em fase inicial de desenvolvimento de seus negócios (17,2%).

Empreender, de acordo com o levantamento, é o sonho de 43,5% dos brasileiros. Entretanto, apenas 12% o fazem porque encontraram uma boa oportunidade de negócio. Como diria Mario Alonso Puig, médico e autor do livro El cociente agallas (O fator coragem, tradução livre) o desejo de se aventurar no próprio negócio passa pela vontade de " extrair a melhor versão de si mesmo". Para isso, as pessoas deixam a sua zona de conforto, salário garantido e medos de lado em prol de um único objetivo: sobreviver com os frutos da própria ideia.

Mas por que apenas 12% empreendem por desejo? O que há de especial na mente desses brasileiros? Especialistas divergem em suas explicações, ainda que citem as mesmas competências e ingredientes propulsores do empreendedorismo: proatividade, compromisso, motivação, sacrifício e até excesso de otimismo.

Segundo Sergio Fernández, diretor do MBA de Empreendedorismo do Instituto Pensamento Positivo, o que a maioria dos empreendedores têm em comum é a proatividade. Já para a diretora da Escola de Empreendedores (LEDE), Leticia Prada, a ilusão é o fator determinante que diferencia os empreendedores dos não-empreendedores. A essas qualidades e traços psicológicos, Alonso Puig acrescenta o otimismo, "pois uma pessoa positiva tende a gerar menos emoções negativas como o medo, a ansiedade e a frustração". Uma nuance: "Um pouco de medo na medida certa combinado com uma dose apropriada de ilusão e confiança leva a pessoa a buscar oportunidades sem ignorar os riscos".

Mais rápidos e intuitivos

Vários estudos têm demonstrado, nos últimos anos, que há regiões do cérebro que os empreendedores desenvolvem mais e melhor do que pessoas que nunca realizaram uma atividade econômica por sua própria conta e risco. Entre eles, a pesquisa dirigida pelo professor Maurizio Zollo, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), revela que os empreendedores tomam decisões com mais rapidez, possuem uma visão geral mais ampla e são capazes de desconsiderar com mais facilidade eventuais desarmonias do seu ambiente.

Outro trabalho, desenvolvido pelo professor Peter Bryant, da IE Business School, e os professores da Universidade Complutense de Madri Tomás Ortiz, Augustín Turrero e Juan M. Santos, chega à conclusão de que um traço que caracteriza os empreendedores em relação à tomada de decisões é um certo grau de impulsividade, somado a uma análise cerebral rápida, uma resposta motora precoce e uma lentidão em concluir o processo cognitivo.

Nesse sentido, Carlos Tejero, da direção da Sociedade Espanhola de Neurologia (SEN), destaca "a rapidez e a segurança na tomada de decisões como duas características fundamentais" que diferenciam uma mente empreendedora de uma que não é. E isso requer uma coordenação de diferentes áreas do cérebro: "A tomada de decisões ocorre no córtex pré-frontal, mas é preciso que essa região executiva interaja com as redes sensitivas do lobo parietal, considerando a informação do conjunto, estabelecendo um julgamento entre prós e contras e monitorando o êxito de uma decisão".

O jogo da incerteza

"A genética interfere pouco nessa questão do empreendedorismo", afirma Mercedes Alfonso, presidente da Associação de Empreendedores da Comunidade de Madri e empresária há mais de 20 anos. Na sua opinião, "um ambiente propício na família, na escola e nos centros de formação sem dúvida pode fomentar uma atitude empreendedora". 

Para empreender, você deve…

Sergio Fernández, diretor do Instituto Pensamento Positivo

1. Encontrar sua paixão

2. Dedicar-se a seu projeto todas as horas que precise

3. Centrar sua energia em agregar valor às pessoas

4. Identificar que problemas pode resolver e, depois, solucioná-los

5. Aprender algo novo a cada dia

Alonso Puig e o coach Sergio Fernández também acreditam que não é preciso nascer empreendedor, já que todas as pessoas são capazes de aprender tudo, inclusive as aptidões e atitudes necessárias para levar adiante um projeto próprio.

É possível concluir, então, que qualquer pessoa poderia dar esse salto e se tornar um empreendedor de sucesso, com um treinamento adequado? A resposta não é fácil.

Alonso Puig alerta para o fato de que possuir tal habilidade não significa ter a capacidade de se  transformar naquilo que deseja, mas sim, em uma versão melhorada daquilo que já somos. "Da mesma maneira que a semente de uma macieira nasce para se transformar em árvore, nós somos instigados a desenvolver todo o nosso potencial e a nos transformar naquilo que temos vocação de ser. Uma macieira nunca será uma oliveira", conclui.

Nesse mesmo sentido, Leticia Prada admite a capacidade do ser humano de adquirir e desenvolver habilidades empresariais, mas limita a possibilidade de ser um empreendedor àquelas pessoas que possuem algumas características de personalidade específicas. E destaca: "Para obter êxito, a pessoa não só tem de ter as aptidões para levar adiante a sua ideia de negócio, como também tem de saber brincar com a incerteza, pois esta será sua companheira de viagem, pelo menos nas etapas iniciais. E isso não se aprende".

A elasticidade do cérebro

A maioria dos especialistas em neurologia concorda com o que Mario Alonso Puig assinalava: com um treinamento adequado, todo ser humano pode desenvolver à vontade as regiões do cérebro onde se localizam as habilidades que favorecem a atividade empreendedora.

"A distribuição da densidade de neurônios em cada região do cérebro depende de fatores genéticos e de desenvolvimento, mas não se trata apenas de agrupar neurônios, mas também de conectá-los, e essas conexões podem ser fomentadas com estímulo. É possível aprender. Pudemos comprovar isso na reabilitação de pessoas que sofreram danos nessas regiões", assinala o neurologista Carlos Tejero.

Esse aprendizado é possível graças ao fato de que o cérebro é um órgão elástico, aberto a melhorias constantes por intermédio da neurogênese, ou processo de formação de novos neurônios a partir de células-mãe. Um processo central "para a memória, o aprendizado, a gestão do estresse e o controle do medo", explica Alonso Puig.

Além disso, na sua opinião, podemos estimular o processo da neuroplasticidade mantendo certos hábitos, como a prática regular de exercícios físicos. "As pessoas que se movimentam mais geram mudanças positivas em seus cérebros. Da mesma forma, aquelas que buscam o lado bom das coisas aprendem a reconhecer e a descobrir mais rapidamente as oportunidades. Por último, as que nutrem expectativas favoráveis a respeito de si mesmas e de suas possibilidades controlam suas emoções de uma maneira muito diferente daquelas que estão sempre esperando pelo pior".

Os caminhos da felicidade

É comum relacionar uma carreira profissional brilhante com o sucesso também na vida pessoal, ou a felicidade. Alonso Puig, no entanto, condiciona o sucesso profissional ao pessoal, pois "ele é incompatível com ter de renunciar à sua saúde, à sua família e aos seus valores". De toda maneira, o caminho para a realização do nosso sonho empresarial poderia ser identificado com a viagem rumo à felicidade pessoal. Ao menos é o que acredita o médico e conferencista. "Ao deixar a zona de conforto, o cérebro começa a gerar mais conexões entre seus neurônios; começa a progredir. E como a felicidade está muito relacionada com a percepção de crescimento, as pessoas empreendedoras vivem a vida com mais intensidade, em vez de apenas vê-la passar", conclui.

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