A China fecha uma aliança estratégica com a Venezuela

O presidente Xi concede um empréstimo de 8,9 bilhões de reais ao Governo de Maduro que será pago com remessas de petróleo

O encerramento em Caracas da XIII Comissão Binacional de Alto Nível China-Venezuela e a assinatura de 38 novos acordos de cooperação entre ambos os países marcaram nesta segunda-feira o segundo e último dia da visita do presidente chinês, Xi Jinping, ao seu principal aliado na América do Sul. A Venezuela é a terceira parada do giro do mandatário asiático, que já passou pelo Brasil e pela Argentina, e que será concluído nesta terça-feira em Cuba. Por trás do protocolo quase rotineiro da ocasião, havia o propósito de estreitar sua relação, compartilhado por ambos os Governos, para transformá-la no que chamaram de “aliança estratégica integral”.

As autoridades dos dois países não foram muito explícitas na hora de definir esta expressão. O chanceler venezuelano, Elías Jaua, descreveu esta semana o novo vínculo entre Pequim e Caracas desta forma: “Nos transformamos em um país que fornece petróleo à China e que recebe, em troca, financiamento para nosso desenvolvimento industrial, científico e tecnológico, e na agricultura”.

Embora ainda atrás dos Estados Unidos, a China já ocupa o segundo lugar entre os principais parceiros comerciais da Venezuela e no ranking de seus importadores de petróleo. De acordo com informações oficiais, a Venezuela exporta 500.000 barris diários de petróleo para a China. A metade dessas entregas serve para pagar dívidas contraídas anteriormente. Calcula-se que, até agora, o Governo de Nicolás Maduro deva à China mais de 30 bilhões de dólares (66,7 bilhões de reais), uma dívida que é descontada na conta do petróleo. Caracas traçou a meta de exportar um milhão de barris de petróleo a Pequim, o colosso econômico ávido de matérias-primas e recursos energéticos.

Xi Jinping, que já havia visitado a Venezuela em 2009 como vice-presidente, chegou ao país com uma comitiva de 100 empresários para comemorar o 40o aniversário do estabelecimento de relações diplomáticas entre Pequim e Caracas. Nessa ocasião, em 1974, o gesto que amenizou as tensões correspondeu ao democrata-cristão Rafael Caldera, que foi presidente duas vezes.

No entanto, como gabava-se nesta segunda-feira o número dois do chavismo e presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, entre aquela época e 1999 —data da posse de Hugo Chávez como presidente—, foram assinados apenas 20 acordos entre as duas nações. “Agora temos mais de 450”, garantiu.

Nesta oportunidade, numerosas empresas chinesas conquistaram mercados na Venezuela. As montadoras Chery e Yutong, que já constroem fábricas no país caribenho, venderam milhares de veículos. Empresas construtoras e de prospecção de minerais raros assinaram acordos para vender seus serviços. Importantes blocos de exploração e produção na Faixa Petrolífera do Orinoco — uma das maiores reservas de petróleo do planeta — foram concedidos a companhias chinesas. O Governo de Maduro formalizou sua intenção de comprar da China um terceiro satélite de órbita fixa que, de acordo com planos dos dois países, incluirá partes fabricadas em uma montadora venezuelana de equipamentos espaciais. O Banco de Desenvolvimento Chinês abriu um escritório na capital venezuelana.

A China, por sua vez, desembolsou quatro bilhões de dólares (8,9 bilhões de reais) em empréstimos que serão cancelados com embarques adicionais de 100.000 barris diários. A potência emergente do século XXI investiu mais um bilhão de dólares (2,2 bilhões de reais) para que a petrolífera estatal PDVSA comprasse insumos industriais de fornecedores chineses.

A intenção chinesa de instalar na Venezuela uma fábrica para a montagem de seus produtos e um ponto estratégico no litoral do continente parece corresponder à disposição venezuelana de deixar-se orientar para alcançar o objetivo de construir um regime cubano no nível político e, chinês, no âmbito econômico.

A consultoria para o regime venezuelano sustenta-se no acordo firmado na segunda-feira pelos presidentes Xi e Maduro para treinar, na China, funcionários públicos de cargos “médios e altos” do Estado venezuelano na área de gestão pública.

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