Quem ganha e quem perde com a queda do preço do petróleo?

Países importadores, como a Espanha, são os mais beneficiados pelo menor custo Efeito do corte do preço do barril chega muito lentamente nos postos de gasolina

Plataformas petrolíferas da Pemex no México.
Plataformas petrolíferas da Pemex no México.Susana Gonzalez (Bloomberg)

O preço do petróleo está em queda livre. O barril de Brent, o óleo cru de referência na Europa, passou de 115 dólares (295,88 reais) em junho para aproximadamente 84 dólares (216,12 reais) em outubro, ou seja, mais de 26% de baixa. O West Texas, a variedade de referência para os Estados Unidos, estava em 82 dólares (210,98 reais). A cotação de preços dos dois produtos já era a mais baixa desde 2010. E, nesta quinta-feira, o preço baixou mais ainda: para 79,84 dólares. Os motivos da derrubada são vários, e vão desde as novas técnicas de extração que elevam a produção (como a perfuração hidráulica), às recentes exportações dos EUA ou a maior oferta vinda de países como a Líbia e o Iraque. Para além das causas, quem ganha e quem perde com a baixa dos preços? A Espanha está no lado ganhador. Mas é preciso ter cuidado: uma queda de 26% do óleo cru não significa que amanhã a gasolina vá custar 26% a menos para os espanhóis ou os brasileiros.

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O petróleo agora é barato?

É mais barato que em junho. E que nos últimos quatro anos: o preço médio do óleo cru em 2011 era de 107 dólares (275,30 reais), em 2012 de 111 dólares (285,59 reais) e em 2012, de 110 dólares (283,02 reais). Mas seu custo não pode ser considerado barato se a evolução for olhada com mais perspectiva: em 2008, o preço médio do barril era de 45 dólares (115,78 reais) e chegou naquele ano a cair para 36 dólares (92,62 reais).

Quem mais ganha: os países importadores

Os países com grande dependência energética serão, em princípio, os principais beneficiados com contas entre 20% e 30% mais baratas. Não é questão de quais países consomem mais, mas quais são obrigados a importar mais barris e, portanto, a pagá-lo com preços mais caros.

Europa, a grande beneficiada. Por regiões, a Europa é a que realizou as maiores importações de petróleo do exterior em 2013: comprou 9,3 milhões de barris de óleo cru por dia e outros 3,3 milhões de barris de produtos petrolíferos, segundo o relatório anual World Energy 2014. Ainda que seja necessário levar em consideração que os preços variam de acordo com os produtos, a procedência e os seguros sobre os preços de combustível, uma queda de preços de 30% (de 110 dólares [283,02 reais] para 80 dólares [205,83 reais] por barril), é possível verificar uma economia conjunta média de 370 milhões de dólares (951, 97 milhões de reais) por dia em matéria prima.

A Espanha, no grupo ganhador. A Espanha consome em média 1,2 milhões de barris de petróleo por dia. E não produz praticamente nada. Comprar esses barris dos países produtores por 80 dólares (205,83 reais) no lugar de 110 (283,02 reais), se o consumo se mantiver esse ano, significaria gastar 36 milhões de dólares (92,66 milhões de reais) a menos por dia na matéria prima do combustível. Haverá economia se os preços continuarem baixos, ainda que seja muito difícil quantificar seu valor real, já que o preço do óleo cru varia a cada dia, da mesma forma que o consumo.

Impulso para a China e a Índia. A conta energética de duas das economias mais pujantes do mundo é muito alta. Os dois países importam mais petróleo do que toda a Europa junta. A China compra no exterior 5,6 milhões de barris de óleo cru por dia e 1,2 milhões de outros produtos petrolíferos. Suas exportações são mínimas. A Índia, por seu lado, não exporta nada e se vê obrigada a importar 3,8 milhões de barris de óleo cru por dia.

Os motoristas? Talvez no futuro. Se o barril vale 26% a menos, significa que uma pessoa que abasteça seu carro com gasolina pagará 26% a menos? Não. Os brasileiros não verão sua conta nos postos de gasolina reduzida a esse ponto – pelo contrário, o preço da gasolina subiu neste ano. No momento, bem pouco da queda nos preços mundiais foi notado nos postos. A primeira explicação está relacionada com a composição do preço do combustível: o preço do óleo cru é somente uma parte do que pagam por cada litro de gasolina, já que, além da matéria-prima do petróleo, a gasolina tem incluso no preço o custo do refino e transformação, assim como uma elevada porcentagem de impostos. Em tudo isso, é preciso adicionar também o peso da moeda: o petróleo é pago em dólares. Se o euro se desvaloriza (como aconteceu, passou de 1,36 [3,50 reais] para 1,28 dólares [3,29 reais] desde junho), a compra de barris para países do euro sai mais cara, e isso pode amortizar a queda do preço da matéria prima. Esta baixa será mais intensa nos próximos dias? Depende em parte das empresas donas dos postos de gasolina. Por enquanto, desde junho, ficou três centavos mais barata na Espanha, por exemplo. Talvez seja questão de tempo, ainda que as autoridades da área há anos denunciem o efeito foguete-pena: significa que os postos colocam os aumentos de preço como um foguete, mas as diminuições refletem-se com a velocidade da queda de uma pena.

Empresas industriais, companhias aéreas, transporte por rodovia... A conta energética é uma parte essencial das empresas e, na indústria, um elemento básico de competitividade frente outros países. Além disso, o petróleo é usado como matéria-prima de uma grande variedade de produtos químicos. Para as companhias aéreas, o custo do combustível implica cerca de 30% de seus custos fixos, o que deveria fazer com que se beneficiassem com descontos. Do mesmo modo, todas as companhias que trabalham com transporte por rodovias poderiam se beneficiar pelo menor preço do combustível, ainda que nesse caso dependa se o transporte for feito com mais frequência para os fornecedores, algo que, por enquanto, ainda não aconteceu.

Algumas companhias de cobertura de riscos por combustível. Nas indústrias nas quais o preço do petróleo é vital, como na indústria aérea, é comum a existência de seguros ou coberturas, que as empresas contratam para que, se o preço disparar, tenham ao menos uma porcentagem desse aumento coberto. Os preços estão baixando e, portanto, as empresas que pagaram esses contratos não ativarão os seguros, os que beneficia as firmas que os emitiram.

Os que perdem: exportadores e petroleiras

O mercado de petróleo funciona, em princípio, marcado pela oferta e pela demanda. Mas também marcado pela previsão de oferta e demanda, por conta do elevado peso no setor dos contratos futuros e seguros de cobertura. Para os países exportadores de petróleo, uma queda de preços se traduz em uma redução da renda. A questão é se finalmente alguns grandes produtores agirão contra a queda, reduzindo sua produção para manter os preços.

Os grandes exportadores. Os 11 países da Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP) produzem cerca de 40% do óleo cru do mundo. A Arábia Saudita produz 11,5 milhões de barris por dia. O Irã, 3,5 milhões. A Nigéria, 2,3 milhões... A imensa maioria vai para a exportação e agora será menos rentável. Além da OPEP, a Rússia é outro dos grandes operadores do mundo: produz mais de 10 milhões de barris por dia. Apesar da redução de preços, no momento, os exportadores tradicionais não fizeram cortes na produção para aumentar os preços e parecem apostar em manter as cotas do mercado.

Os novos produtores. Existem países, como o Brasil, que entraram nos últimos anos na lista de exportadores ou áreas como Vaca Muerta (Argentina) onde se multiplicaram os trabalhos de extração, apesar dos trabalhos poderem ficar mais caros, pois o elevado preço de venda compensa. Se a queda de preços ficar muito acelerada, poderia desincentivar as técnicas extrativas mais caras.

As empresas petrolíferas. As contas das companhias petrolíferas estão ligadas ao preço internacional do óleo cru, do refino e dos achados feitos durante o ano. A queda do preço do óleo cru, se continuar, pode impactar nos resultados da Rapsol, Cepsa e BP. No momento, os investidores já se movimentam diante do possível efeito: as ações da Repsol caíram 16% desde junho. As da BP, mais de 20%.

Uma beliscada nos cofres públicos? Os fundos públicos dos países produtores de petróleo são alimentados pelas rendas da exportação do óleo cru. Entretanto, até nos países importadores, o preço do combustível está ligado aos impostos. Dos 1,4 euros (4,50 reais) que o litro de diesel custa na Espanha, 0,7 euros (2,25 reais) são de impostos. E, se o preço baixar, a arrecadação diminuirá. O Governo estima uma arrecadação de 9,94 bilhões de euros (31,93 bilhões de reais) em hidrocarbonetos esse ano, e de 10,69 bilhões de euros (34,34 bilhões de reais) em 2015. Segundo as estimativas dos Orçamentos Gerais do Estado, o preço médio do óleo cru será de 106,2 dólares (273,36 reais) por barril este ano e de 104,1 dólares (267,95 reais) no próximo ano. Sendo inferiores, podem reduzir a arrecadação tributária, ainda que os benefícios pelo custo inferior compensem.

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