Maduro tenta cerrar fileiras no chavismo

O presidente venezuelano procura reforçar sua posição no partido, que celebra seu terceiro congresso em meio de uma grave crise econômica e após sintomas de crítica interna

Maduro, no centro, no congresso do PSUV, neste domingo
Maduro, no centro, no congresso do PSUV, neste domingo (EFE)

Pelo planejamento inicial, se tudo corresse bem, na próxima quinta-feira, em seu último dia, o terceiro congresso do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) deveria proclamar o chefe de Estado, Nicolás Maduro, o novo presidente da organização. Mas, para o presidente venezuelano, as coisas correram melhor: pouco antes de inaugurar oficialmente o evento, na tarde de sábado, ele foi eleito presidente do PSUV por aclamação pelos 985 delegados presentes.

Dessa maneira, Maduro se converte em sucessor do comandante Hugo Chávez – de quem, na prática, herdou a presidência venezuelana – também na chefia do partido. Ninguém desde Chávez tinha acumulado tanto poder. Pelo menos, poder nominal.

Porque Maduro, na verdade, enfrenta uma grave crise de governabilidade desde que assumiu a presidência da República, em abril de 2013. Ele governa acossado pela quebra das finanças públicas, pelos arroubos de rebelião de uma oposição – para sorte do Governo – mal coordenada, pelas pressões do exterior e, finalmente, pelos conflitos internos entre as diversas facções do oficialismo, que já não contam com a força gravitacional da liderança de Hugo Chávez como fator de coesão.

Com problemas em tantas frentes, Maduro optou por arrumar a casa primeiro. Em janeiro, convocou o congresso do partido. A oportunidade parecia propícia, pois era uma tentativa de tirar proveito de uma aliança circunstancial com Diosdado Cabello – o número dois do chavismo, presidente da Assembleia Nacional, primeiro vice-presidente do partido e rosto visível de uma facção militar-desenvolvimentista do oficialismo – e Rafael Ramírez, chefe da petrolífera estatal, chamado à última hora para salvar da ruína a economia nacional. Essa entente se sente em posição de controlar o aparato partidário e de ganhar, com isso, peso político para dar à revolução uma guinada pragmática que garanta sua continuidade imediata.

“Surpreenderam-me ao me escolher presidente na primeira sessão, de verdade”, confessou Maduro no encerramento da jornada inaugural do congresso, no Teatro Teresa Carreño de Caracas. Se em suas palavras havia sarcasmo, não foi evidente. Mas deve ter soado assim para os agrupamentos internos, principalmente os da esquerda integrista do movimento, que questionam o rumo atual da revolução e tiveram dificuldade para conquistar espaço no congresso. O evento foi precedido pelo expurgo de representantes da “esquerda tresnoitada”, como é definida pelo Governo. Junto aos quase 450 delegados “natos” do partido (ministros, governadores, prefeitos, vereadores e outros ocupantes de cargos de eleição popular), as bases tiveram a oportunidade de designar por voto direto outros 535 delegados em eleições realizadas há uma semana – das quais só participou um de cada dez militantes, e cujos candidatos figuravam em listas preparadas pelos caciques locais.

“Nem esquerdismo agonizante nem reformismo entreguista” foi a palavra de ordem de Maduro em seu discurso aos delegados. O ato começou com cinco horas de atraso em relação à agenda oficial - atribuído às negociações que eram realizadas em oito mesas de trabalho para nomear Maduro presidente e, de quebra, proclamar Hugo Chávez como “presidente eterno e fundador” do partido, como acabou sendo feito.

O congresso ameaça seguir o caminho da unanimidade soviética. Ainda assim, Maduro, como chefe de Estado e do partido, pediu um “debate livre e construtivo”, mas “com disciplina e máxima lealdade à revolução”. Ele citou um conjunto de propostas para o partido, entre elas a de oficializar o caráter “cívico-militar” da revolução bolivariana como uma premissa ideológica. Destacaram-se em seu discurso de duas horas os chamados para revisar os estatutos do movimento e renovar por votações diretas as autoridades partidárias antes de janeiro de 2015.

Tudo indica que a nova direção do partido prevê um congresso sem sobressaltos e de caráter mais cerimonial que polêmico, como prognosticava a data escolhida para a realização do evento. Nesta segunda-feira o oficialismo celebra o 60.º aniversário de nascimento de Hugo Chávez. Para a ocasião, o Governo de Maduro fez coincidir uma reunião de cúpula do Mercosul, que ocorrerá na terça-feira e já tem a presença confirmada de pelo menos quatro presidentes da região.

Algum dos mandatários convidados, como o uruguaio José Mujica, deverão assistir às sessões do congresso partidário. O PSUV se gaba de que representações de 30 países acompanhem o evento, incluindo dirigentes dos partidos comunistas da Rússia e da China, do partido Rússia Unida de Vladimir Putin e do grupo palestino Fatah. Estes últimos receberam alguns dos mais sonoros aplausos da sessão plenária, transmitida ao vivo pelas redes de televisão estatais.

Como o evento é de gala, na inauguração foi estreada uma versão sinfônica do hino do PSUV. Composto por Jorge Arreaza, irmão do vice-presidente venezuelano e genro de Chávez, sua letra incorpora uma estrofe em que se menciona o falecido comandante, junto a Simón Bolívar, Francisco de Miranda e Ezequiel Zamora, como integrante do Olimpo dos pais da pátria.

Com tudo isso, só resta saber até que ponto ganharão espaço na agenda temas controvertidos e urgentes para o partido, como os iminentes ajustes econômicos, as expulsões – aparentemente irrevogáveis – de ex-ministros do gabinete do Hugo Chávez, ou os cada vez mais frequentes sinais de corrupção entre membros do Governo.

Se essa possibilidade seguir latente, talvez tenham sido então um reflexo disso as salvas de palmas que recebeu o discurso de Adán Chávez na abertura da sessão plenária. Adán, irmão do falecido líder – do qual foi mentor ideológico no início –, além de ex-embaixador em Havana e atual Governador do Estado de Barinas, criticou o burocratismo e o dogmatismo, e propôs o desenvolvimento de um partido-movimento que respeite a autonomia das organizações de base.

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