conflito no oriente médio

Morrem 120 palestinos em Gaza após o fracasso do cessar-fogo

Israel dá o acordo por cancelado. Um oficial israelense que procurava túneis do Hamas é capturado

A cena do bombardeio de sexta-feira em Rafah. Vídeo: Atlas (reuters_live)

A trégua de três dias em Gaza durou só 90 minutos. Às 9h30 (3h30 em Brasília) já eram travados combates entre as tropas israelenses e palestinas no sul da Faixa. O Exército israelense anunciou pouco depois que as forças do Hamas eram suspeitas de terem capturado um oficial israelense, o tenente Hadar Goldin, que participava de uma operação de rastreamento de túneis em uma zona de Gaza próxima a Rafah, na fronteira com o Egito. No mesmo confronto morreram pelo menos outros dois militares. Israel bombardeou duramente diversas posições na região do sul de Gaza, onde o militar desapareceu. Pelo menos 54 palestinos morreram nesse ataque. Os combates e bombardeios se estenderam depois a todo o território litorâneo palestino. Oito foguetes disparados de Gaza atingiram Israel.

Às 8h (hora local, seis a menos em Brasília) começava a trégua de 72 horas proposta pelos EUA e a ONU, que havia sido anunciada de surpresa na noite anterior. Era a iniciativa diplomática mais intensa já feita para pôr fim a esta ofensiva que começou 26 dias atrás.

Mas Israel acusou o Hamas de ter violado o cessar-fogo ao capturar o oficial às 8h30. O Hamas, por sua vez, só admite que houve combates às 7h, antes da suspensão das hostilidades. Na noite de sexta, os porta-vozes políticos de grupo islâmico tampouco confirmavam a captura do tenente de Israel.

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O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, assegurou que “Israel tomará todas as medidas necessárias contra quem reclama sua aniquilação e aterroriza a seus cidadãos”, segundo um comunicado oficial.

Mais de 120 palestinos morreram ao todo durante os bombardeios depois do colapso da trégua. As praias onde se aventuravam os pescadores e os banhistas à primeira hora da manhã estavam vazias pouco depois do meio-dia. Também as ruas e os mercados mais centrais foram esvaziando conforme o dia avançava. As filas nos bancos, nas padarias e nos mercados reduziram de repente, até que muitos estabelecimentos começaram a fechar.

O cessar-fogo era apenas uma lembrança às duas da tarde em Gaza, que está sob as bombas israelenses desde 8 de julho. O número de mortos palestinos já ronda os 1.500, sendo três quartas partes deles civis.

Com a morte de dois soldados ontem, Israel chega a 63 mortes de militares, além de 3 civis mortos pelos foguetes do Hamas.

Esta é a terceira ofensiva desde 2008 no enclave palestino, onde vivem 1,8 milhão de pessoas em condições muito duras mesmo em tempos de calma. Israel cerca a Faixa por terra, mar e ar. O Egito fechou suas fronteiras faz um ano, depois do golpe de Estado que derrubou o político islâmico Mohamed Morsi.

O Exército de Israel impôs um toque de recolher na sexta-feira à tarde na localidade de Rafah e suas imediações. Eyad Baba, morador da cidade de 180.000 habitantes, contava por telefone que “todos estão aterrorizados” por causa dos bombardeios de artilharia da manhã. Detalhou que há “dezenas de cadáveres atirados pelas ruas, porque ninguém se atreve a recolhê-los”. O Exército de Israel enviou mensagens de texto ordenando aos cidadãos que “não saiam das suas casas” nem utilizem a estrada que une Rafah à cidade de Khan Yunis. Na sexta-feira era impossível aproximar-se de Rafah sem arriscar a vida, mas os duros bombardeios de artilharia eram ouvidos a quilômetros.

Em Khuza’a, uma localidade no sudeste do enclave, os bombardeios na metade da manhã tampouco permitiam o acesso à parte mais próxima da fronteira com Israel. Na sexta-feira, pela primeira vez foi possível chegar lá após várias semanas de ocupação pelas forças de Israel.

Muitos palestinos, como Mohamed Qudeh, de 32 anos, aproveitaram para resgatar seus mortos. A trégua pretendia dar um alívio aos moradores de Gaza para que pudessem enterrar seus familiares e comprar víveres enquanto era tentada uma saída diplomática.

Palestinos carregam o corpo de Tamer Sammour, 22, durante seu funeral. Ele morreu perto de Tulkarem, após uma ofensiva israelense.
Palestinos carregam o corpo de Tamer Sammour, 22, durante seu funeral. Ele morreu perto de Tulkarem, após uma ofensiva israelense.Mohammed Ballas (AP)

Qudeh contava que há dez dias se refugiou “com outros 20 vizinhos” na casa de um familiar também chamado Mohamed Qudeh, um homem de “uns 70 anos”. “Quando o Exército entrou na casa, Mohamed achou que o passaporte estrangeiro lhe daria segurança e se aproximou deles.” Suando sob o sol enquanto as explosões pareciam se aproximar do leste, contou que “um soldado disparou no peito assim que se dirigiu a ele em inglês”. Depois chegou um capitão “que obrigou todos a ficarem nus” e foi interrogando um a um até se assegurar de que não eram milicianos do Hamas.

Pelo menos duas ambulâncias palestinas se revezavam para levar os cadáveres das casas e das ruas por onde tinham passado, pouco antes, os tanques israelenses. Já havia um cheiro podre nas imediações da parte de Khuza’a mais castigada pelas bombas, uma área na qual só restavam ruínas. O prefeito da pequena cidade de 7.000 habitantes, Farid Qudeh, lamentava aos gritos a devastação: “Mataram tudo: o gado, as aves, os cavalos, tudo”.

Afastando-se à passagem veloz das ambulâncias que desviavam do entulho e dos restos de mulas queimadas, o prefeito arregalava os olhos para descrever os horrores que tinha visto. Mataram, disse, “até uma menina em sua cadeira de rodas”. Contou que devia haver “umas dez pessoas vivas, presas em algumas partes da cidade”. Os outros, cadáveres em decomposição sob toneladas de escombros.

Milhares de palestinos saíram às ruas no território palestino da Cisjordânia contra a ofensiva em Gaza. Dois manifestantes morreram por disparos das forças de segurança de Israel em duas passeatas, segundo confirmou o Crescente Vermelho, informa Carmen Rengel. O Hamas havia convocado uma nova sexta-feira de ira. Cerca de 50 palestinos terminaram feridos por munição real e balas recobertas com borracha, segundo o Crescente. O Exército de Israel informou que vai “investigar” as mortes dos manifestantes. Onze já faleceram e cerca de 600 ficaram feridos nos protestos cisjordanos contra a ofensiva de Gaza, segundo o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU na Cisjordânia, conhecido pela sigla OCHA.