Ironia pop

Depois de colaborar com Almodóvar em 'Fale com ela', Caetano Veloso comenta a obra do diretor, na ocasião em que ele recebeu o prêmio Príncipe de Astúrias das Artes, em 2006

Pedro Almodóvar se transformou em um artista síntese das complexas relações que se apresentaram, a partir dos anos 60 do século XX, entre a cultura séria e a arte popular de massa. Não só criou um cinema que é ao mesmo tempo popular e profundo, como também fez de seu cinema um perpétuo comentário sobre essa questão.

Fellini era popular e profundo, Godard é um perpétuo comentário sobre o fato do que o cinema pode vir a ser. Mas os filmes de Pedro não pretendem ser tão impopulares como música dodecafônica ou as fórmulas quânticas – seus filmes também não estão presos em suas narrativas. Sua obra está mais próxima do rock do que do jazz.

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É a vitória da inteligência livre guiando uma sensibilidade intensa: o sonho dos músicos da minha geração. Quando vi A lei do desejo, o primeiro filme dele que assisti, compreendi imediatamente que seria assim. Seus filmes são a oportunidade ideal para observar o quanto de silêncio comicamente reverente existe nos espectadores franceses, e o quanto de risadas vazias existe nos espectadores norte-americanos. E nos fazem compreender como, nos dois casos, tudo é comovedor.

São também a expressão do espírito espanhol, com uma versão particular de seu sentido de humor, impregnada de ironia pop. Nos Estados Unidos disseram que Fale com ela é o melhor filme da década, um dos melhores de todos os tempos, um em um século, e sei lá mais o quê. E agora ele ganha o prêmio Príncipe de Astúrias. É uma glória merecida. E sobretudo, é a confirmação da universalidade de seu gênio, uma experiência sobre a qual todos nós, de cultura ibérica, devemos pensar muito.

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