Os aspirantes à presidência dos EUA põem sua estratégia à prova

Clinton e Paul preparam suas candidaturas na atual campanha das legislativas

College Park (Maryland) / Wichita
O republicano Rand Paul em evento do candidato ao Senado David Perdue. Ampliar foto
O republicano Rand Paul em evento do candidato ao Senado David Perdue. EFE

Eles atraem os holofotes mesmo não sendo candidatos. São figurantes dos verdadeiros candidatos às eleições legislativas da próxima terça-feira, nos Estados Unidos, mas em cada ato eleitoral se tornam as estrelas. Barack Obama ainda tem 27 meses pela frente na Casa Branca, mas os aspirantes à sucessão já se preparam e as legislativas são o último ensaio geral antes da campanha que começará na manhã da quarta-feira, 5 de novembro.

Ninguém anunciou a candidatura às presidenciais de 2016. Mas todos os que cogitam se candidatar —da democrata Hillary Clinton ao republicano Rand Paul— viajaram pelos Estados que podem ser chaves para alcançar a presidência e ajudam políticos cujo apoio futuro pode ser decisivo para preencher suas aspirações.

“Vamos dar as boas-vindas à vovó de Charlotte”, disse na quinta-feira Anthony Brown, candidato do Partido Democrata ao cargo de governador, em um comício em College Park, perto de Washington. Todos na plateia sabiam quem era a avó da recém-nascida Charlotte: Hillary Clinton, motivo pelo qual milhares de estudantes se reuniram em um ginásio da Universidade de Maryland.

Dois dias antes, Randal Howard Paul calçou botas de vaqueiro e, exibindo seu eterno paletó e gravata, aterrissou com um jato particular em um aeródromo de Wichita (Kansas) para emprestar sua voz ao senador Pat Roberts, ameaçado por um novo nome na cena política, o independente Greg Orman. “Pelo amor de Deus”, proclamou Paul diante de uma plateia de aposentados, jovens tatuados até as sobrancelhas e mulheres com cinco e até sete filhos, “Aqui não se pode perder, vocês são o republicano Estado de Kansas”, lembrou o senador. Com pesar, ao seu lado, Roberts movia a cabeça.

Nos últimos dias, Clinton esteve em Luisiana, Iowa, Kentucky, New Hampshire. Vendo sua agenda, parece que é ela quem disputa a eleição. Não é de todo falso. Ela não vai anunciar sua candidatura até o começo de 2015, mas poucos em seu partido, o democrata, e no republicano, duvidam que a ex-primeira-dama, ex-senadora e ex-secretária de Estado não queira se tornar a primeira presidenta dos EUA. Ela tentou em 2008 e Obama a derrotou nas primárias do Partido Democrata.

O discurso na Universidade de Maryland foi breve, mera formalidade antes de continuar a turnê. Não há rastro de Hillarymania, de uma emoção coletiva comparável à que rodeava os discursos de Obama quando, como Clinton agora, preparava sua candidatura à Casa Branca ajudando candidatos nas legislativas de 2006. Havia cadeiras vazias no auditório. E em três ocasiões, ativistas de direitos dos imigrantes interromperam as palavras da veterana política. A polícia os desalojou.

Os problemas que a candidatura de Hillary Clinton pode enfrentar em sua corrida à Casa Branca estão aí: a indefinição em questões essenciais para as bases democratas, como a imigração; o déficit de entusiasmo por uma figura que já dominava a política dos EUA há 20 anos e uma tendência a adequar a mensagem ao público –a famosa triangulação que sempre se criticou nos Clinton.

Rand Paul, senador pelo Kentucky, pisou em 30 Estados nos últimos 12 meses, aportando um imenso grão de areia para que os republicanos conquistem o Senado nas eleições de meio mandato. Esse oftalmologista de 51 anos, eleito durante a irresistível passagem do Tea Party em 2010, lançou, na reta final da campanha, o que se conhece como um PAC (Comitê de Ação Política, na sigla em inglês) para apoiar com anúncios os senadores que passam apertos na hora da reeleição no Kansas, Iowa ou na Carolina do Norte. Não é altruísmo, mas um investimento no futuro.

Mas em todos esses meses, semanas e dias de não campanha, há momentos de confrontação real entre os aspirantes ao título de presidente. Em Wichita, Rand Paul zombou de Hillary Clinton por conta de um comentário da ex-secretária de Estado no qual disse que as corporações e os negócios não criavam empregos. “Hillary Clinton vem e nos diz que as empresas não criam postos de trabalho”, disse o senador com sua voz suave e seu tom paciente. “Alguém aqui acredita que as empresas não criam trabalho?”, perguntou Paul ao público.

Por mais que Paul diga que anunciará na próxima primavera se é candidato republicano à presidência da primeira potência mundial, nesta mesma terça-feira, 28 de outubro, o senador pelo Kentucky deu o primeiro passo para ocupar a Casa Branca em 2016.

Hillary Clinton também não teria perdido nada em uma tarde nublada de outono, em um ginásio meio vazio de Maryland, se seus planos se limitassem a aproveitar a aposentadoria com sua única neta, Charlotte.

Porque um candidato não se faz vencedor da noite para o dia. Um candidato que queira ganhar cultiva o campo, mima as bases, se desvela pelos que algum dia poderão devolver a eles o favor. Regra número 1 de todo candidato com a cabeça em 2016: ir de Estado a Estado saltando como um grilo e dar uma ênfase especial em enaltecer aqueles que disputam o posto. Eles sabem que, com o tempo, serão os mais agradecidos.

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