conflito no oriente médio

As tropas de Israel aprofundam sua ofensiva por terra na Faixa de Gaza

Morre o segundo israelense em uma operação que custou a vida de 290 palestinos

Tanques israelenses manobram nesta sexta-feira perto de Gaza.
Tanques israelenses manobram nesta sexta-feira perto de Gaza.ronen zvulun (reuters)

As tropas israelenses entraram nesta sexta-feira pela tarde mais um quilômetro em Gaza em relação às suas posições iniciais nas proximidades da localidade de Khan Yunis, ao sul da Faixa. Depois de submeter a região a um duro bombardeio de artilharia e aviação, os soldados tinham entrado duramente durante a madrugada por Beit Lahia, no norte, e por Beit Hanun, no leste. Os tanques e a infantaria ocuparam cerca de cem metros ao norte e a leste do território palestino, segundo testemunhas.

Netanyahu convoca 18.000 reservistas, que se unem a 30.000 já mobilizados

Os avanços do sul respondem às ordens do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que tinha ordenado às tropas que se preparassem para a “ampliação” da incursão em Gaza: “Dei instruções para que se preparem para estender significativamente a operação por terra”, declarou, depois de uma reunião de seu gabinete de segurança. Ele deixou para trás o objetivo militar apontado oficialmente ao anunciar sua incursão militar no território: destruir os túneis usados pelos militantes do Hamas para fustigar Israel. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, deu seu “apoio” à ampliação da invasão israelense que, segundo argumentou, “tenta deter o lançamento de foguetes contra seu território”.

O líder político do Hamas exige o fim do bloqueio para aceitar uma trégua

Os militantes de Gaza dispararam na sexta-feira 105 foguetes contra Israel sem causar danos pessoais. Um soldado israelense morreu durante a noite e se investiga se foi por disparo acidental de seu próprio grupo. Na semana passada morreu um civil por ferimentos de um projétil de morteiro palestino.

Durante o primeiro dia de invasão por terra morreram 30 palestinos. O número de mortos nos 11 dias da robusta operação militar israelense contra Gaza supera 290. Entre eles estão 57 crianças, até sexta-feira à tarde. A elevada densidade populacional na Faixa de Gaza e a baixa média de idade de seus habitantes (43% têm menos de 14 anos) contribuem para que cada operação militar na região resulte em tremenda matança de crianças. Segundo as Nações Unidas, os civis mortos nessa ofensiva superam 75% do total.

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A correria de um grupo de médicos e enfermeiros até a ambulância que entrava no hospital Kamal Odwan, em Beit Lahia, pressagiava uma emergência grave no meio da manhã. Vieram em uma só maca Walla e Ahmad Musalla, um irmão e uma irmã de 11 e 13 anos, mutilados por um disparo de um tanque israelense. O menor estava com as pernas quebradas e o abdômen aberto, em uma postura contorcida entre os joelhos da irmã. Por isso os médicos voltaram sua atenção para ela. A mãe, Muna, golpeava a porta do setor de emergência para entrar. Permitiram depois que perceberam que eles já estavam mortos. Outro filho sobrevivente, de uns 12 anos, Omar, se agachou chorando junto à porta. Depois chegou o cadáver do irmão Mohamed, de 15.

Começou uma estranha confusão nos corredores: câmeras da televisão local se empenhavam em obter uma imagem das crianças desmembradas e a mãe gemia resistindo a que a filmassem abraçando o cadáver de Walla.

Obama dá seu apoio à incursão que “tenta deter o fogo dos foguetes”

Omar continuou chorando de cócoras, silencioso e quieto ao lado da porta, até que alguém tentou entrevistá-lo para a televisão e ele fugiu apavorado em direção a um parque próximo. Um parente esclareceu que ele é mudo. O motorista da ambulância que os trouxe, Mohamed Saha, contou que os irmãos brincavam em sua casa quando foram atingidos por uma granada de tanque israelense. A pele do rosto de Saha parecia de couro depois de três dias sem dormir. Somente na noite de quinta-feira tinha atendido “entre 40 e 50 emergências” durante o avanço dos tanques. A cena do hospital em Beit Lahia mostrava três imagens cruciais da enlouquecida rotina sob as bombas de Israel: a coragem assombrosa do motorista Saha, a dor de um inocente que não entendia nada e a dificuldade de contar isso sem perder definitivamente o rumo.

Amdan recolhia em um saco os restos espalhados de seu filho Mohamed

Além do avanço de seus tanques e infantaria, Israel ordenou a mobilização de 18.000 novos reservistas, que se somam aos 30.000 anteriores. Em Gaza temem uma invasão completa, que aumentaria exponencialmente as mortes de civis. Os palestinos dizem que Israel avança com a cautela que observaram em sua invasão de 2008. Para minimizar as baixas entre seus soldados, bombardeiam a região com a aviação e a artilharia, e depois entram com os tanques. Limpam a área de minas e de possível resistência antes de avançarem com os blindados e a infantaria. Em uma entrevista ao diário britânico The Telegraph, o líder político do Hamas, Khakled Meshal, declarou que o grupo islamita “não concordará com um cessar-fogo até que Israel levante seu bloqueio a Gaza”.

Em Zeitun, um dos bairros de Gaza que Israel tinha ordenado que fosse esvaziado nos últimos dias, o criador de gado Mohamed Abu Asha preparava sua charrete puxada por mulas para uma arriscada excursão ao norte da Faixa de Gaza, ocupado por tanques e a infantaria israelense. Queria resgatar das bombas alguma de suas 100 vacas, antes que os invasores matassem todas, como fizeram em 2008. Como proteção para semelhante odisseia, Abu Asha tinha içado uma bandeira branca à frente de sua carruagem. Resumiu sua confiança no bom êxito da missão: “Alá proverá”. Não muito longe, Amdan Enteis recolhia em um saco de plástico os restos espalhados de seu filho Mohamed, de 2 anos, morto por uma granada de tanque israelense na madrugada anterior.