Putin pressiona Kiev a negociar sobre a estrutura estatal da Ucrânia

Moscou busca uma autonomia que considere os interesses dos cidadãos que falam russo no país

O presidente russo, Vladimir Putin, na Sibéria.
O presidente russo, Vladimir Putin, na Sibéria.Alexei Druzhinin (AP)

O presidente russo Vladimir Putin voltou a pressionar Kiev para sentar com os separatistas, negociar a paz e concordar em ceder ao leste da Ucrânia uma autonomia que considere os interesses dos cidadãos que falam russo. Além disso, Putin criticou o apoio que a União Europeia está dando ao Governo ucraniano e recomendou que ela repense a sua política em relação a Kiev. Enquanto isso, a Ucrânia devolveu os dez paraquedistas que havia preso em seu território, e o Kremlin entregou os 63 soldados que cruzaram a fronteira com a Rússia para escapar dos combates.

"É urgente começar negociações substanciais, não sobre temas técnicos, mas sobre questões de organização política da sociedade e modelo de Estado no sudeste da Ucrânia", declarou Putin em entrevista divulgada pela televisão pública da Rússia. As conversas precisam ter como objetivo "garantir os direitos legítimos de quem vive naquela região", ou seja, da população que fala russo, maioria nas províncias de Donetsk e Lugansk.

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Putin – como fazem também alguns políticos alemães e austríacos – defende um modelo estatal federativo para a Ucrânia, que permita às regiões ter um nível significativo de autonomia, tanto no que se refere ao idioma, quanto à gestão das suas finanças. Politicamente, deveria ter o direito de eleger as suas autoridades, inclusive os governadores, que atualmente são diretamente nomeados por Kiev, sem sequer precisar da aprovação da Assembleia Legislativa provincial.

O líder russo não esconde que tem poucas esperanças de que isso ocorra em curto prazo, por causa das eleições parlamentares, convocadas pelo presidente ucraniano Petro Poroshenko para 26 de outubro. "Os candidatos querem se mostrar como homens e mulheres fortes nos comícios. À medida que o tom do debate político cresça, será mais difícil buscar uma solução pacífica e não militar", disse. Ao mesmo tempo, comentou que é ingênuo querer que os rebeldes fiquem de braços cruzados e esperem sentados as negociações prometidas, enquanto assistem "às cidades e aos povos do sudeste da Ucrânia serem bombardeados e arrasados" pelas tropas de Kiev.

Os dez soldados russos das tropas aéreas que foram presos na última segunda-feira em território ucraniano foram devolvidos à Rússia que, por sua vez, permitiu que 63 combatentes da Guarda Nacional, que haviam cruzado a fronteira fugindo dos combates na zona e se encontravam em território russo, retornassem à Ucrânia. Essa é a primeira troca que Moscou e Kiev realizam; anteriormente, o Kremlin havia entregado unilateralmente os soldados ucranianos que haviam ido à Rússia em busca de refúgio (cerca de quinhentos no total).

Quando capturou os paraquedistas russos, a Ucrânia acusou a Rússia de invasão e de estar participando diretamente na guerra no leste do país com suas tropas. Moscou tratou de minimizar o incidente e explicou que os soldados haviam cruzado a fronteira aparentemente por acidente, enquanto patrulhavam uma zona de fronteira não demarcada. Como argumento a favor de que não cumpriam nenhuma missão em território ucraniano, a Rússia fez questão de ressaltar que eles foram capturados com documentos e sem armas carregadas, o que seria inconcebível se realmente estivessem envolvidos em uma operação militar em território estrangeiro.

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