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“Como futebol sem árbitro”

A falta de um marco legal e a sensação o voto era inútil explicam boa parte da abstenção

Grupo de pessoas que não votaram no domingo.
Grupo de pessoas que não votaram no domingo.

“O povo é soberano e tem que falar, é preciso escutá-lo, mas com o amparo de um marco legal. Senão é como jogar uma partida de futebol sem o árbitro”, argumenta Joan Bernaus, advogado de meia-idade, enquanto toma uma cerveja no Santa Fé, um bar a um passo da Praça de Sant Gregori Taumaturg, no coração da Barcelona mais espanhola.

A legalidade do referendo, sua duvidosa eficácia e o seu caráter de distração em relação a de temas como a corrupção são os motivos mais citados pela dezena de eleitores que optaram pela abstenção ao voto, entrevistados pelo EL PAÍS no domingo, na capital catalã.

“Há coisas mais importantes do que fazer todo este teatro. E é preciso fazer as coisas direito. O Governo central e o Governo catalão têm que fazer as coisas com bom senso, para que as pessoas saibam por que devem votar ‘sim’ ou ‘não’”, acrescenta Bernaus.

A votação dividiu, sem colocar em conflito, famílias como a de Salvador e Marta Puig, que também estão no Santa Fe. “Na nossa casa, dois foram votar e dois não”, afirma Salvador. Ele votou. Ela, não. “Se eu tivesse votado, teria escolhido ‘não’ à independência e ‘sim’ à outra questão [a de se a Catalunha deveria ser um Estado]. Mas achei que estava tudo tão confuso, que no fim não fui”, explica Marta.

Sua amiga Catalina também se absteve. “Não me interessa ser independentista. Na minha casa, nem minhas filhas nem eu apoiamos a ideia. Cada um tem sua preferência, mas acho que [o presidente do Governo catalão, Artur] Mas perdeu a cabeça. Sou valenciana, mas moro aqui desde os três anos, me casei com um catalão, minhas filhas são catalãs, a Catalunha é a minha terra, mas...”.

Renée tem 77 anos, é búlgara, mas vive na Espanha há muitos anos. “Não fui votar porque passei por uma cirurgia recentemente e não posso andar muito, mas se pudesse, teria optado por um ‘não’ bem grande, porque tudo o que estão fazendo me parece inútil”, explica, sentada em um terraço da Rua Doctor Fleming.

“É muito simples: não votei porque é um pleito ilegal”, diz Paco, ex-publicitário de 65 anos que encontramos na Av. General Mitre. Para ele, “juntos e unidos estamos melhor e temos muito mais possibilidades no conjunto europeu e no conjunto universal das nações, claro”. Mas se o referendo tivesse sido legal, Paco teria ido votar, porque “a solução para a Catalunha e para a Espanha passa pelo diálogo e, se necessário, por um referendo legal e reconhecido, como ocorreu no Québec e na Escócia”.

Antonio Sánchez, natural de Granada mas há 40 anos em Barcelona, vende bilhetes de loteria na vizinhança. Não foi às urnas “porque determinados partidos políticos daqui conclamaram a desobediência civil”. “A quem devemos obedecer? Ao Partido Popular (PP), que é o que está no Governo, ou a eles? E eu tinha votado no PP porque eles são os menos piores”.

O economista Antonio, de 61 anos, almoçava no mítico Sandor, da Praça Francesc Macià e tem clareza do motivo pelo qual não foi votar. “Porque [o referendo] é uma palhaçada, não tem apoio jurídico, e porque Mas se declarou exclusivamente como o presidente de uma parte dos catalães”. E completa: “Ele fez muito estardalhaço, e fico triste porque o que ele está fazendo é uma fratura social. E, no fim, seria o líder de 25% dos catalães. E os outros 75%? Por que Mas não é o presidente dos que também não foram votar. Parece-me lamentável e triste. Muito triste”.

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