Violência no Canadá

Atirador ataca o Parlamento do Canadá e deixa um soldado morto

Homem ataca a tiros o Parlamento de Ottawa e mata um soldado antes de ser abatido

Policiais e paramédicos socorrem homem ferido no tiroteio.
Policiais e paramédicos socorrem homem ferido no tiroteio.MICHEL COMTE (AFP)

O Canadá perdia a inocência esta manhã depois das dez, quando pelo menos um homem armado atacava a tiros o Parlamento de Ottawa pouco depois de abater um soldado que guardava o National War Memorial, monumento próximo ao legislativo canadense. O centro da cidade, em outras circunstâncias um lugar calmo e onde reina a ordem, foi fechado pela polícia e tomado por forças de segurança fortemente armadas que, a princípio, procuravam mais de um autor já que aconteceram vários incidentes.

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O atacante, cuja identidade ainda é desconhecida, foi abatido no interior do Parlamento do Canadá, segundo informou a polícia, que também confirmou que investigava se tinham acontecido dois ou três incidentes (o do Parlamento; o do do monumento e outro mais em um shopping center, que no final foi descartado), por isso procuravam mais suspeitos. Pelo menos duas pessoas estavam feridas, uma delas poderia ser um guarda do Parlamento.

O desta manhã é o segundo ataque que acontece no Canadá em uma semana. Na segunda-feira, um jovem de 25 anos, descrito pela polícia como alguém “claramente vinculado a uma ideologia terrorista” e investigado por seus laços com o jihadismo, matou um soldado e deixou outro ferido depois de atropelá-los deliberadamente com seu carro em uma cidade de Quebec. O incidente de Quebec coincidia com a partida de seis aviões de combate canadenses ao Kuwait para participar nos bombardeios que a coalizão internacional está realizando contra o autonomeado Estado Islâmico no Iraque. No começo do mês, a Câmara dos Comuns aprovava a participação nos ataques aéreos contra o EI. Ainda não se sabe se o incidente do atropelamento dos militares está relacionado ou não com o ataque ao Parlamento.

Perto das dez da manhã, um homem que chegou ao lugar de carro escondendo um rifle debaixo de uma manta abatia a tiros um soldado que fazia guarda no monumento à guerra em frente ao parlamento canadense, segundo relatavam os meios de comunicação locais. A partir daí houve uma escalada dos fatos que levaram à evacuação de urgência do primeiro-ministro canadense, Stephen Harper, que se encontrava reunido com legisladores de seu partido – o conservador – quando um homem armado entrou no edifício e passou correndo ao lado da porta em que se encontrava o mandatário.

“O primeiro-ministro estava reunido quando aconteceu uma forte explosão seguida de vários disparos”, disse Tony Clement, membro do Gabinete de Harper. Toda a área, conhecida como Parliament Hill e onde é habitual ver crianças jogando futebol nas áreas verdes, ficou fechada por forças policiais fortemente armadas.

No interior do edifício do Parlamento era possível escutar disparos e um repórter do jornal The Globe and Mail subiu um vídeo ao YouTube no qual era possível ouvir tiros e vários agentes da polícia disparando. Com informações frenéticas sendo divulgadas no Twitter, o porta-voz de Harper, Jason MacDonald, confirmou que o mandatário estava a salvo. Muitos jornalistas que cobriam a jornada parlamentária de hoje encontravam-se presos dentro do Parlamento, que estava sendo registrado minuciosamente pela polícia.

Citada pelo Globe and Mail, Carol Devine, a dona de uma joalheria de um hotel próximo ao Parlamento relatava que ninguém podia entrar ou sair do edifício. “É uma sensação muito estranha”, disse a mulher. “Sinto-me como no 11 de setembro, esse dia também estava trabalhando aqui e havia no hotel uma delegação dos EUA. Sinto a mesma sensação estranha daquele dia.”

O Canadá tinha elevado seu nível de alerta terrorista na terça-feira depois do incidente do jovem jihadista apesar de que não existia “uma ameaça específica”, segundo insistiram fontes oficiais, que atribuíram a precaução “ao aumento do burburinho online” de grupos radicais, incluindo o Estado Islâmico e a Al Qaeda.

No vizinho Estados Unidos, o presidente Barack Obama falou com o primeiro-ministro Harper, segundo confirmou o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest. “Tiveram oportunidade de conversar”, disse Earnest sem dar mais detalhes durante sua habitual entrevista coletiva. O FBI mandou que fosse elevado o nível de alerta em todas suas sedes e o Comando de Defesa Aeroespacial Norte-Americano (NORAD, por sua sigla em inglês), fazia o mesmo depois do ataque em Ottawa. “O NORAD está dando todos os passos apropriados e prudentes para estar em condições adequadas para responder rapidamente a qualquer incidente que afete a aviação no Canadá”, afirmou o Comando em sua conta oficial da rede social Twitter.

O Canadá não é totalmente estranho ao terrorismo e nos anos setenta sofreu com sequestros políticos por parte da Frente de Liberação de Quebec durante o que se conhece como a Crise de Outubro. O país tranquilo também viveu vários tiroteios, ambos em centros educativos, um na Escola Politécnica em 1989 e outro no Dawson College em 2006.

O prefeito de Ottawa, Jim Watson, assegurou em uma entrevista coletiva que era “um dia triste e trágico para nossa cidade e nosso país”. A seu lado, porta-vozes da polícia afirmavam que a situação continuava “fluída” e que a investigação continuava. “Todos queremos respostas” e as autoridades trabalham para proporcioná-las, confirmou o prefeito. Foi pouca a informação que a polícia pôde proporcionar durante a entrevista coletiva, a não ser admitir que o ataque pegou a todos “de surpresa”, segundo reconheceu Gilles Michaud, da Polícia Montada do Canadá.

Em um comunicado, o primeiro-ministro Harper, sublinhou “a importância de que o Governo e o Parlamento continuem funcionando” apesar do violento incidente. Mas Ottawa estava em estado de choque e o coração do Governo canadense havia sido tocado para sempre.