O PROCESSO DE PAZ NA COLÔMBIA

O principal líder das FARC não acredita que o processo de paz saia este ano

O chefe guerrilheiro diz que a discussão sobre a questão das vítimas se prolongará por vários meses O presidente Santos quer concluir o processo em 2014

Protesto durante o Fórum Nacional sobre as vítimas.
Protesto durante o Fórum Nacional sobre as vítimas.C. Escobar Mora (EFE)

A apenas um dia do início das conversas sobre o quarto ponto da agenda de negociação entre o Governo colombiano e a guerrilha das FARC em Havana – que está focada no espinhoso assunto de como ressarcir mais de seis milhões de vítimas –, o líder da guerrilha, conhecido pelo apelido de Timochenko, afirmou que não acredita que o processo de paz possa ser concluído este ano, como deseja o presidente Juan Manuel Santos.

Em uma entrevista publicada em um dos portais do grupo rebelde, Timochenko, cujo nome verdadeiro é Rodrigo Londoño Echeverri, afirma que é preciso ser "objetivo" em relação à data na qual será possível assinar os acordos para acabar com os conflitos. Segundo seus cálculos, as discussões que começam agora levarão pelo menos quatro meses. "A Comissão Histórica se encarregará de elaborar a reconstrução do conflito em um prazo que está estabelecido em quatro meses a partir de 21 de agosto. O que ela [a Comissão] produzir servirá de base para a discussão do ponto sobre as vítimas na mesa [de negociações]. Então, se levarmos apenas isso em conta, é fácil concluir que os prazos para este ano não serão suficientes", disse.

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Ao falar de "Comissão", o líder das FARC se refere à Comissão Histórica do Conflito e suas Vítimas (CHCV), que a guerrilha e o Governo decidiram criar com o objetivo de ajudar a compreender a complexidade do conflito interno colombiano. As partes anunciaram que as conclusões obtidas pela CHCV — que analisará as origens do conflito e os impactos sobre a população — servirão para adiantar as discussões que ainda estão pendentes para chegar a um acordo de paz definitivo. Estas incluem, além dos direitos das vítimas, outro aspecto igualmente difícil, como a entrega das armas e o cessar-fogo bilateral. Até agora, as partes chegaram a um acordo sobre a questão agrária, a participação política e o narcotráfico.

Esta semana, o país continua atento à participação direta das vítimas nas negociações de Havana. No próximo sábado, viajam as primeiras 12 vítimas de um grupo de 60, cuja seleção está a cargo da ONU e da Universidade Nacional. Isso desencadeou todo um debate sobre as pessoas que serão escolhidas para ficar cara a cara com os negociadores do Governo e da guerrilha. Fabrizio Hochschild, coordenador do sistema da ONU na Colômbia, explicou em entrevista ao EL PAÍS, que o objetivo é que essas vítimas sejam, de uma maneira ou de outra, "representantes da pluralidade do país em termos de regiões, de ações sofridas e de algozes". Ainda não se sabe o nome das primeiras pessoas que irão a Cuba.

Precisamente sobre os representantes dos afetados pelo conflito, Timochenko disse na entrevista que "o ideal seria que as próprias vítimas participassem também da definição do que pode ser considerada justiça".

O ritmo da negociação, que já dura 20 meses, foi uma das preocupações do Governo de Juan Manuel Santos, que disse que deseja que o processo seja finalizado este ano. Uma das razões pelas quais os colombianos pedem a aceleração das negociações é porque o conflito continua na Colômbia enquanto representantes se reúnem em Havana, e os civis são os mais afetados pelo fogo cruzado. Diante da recente arremetida de ataques das FARC que deixaram vários povoados sem luz e água, Santos exigiu que a guerrilha deixe os civis de fora de suas ações violentas. "A paciência dos colombianos e da comunidade internacional não é infinita", disse em seu discurso de posse na quinta-feira, quando cobrou "atos de paz" das FARC.

Para acelerar os diálogos em Havana, e seguindo uma ideia do próprio Santos, as partes concordaram que, paralelamente às negociações sobre o tema das vítimas, será instalada a partir do dia 22 de agosto uma subcomissão integrada por 10 membros de cada delegação para analisar as condições para um cessar-fogo definitivo e uma desmobilização dos guerrilheiros. Assuntos que nas palavras do líder das FARC "não serão simples".

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