Estado Islâmico

A Turquia só dará apoio logístico e humanitário contra o Estado Islâmico

O país teme represálias em solo turco, já que os jihadistas têm 46 reféns turcos no Iraque

O secretário de Estado dos EUA e o presidente turco em Ancara, no dia 12 de setembro. / Foto: AFP | Vídeo: Reuters (reuters_live)

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, confirmou na sexta-feira ao secretário de Estado norte-americano John Kerry que a Turquia só oferecerá apoio logístico e humanitário à coalizão internacional contra a milícia jihadista do Estado Islâmico (EI).

“[A Turquia e os Estados Unidos] continuarão lutando contra as organizações terroristas na região tal como fizeram até agora”, afirmou o escritório da Presidência turca em um comunicado emitido após a reunião entre Erdogan e Kerry. O norte-americano, por seu lado, negou-se a detalhar quais países se juntariam à coalizão —mas descartou o Irã— e o papel que cada um terá. “É completamente prematuro, e francamente inapropriado neste momento”, especificar esses extremos, disse Kerry.

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Ancara continuará compartilhando informes de inteligência com os EUA, dando apoio logístico e fornecendo ajuda humanitária às vítimas da guerra na Síria, segundo citação do comunicado feita pela agência France-Presse.

Depois de chegar a Ancara, Kerry, que também se reuniu com o ministro de Relações Exteriores Mevlut Cavusoglu e com o novo primeiro- ministro Ahmet Davutoglu, anunciou que seu país doará outros 500 milhões de dólares (cerca de 1,17 bilhão de reais) para as vítimas do conflito na Síria. Dessa quantia, 47,4 milhões de dólares irão diretamente para a Turquia.

No total, e já contando esse novo aporte, desde o início do conflito os Estados Unidos já gastaram 1,4 bilhão de dólares, dos quais 209,3 milhões de dólares foram para a Turquia. Essa ajuda também beneficiará a Turquia, que acolhe em seu território cerca de um milhão de refugiados sírios.

País membro da OTAN e aliado tradicional dos Estados Unidos, a Turquia se apresentava como um parceiro-chave na coalizão contra o EI, já que era o único Estado muçulmano do primeiro grupo de 10 países membros, e também era o único que neste momento tem fronteiras com o território ocupado pelo EI na Síria e no Iraque.

Entretanto, desde o primeiro momento, a Turquia não tinha se mostrado inclinada a participar ativamente da luta contra o Estado Islâmico. De fato, Kerry chegou a Ancara vindo da Arábia Saudita, onde havia conseguido que 10 países árabes aceitassem assinar sua participação em uma "campanha militar coordenada" contra o EI. Mas a Turquia, que também havia participado do encontro, não assinou esse documento.

“Nossas mãos e nossos braços estão atados por causa dos reféns”, afirmou na quinta-feira um oficial do Governo turco, que se manteve no anonimato, à agência France-Presse, em referência aos 46 cidadãos turcos ao menos que o EI mantém retidos em Mossul, no norte do Iraque, entre eles o cônsul turco nessa cidade, pessoal diplomático e membros das forças especiais, além de várias crianças.

“[A base da OTAN em] Incirlik será usada unicamente para operações logísticas e de assistência humanitária”, afirmou esse oficial, que insistiu na ideia: “A Turquia não participará de operações armadas, mas vai se concentrar completamente em operações humanitárias”.

A proximidade das milícias jihadistas do outro lado de suas fronteiras faz com que Ancara tema que o EI realize atentados em território turco como represália a possíveis ataques contra seus militantes.

Além disso, a Turquia está preocupada que armas destinadas a combater o EI possam acabar nas mãos da milícia do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, na sigla em curdo), que atualmente participa da luta contra os jihadistas no Iraque e é considerada uma organização terrorista por Ancara, a União Europeia e os Estados Unidos. Apesar de estarem neste momento no meio de um frágil processo de paz, a Turquia e o PKK se enfrentam desde 1984 em um conflito armado que causou mais de 40.000 mortes, a maioria de militantes curdos.

Por último, Ancara também teme que a luta internacional contra o EI acabe favorecendo, na Síria, o regime do presidente Bashar al-Assad, atualmente inimigo declarado da Turquia, que desde o princípio da guerra apoiou os rebeldes. Ancara inclusive foi acusada, em um primeiro momento, de não impedir o trânsito pela Turquia de jihadistas estrangeiros que se dirigiam à Síria para lutar contra al- Assad.

O Pentágono e Morenés tratam da ameaça jihadista

O secretário de Defesa dos EUA, Chuck Hagel, analisou por telefone com seu colega espanhol Pedro Morenés, a ofensiva norte-americana contra a milícia jihadista sunita do Estado Islâmico (EI), informou no sábado o Pentágono. "Conversaram [na quinta-feira] sobre diversos assuntos de defesa, inclusive sobre os atuais acontecimentos na coalizão contra o Estado Islâmico do Iraque e do Levante", explicou o contra-almirante John Kirby em um comunicado fazendo referência ao nome pelo qual era conhecida antes essa organização terrorista.

Hagel agradeceu Morenés pela "sólida relação militar" com a Espanha e que o país acolha as forças norte-americanas nas bases de Morón (Sevilha) e Rota (Cádiz). O Pentágono não explicou se a Espanha ofereceu apoio militar ou material à coalizão multinacional, liderada pelos Estados Unidos, para intensificar os ataques aéreos contra posições do EI no Iraque e na Síria.

Na segunda-feira, Morenés disse que a Espanha está envolvida na luta internacional contra o jihadismo e "contribuirá com o que tiver que contribuir" quando a OTAN concretizar a atuação que considere oportuna contra o EI. Morenés negou as interpretações de que a Espanha não participa ativamente da luta contra o jihadismo depois que decidiu não fazer parte da coalizão internacional contra o EI, surgida na cúpula da OTAN realizada no País de Gales no começo do mês.