INGO PLÖGER | Presidente do CEAL

“Hoje temos um mercado mais aberto e integrado na América Latina”

O brasileiro Ingo Plöger acaba de se tornar o novo presidente do Conselho Empresarial da América Latina, que completa 25 anos

Ingo Plöguer, novo presidente do Conselho Empresarial de América Latina.
Ingo Plöguer, novo presidente do Conselho Empresarial de América Latina.JULIAN ROJAS

Ingo Plöger tornou-se, na última sexta-feira, o novo presidente do Conselho Empresarial da América Latina (CEAL). O brasileiro assumiu o lugar de Samuel Urrutia, exatamente no momento em que a entidade completa 25 anos.

Pergunta. O que mudou na economia latino-americana nesses últimos 25 anos?

Resposta. Há 25 anos, ainda estávamos em um mundo muito fechado. O muro de Berlim estava de pé. Naquela época, uma série de instituições estavam começando a integrar o continente. Atualmente, temos um mercado mais aberto e integrado.

P. E a relação entre a Espanha e a América Latina?

R. Com a abertura econômica e a estabilidade política, a Espanha investiu em infraestrutura, comunicações, construção, hotelaria, turismo, sistemas financeiros e de seguros. A Espanha virou um sócio muito importante para o continente.

P. Como a crise mudou a situação?

R. As crises revelam as fragilidades dos países e das empresas, mas também os seus pontos mais sólidos. Apesar de a Espanha ter passado por uma crise muito forte, as empresas e as instituições espanholas revelaram-se muito sólidas. As empresas se renovaram, se reinventaram, se flexibilizaram muito, dando oportunidade a novas ideias e projetos.

P. Você disse que a crise já passou. Que passos acredita que a Espanha deve dar a partir de agora?

R. A Espanha está começando o seu plano de recuperação. Do lado de fora, dá para ver com clareza que há uma recuperação, mas ainda existem muitas coisas a se fazer. Em um mercado global, a pergunta que a Espanha deve se fazer é o que pode oferecer aos investidores. Há setores que precisam ser abertos, como os aeroportos, e também deve haver uma ofensiva política à União Europeia para construir infraestruturas de transporte que integrem a Espanha no mercado energético europeu. A Espanha tem um excesso de energia, tanto convencional quanto renovável, e a Alemanha é muito dependente do gás russo. Essa energia deveria ser transportada da Espanha para a Alemanha. Terá que trabalhar com a França, e isso não será fácil.

P. A crise conseguiu alterar a atitude dos empresários norte-americanos com os europeus e vice-versa?

R. Sem dúvida muita coisa mudou. O investidor espanhol se deu conta de que a América Latina é um mercado complexo, com uma gestão diferente. Muitas empresas aprenderam a delegar mais e confiar nas pessoas da região. E isso fez com que, assim como as empresas latinas começaram a contar com executivos espanhóis em seus conselhos de administração, as empresas espanholas já trazem talentos da América Latina para seus corpos diretivos.

P. Acredita que essa nova atitude vai continuar aconteça o que acontecer com a economia, tanto para um lado quanto para o outro?

R. Sim. Porque as empresas aprenderam a servir os dois mercados com a mesma precisão. O presidente da associação mexicana de empresários disse que há 4.500 empresas espanholas no México. A imensa maioria são pequenas e médias empresas, muitas delas familiares, que são muito ativas e sofrem com as crises aqui e ali. E isso causa uma grande aproximação.

P. A América Latina mudou muito, mas ainda há muito a ser feito?

R. Primeiro, tem que melhorar a qualidade da democracia; uma participação mais direta, transparente e forte; segundo, a educação tem que virar prioridade nas políticas públicas; terceiro, tem que seguir com o processo de inclusão social que faz a classe média crescer; quarto, a integração latino-americana é irreversível e tem que avançar com coragem, e não apenas dentro dos blocos do Mercosul e da Aliança do Pacífico, mas entre eles; quinto, instalar cadeias produtivas globais, e sexto, sustentabilidade com inovação, porque esses são os valores agregados que podem acontecer na América Latina.

Nuria Vilanova: “Há que impulsionar projetos conjuntos”

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C. D.

Nuria Vilanova é a responsável pela Seção Ibérica do CEAL, a divisão do organismo que lida com Espanha, Portugal e Andorra, que nasceu em janeiro e, em seu primeiro ano de funcionamento, organizou e sediou a assembleia do 25° aniversário do conselho.

Pergunta. Por que o Conselho Empresarial da América Latina criou um grupo específico para a península ibérica?

Resposta. O CEAL nasceu com a ideia de facilitar a criação de redes entre empresários de distintos países da América Latina, porque os vínculos de confiança facilitam a criação de empresas e projetos conjuntos. Acreditamos que seria importante que os empresários espanhóis também pudessem participar dessas redes e fortalecer suas relações com a América Latina.

P. Funcionou?

R. O fato de que no nosso primeiro ano conseguimos sediar a assembleia do 25° aniversário e que as inscrições superaram em muito as expectativas, com 450 participantes e empresários de primeiro escalão, demonstra o entusiasmo que há nas duas partes.

P. Depois de 25 anos de investimentos na América Latina por parte das empresas espanholas, chegou a hora de sejam estas as que apostam e investem em projetos espanhóis?

R. Essa é uma tendência em auge nos últimos anos, sim. Mas agora devemos buscar a terceira dimensão: que empresas espanholas e latino-americanas sejam aliadas em projetos conjuntos.

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