A crise do ebola

O impacto econômico do ebola pode ser “catastrófico”, diz Banco Mundial

A instituição alerta para uma queda de 1,9 bilhão de reais do PIB total dos países afetados em 2015

Uma mulher carrega os pertences de seu esposo, vítima do ebola, na Libéria.
Uma mulher carrega os pertences de seu esposo, vítima do ebola, na Libéria.ZOOM DOSSO (AFP)

O impacto econômico do ebola pode ser “catastrófico” para os três países mais afetados pelo vírus na África Ocidental: Libéria, Serra Leoa e Guiné. O Banco Mundial alertou que, se o surto continuar se propagando, o prejuízo se multiplicará por oito em 2015. A instituição calcula que, se a epidemia for controlada, o efeito resultará em uma queda de 97 milhões de dólares (cerca de 229 milhões de reais) do Produto Interno Bruto (PIB) total. Mas, se não for contida, a cifra poderá chegar a 809 milhões de dólares (1,9 bilhão de reais). Em qualquer caso, a perdas em 2014 chegam a 359 milhões de dólares (847 milhões de reais), segundo um relatório publicado pelo banco esta quarta-feira.

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“O medo é o fator que tem um maior impacto na economia”, afirma o brasileiro Francisco Ferreira, economista-chefe do Banco Mundial para a África e um dos autores do estudo. Segundo ele, é o medo que prende os trabalhadores em suas casas, o que paralisa o trabalho nos campos e reservas minerais, o que ocasiona o bloqueio das estradas e a suspensão de voos, o que faz com que as pessoas saiam de casa para comprar —e, portanto, vender— com menos frequência...

A Libéria é a mais atingida pelo vírus, que causou 2.461 mortes de um total de 4.985 casos. Em Monróvia, a capital, 50% das lojas fecharam no mês passado e o consumo de gasolina caiu 25%, afirma Ferreira. “Vemos que está ocorrendo o que aconteceu há 10 anos com a SARS”, diz em referência à Síndrome Respiratória Aguda Grave que se espalhou pelo sudeste asiático e chegou até o Canadá. “Cerca de 80% a 90% do impacto econômico era devido ao comportamento de aversão”, afirma.

Para o Banco Mundial, a chave está precisamente nesse ponto. A análise considera que os custos podem ser “limitados” caso a epidemia seja controlada, mas também se esse “comportamento de aversão” é “mitigado”. “O principal custo desse trágico surto são as vidas humanas e o sofrimento”, destacou a instituição no documento, “mas nossos resultados deixam claro que o quanto antes consigamos uma adequada resposta de contenção e se reduza o nível de medo e incerteza, mais rápido podemos mitigar o impacto econômico do ebola”.

O setor de serviços foi o mais afetado, seguido pelo de agricultura e, em menor medida, o de mineração. No pior dos cenários traçados pelo Banco Mundial, o crescimento econômico cairia em 11,7 pontos percentuais na Libéria no ano que vem, se a epidemia não for controlada; 8,9 pontos em Serra Leoa e 2,3 pontos na Guiné. No caso da Libéria, significaria passar de uma previsão de crescimento de 6,8% para uma retração de 4,9%.

Enquanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgava esta semana uma estimativa que apontava em 1 bilhão de dólares (2,3 bilhões de reais) os recursos necessários para controlar o surto, a União Europeia reconhecia que suas medidas chegaram com atraso. “A resposta agora está bem organizada mas, nos primeiros meses, tanto do ponto de vista local quanto da comunidade internacional, houve dificuldade para reconhecer a gravidade da situação”, destaca Ferreira, da sede do Banco Mundial em Washington.

A instituição também avaliou o impacto no curto prazo. A economia da Guiné crescerá apenas 2,4% este ano e não mais 4,5%, como havia sido previsto; na Libéria, a estimativa de expansão do PIB em 2014 caiu de 5,9% para 2,5% no mesmo período; em Serra Leoa, o crescimento previsto é de 8% contra uma projeção anterior de 11,3%. O impacto em matéria fiscal também é elevado: 93 milhões de dólares (219 milhões de reais) na Libéria (4,7% do PIB); 79 milhões de dólares (186 milhões de reais) em Serra Leoa (1,8%); e 120 milhões de dólares (283 milhões de reais) na Guiné (1,8%)

O Fundo Monetário Internacional (FMI) também alertou sobre o impacto econômico em setores-chave como a agricultura, a mineração e os serviços, o que também afeta a oferta de alimentos e mão de obra. A instituição aprovou uma linha de crédito de 127 milhões de dólares (299 milhões de reais), que ainda precisa ser aprovada pelo conselho do FMI. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) pediu 200 milhões de dólares para proteger 8,5 milhões de crianças que vivem nesses três países.

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