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John Neschling: “O Municipal é hoje um dos melhores teatros da América Latina”

O maestro que já dirigiu importantes casas de ópera europeias e renovou a OSESP se orgulha da atual lotação do principal teatro paulistano

John Neschling posa no centro do palco do Municipal.
John Neschling posa no centro do palco do Municipal.Bosco Martín

Os paulistanos “amantes da ópera” já podem respirar aliviados. Segundo o maestro John Neschling, eles são muitos e estão crescendo não só na cidade, que “tem uma enorme tradição lírica que vem de 100 anos de história”, mas no mundo inteiro. Em São Paulo, a boa fase atual é atribuída à renovação pela que seu Theatro Municipal passa desde o início de 2013, quando Neschling assumiu a direção artística da casa – uma das principais arenas artísticas paulistanas, que, segundo ele, agora figura entre uma das melhores da América Latina.

Não é pouca coisa: depois de três anos fechado para reforma, o teatro reabriu em 2011, modernizado, porém com limitações técnicas e administrativas, além de uma programação que atraía pouco público. Com a experiência que conseguiu em teatros europeus como os de São Carlos (Portugal), St. Gallen (Suíça), Bordeaux (França) e Massimo de Palermo (Itália) e depois de 12 anos à frente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo – a hoje internacionalmente renomada OSESP –, o maestro carioca, cuja fama não é de ter só amigos, mas que é considerado um gestor competente, fez o Municipal saltar de 61 mil visitantes em 2012 para 112 mil no ano passado.

Esse aumento expressivo de público tem a ver com preços acessíveis e uma programação de apelo popular, que continuou em 2014 com óperas como Trovatore e Falstaff, de Giuseppe Verdi, e a famosa Carmen, de Bizet (cujos ingressos se esgotaram com um mês de antecedência). Para Neschling, se deve também à qualidade do show: “Só se cria um público fiel apresentando excelência”, afirma.

Em entrevista exclusiva ao EL PAÍS, ele comenta as mudanças implementadas em sua gestão e também os novos rumos da ópera – sua “substância única” e a necessidade que ela tem de novas roupagens e tecnologia para conseguir atrair os jovens. Confira.

Pergunta. Como você encontrou o Theatro Municipal no início da sua gestão?

Resposta. O cenário era desolador. Embora tenham dito que o teatro sofreu uma reforma que o deixou “uma joia”, isso não conferia, absolutamente, com a verdade. A plateia e o palco foram, de fato, remodelados e colocados num estado bastante moderno, mas ainda assim faltava muito. Mais do que técnica, faltava gente. O teatro não tinha sido restaurado na sua parte “de trás”, numa espécie de menosprezo com quem trabalha nele. Não se aproveitou o tempo em que ele ficou fechado para reestruturá-lo administrativamente. Criaram uma fundação que não tinha condições de funcionar, porque sofria com os mesmos problemas e impedimentos da prefeitura. Só com a chegada de uma organização social que pudesse se acoplar a uma fundação pública e assumir a parte burocrática é que, de certa forma, nós conseguimos contornar certos impedimentos. Mas isso também não resolveu o problema humano. Não havia departamentos funcionando, uma direção técnica que entendesse do teatro, por exemplo, ou uma direção de iluminação, assistentes, direção de figurino, nada.

P. A que você atribui esse cenário?

R. O Municipal foi mal administrado nos últimos 50 anos. Quando você deixa um teatro à mingua durante tanto tempo, ele acaba, se destroça. O principal objetivo quando assumi, no começo de 2013, foi justamente reconstruir as oficinas, para que ele pudesse funcionar com gente que entendesse de cada um dos departamentos. Antes, não havia produção própria. O teatro entregava os espetáculos a particulares – empresários que controlavam tudo. Havia alguns funcionários trabalhando na base da gorjeta, porque ganhavam muito pouco.

P. E que mudanças aconteceram desde a sua chegada?

R. Agora, nós temos funcionários em tempo integral – gente que trabalha com a produção própria da casa –, e construímos nossos próprios cenários, às vezes com ajuda externa, mas as produções são nossas. Trouxemos um diretor técnico da Espanha, Juan Guillermo Nova, com um grupo de pessoas que trabalha com ele. Fomos implementando, pouco a pouco, produção, administração artística, figurantes... E introduzimos aqui uma cultura de teatro de ópera. A casa tinha um público que oscilava entre pouco e mais ou menos. Mas não tinha um público fixo; não havia assinaturas, evidentemente. Nós implementamos esse sistema com uma proposta muito boa de programação. Essas assinaturas chegaram a 2.000 no primeiro ano, mais ou menos, e no segundo passaram de 5.000. No terceiro ano, esperamos chegar a 7.000. Isso significa que temos casa cheia sempre, só com as assinaturas.

P. A verba gerada com isso ajuda o teatro a se manter?

R. Sim, embora a verba que vem das assinaturas não seja substantiva. O teatro é, em grande parte, subsidiado pela prefeitura, pelo poder público. Mas iniciamos uma política muito agressiva de consolidação de fundos de patrocínio. Estamos buscando patrocínios e merchadising. Começamos agora, porque minha ideia era ter primeiro um produto nas mãos antes de tentar vendê-lo às grandes empresas.

Vista da plateia do Theatro Municipal, que recebe até 1.400 pessoas.
Vista da plateia do Theatro Municipal, que recebe até 1.400 pessoas.Ricardo Kleine

P. Ter profissionais estrangeiros no teatro é um dos seus objetivos?

R. Há cantores brasileiros que participam de quase todas as nossas produções. Eu utilizei, neste último ano e meio, uma maioria de cantores brasileiros, só que nem sempre nos papeis principais. Então existe, ainda que informalmente, um grupo de cantores nacionais que está umbilicalmente ligado ao teatro, secundários ou principais. Embora muita gente reclamasse e ainda reclame da presença de profissionais estrangeiros, não tenho absolutamente nenhum chauvinismo, nenhuma xenofobia. Acredito no mérito e na qualidade das pessoas e, evidentemente, num mercado profissional. Você não pode se fechar aqui no país. Tivemos grandes cantores estrangeiros cantando aqui no teatro no meu período. Mas duvido que, nos últimos 50 anos, tantos profissionais do país tenham tido a chance de cantar no Municipal, como nesse período. Sempre tem gente que acha que todos têm de ser brasileiros. A gente poderia levar isso às últimas consequências. O que aconteceria se todos tivessem que ser de São Paulo? Esse não é um teatro que se norteia pela nacionalidade e sim pela qualidade.

P. Qual a marca que você quis imprimir na direção artística?

R. Quis trazer o grande público lírico de São Paulo de volta ao teatro. Como eu disse, não tínhamos espectadores fixos – torcedores que viessem ao “estádio” ver o seu “jogo”. Então precisei criar um repertório que atraísse um grande público e que apresentasse qualidade. Fazer uma Boheme, mas bem feita. Programei títulos de grande apelo popular: Boheme, Aída, Don Giovanni, Trovador, Carmen e agora Salomé... E com isso consegui, à medida que os apresentei com excelência, criar um público aficionado. Hoje, todos os nossos espetáculos de ópera estão lotados, e os sinfônicos, todos quase lotados. Temos uma afluência de público de 85 a 90%. A partir do ano que vem, abrirei o espectro para obras de fora do grande repertório operístico, e isso continua em 2016. Espero conseguir em 2015 um aumento público parecido ao deste ano. Acho que podemos passar de 5.000 para 6.000 ou 7.000 assinaturas.

P. Você cita um “grande público lírico de São Paulo”. Havia, na sua opinião, uma demanda reprimida de amantes de ópera na cidade?

R. Sim. São Paulo tem uma enorme tradição lírica que vem de 100 anos de história. Todos os grandes cantores internacionais cantaram aqui. O que houve foi um empobrecimento da atividade lírica geral no Brasil nos últimos 50 anos – e se ficássemos outros 50 sem oferecê-la, essa tradição desaparecia. Mas ainda há muita gente interessada. E essas pessoas atraem outras, e assim você recria o grande público da ópera paulista, que é enorme. Esta é uma cidade italiana. Não existe uma cidade italiana com mais de 500.000 habitantes que não tenha um teatro de ópera. Pensando assim, a gente deveria ter 18 teatros de ópera em São Paulo. Na verdade, hoje o nosso é o único teatro que funciona regularmente em todo o Brasil. Os outros funcionam com produções esporádicas. Quando abrem, explodem de público, que está sedento. A ópera é o espetáculo mais popular do mundo. É dos únicos que está crescendo, a despeito de algumas casos, como o da Ópera Austrália, que perdeu muito público. Mas isso só se pode atribuir a uma falha de management.

P. E os jovens contribuem com essa tendência?

R. Claro, eles têm muito a ver com isso. A ópera era até pouco tempo um espetáculo antigo, velho. Um museu. Hoje em dia, você tem acesso constante, diário, a espetáculos tecnologicamente muito sofisticados, na televisão ou nos grandes teatros. As pessoas não querem ver mais o mesmo cenário de pano. A ópera mudou, e nós temos que fazer diferente, trazer esses enredos de 100, 200 anos, para a atualidade. Porque esse é um gênero que, com raras exceções, acabou no século XIX. Você está vendo um espetáculo que foi composto e pensado há mais de 100 anos.

P. E os jovens respondem a isso?

R. Sim, se você vestir a ópera de uma forma que eles se interessem. Porque se você os trouxer pra cá para ver um espetáculo do século XX, eles não virão mais. É uma vez só. Então, você tem que fazer algo dramaticamente e visualmente interessante, que revista a ópera com algo de novo. Agora, o que o espetáculo de ópera tem que outros não têm é qualidade, substância. Um espetáculo de rock ou de funk pode oferecer um grande show tecnológico, mas dessa substância única tem muito pouco. A ópera tem Puccini, Mozart, Wagner. Por isso, ela sobrevive. Se você mostrar isso de forma moderna e interessante, nunca vai perder público. Porque o que ele quer é substância.

P. Na América Latina, de que maneira o Municipal se destaca entre os teatros tradicionais da região?

R. Acho que, em um ano e meio, nos colocamos seguramente entre os dois ou três melhores teatros da América Latina – se não formos o melhor. Isso se dá também pela pobreza dos teatros da região e não só pela grandeza do nosso. Mas a América Latina vai crescer. Sei que o Peru e a Colômbia estão melhorando. E há o Colón, de Buenos Aires, paradigmático. Nem sempre está nas melhores condições, mas é um grande teatro. Foi remodelado há pouco e também perdeu a chance de ser restaurado administrativamente e artisticamente enquanto ficou fechado. Mas tem muito prestígio. Gostaria muito que nós conseguíssemos, com o tempo, transformar o Municipal num lugar com tanto carisma como o Colón. Porque qualidade, hoje em dia, nós temos igual ou melhor.

P. Existe algum espetáculo que você queira muito trazer pra cá, mas que ainda não tenha conseguido programar?

R. Sim. Tristão e Isolda do Peter Seller e do Bill Viola, um dos grandes videomakers do mundo. É um dos espetáculos mais bonitos que já vi na minha vida, e um dos meus sonhos é trazê-lo pra cá. Hei de conseguir.

P. Como você vê o Theatro Municipal em alguns anos mais?

R. Há décadas que as pessoas vêm anunciando a morte da ópera, e, no entanto, ela continua crescendo. Durante muito tempo, ela se auto-renovava, porque havia compositores compondo sempre. Acho que, hoje, a renovação deve ser neste sentido: encontrar novas formas de se apresentar, seja através de grandes espetáculos públicos abertos, de cinema, de streaming e, inclusive, é claro, dos grandes teatros que oferecem uma mágica única de ver o cantor ao vivo. Pretendo que nosso teatro esteja associado a essa evolução. Estamos criando uma estrutura digital, para que ele pode sair de suas fronteiras geográficas e entrar na casa das pessoas.

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