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Morre Johnny Winter, o famoso pistoleiro do blues-rock

O músico norte-americano, que triunfou com seu som do Texas e suas grandes versões de rock, falece na Suíça aos 70 anos

Fernando Navarro
Foto de Johnny Winter de arquivo tirada em 18 de julho de 2008.
Foto de Johnny Winter de arquivo tirada em 18 de julho de 2008.J.F.MORENO (EFE)

Os curiosos ficaram com a insólita imagem: um músico albino, de cabelo loiro comprido e reluzente, interpretando um blues sujo, de bar. Nunca se havia visto nada igual. Mas para os fãs de blues, havia muito mais por trás desta cena atípica: Johnny Winter, que morreu hoje aos 70 anos em Zurique, na Suíça, segundo um comunicado oficial em sua página no Facebook, era o emblema do melhor blues-rock do último meio século, um pistoleiro das cordas experiente que, quando estava inspirado, oferecia intensas melodias da old school (velha escola) à altura dos mestres Muddy Waters ou Jimi Hendrix.

Winter nasceu em Beaumont, no estado do Texas, e sentiu-se atraído pela música desde criança. Tinha apenas 11 anos quando ganhou de seu pai seu primeiro violão, que nunca mais largou, enquanto a rádio de casa sintonizava todos os dias os programas de blues. No final dos anos cinquenta e a princípio dos sessenta, estes programas reproduziam os sons mais vibrantes dos grupos pioneiros do ritmo.

Membro da prodigiosa escola texana, que teve com Lightnin’ Hopkins, Albert Collins ou Freddie King seus primeiros agitadores, Winter iniciou sua carreira como músico profissional com grandes padrinhos. Aos 17 anos já tinha uma banda com seu irmão Edgar, quando uma noite B.B. King deixou que tocasse com ele em um boteco de Beaumont, cedendo até mesmo sua querida guitarra Lucille. Seu nome começou a se espalhar pelo circuito, mas tudo mudou quando Mike Bloomfield, outro célebre guitarrista branco de blues que pertenceu à incendiária The Paul Butterfield Band e que Bob Dylan recrutou para dar forma ao seu disco Highway 61 revisited, o convidou a subir com ele no palco em Nova York.

Aquele show em 1968 foi como se as constelações se alinhassem no céu. A revista Rolling Stone dedicou uma apaixonada resenha ao concerto enquanto, entre o público, estavam executivos da Columbia Records. Clive Davis, presidente da companhia, ofereceu um dos maiores adiantamentos econômicos que jamais havia recebido um músico para que gravasse um disco. No ano seguinte, lançava o vibrante Johnny Winter, e estava tocando em Woodstock.

De alguma forma, a Columbia procurava o novo Jimi Hendrix, que havia revolucionado o conceito de blues na música popular. Em pleno apogeu do blues-rock britânico, com nomes como Eric Clapton, John Mayall, The Small Faces, The Who, The Pretty Things ou Fleetwood Mac, Winter surgiu como uma resposta de essência norte-americana. Em suas próprias palavras, alguns pensaram que poderia alcançar o patamar do Rolling Stones. Mas ele seguiu seu próprio caminho, que depois seria seguido por Stevie Ray Vaughan ou ZZ Top e que partia da tradição sulista, marcada pelo choque produzido pelo encontro do rhythm and blues de estrada com o folk e o country mais empoeirado, um estilo sustentado no agudo e penetrante uso da guitarra elétrica, com potentes recriações que bebem do blue primitivo salpicado de riffs duros e os tempos rápidos do swing.

Na caravana do sucesso dos anos setenta, o guitarrista teve que lutar contra dois cavalos de batalha: a heroína, que o levou a entrar e sair de clínicas de desintoxicação durante anos, diminuindo sua produção, e sua fama entre os puristas, que o viam apenas como realizador de grandes versões de sucessos do rock. Suas versões de Highway 61 revisited de Bob Dylan, Johnny B. Goode de Chuck Berry, Great balls of fire de Jerry Lee Lewis ou JumpinJack Flash dos Rolling Stones, entre outras, entraram para a história. Por isso, se esforçou para se aproximar do blues de sempre, produzindo e tocando na ressurreição discográfica de Muddy Waters e lançando trabalhos como Guitar slinger ou Third degree nos anos oitenta, cheios de vitalidade.

Nos últimos anos, soube juntar bons músicos para produzir seus discos. Em Roots, lançado 2011, foi acompanhado por Susan Tedeschi ou Vince Gill. E em setembro está previsto o lançamento de Step back, com a participação de Ben Harper e Eric Clapton. Apesar dos graves problemas de saúde, era um homem que não descansava, e que se manteve ativo até o último momento com shows em todo o mundo. A última vez foi em maio. Muito magro e fraco – viajava com um médico em suas turnês – era surpreendente vê-lo no palco, onde ainda era capaz de tirar notas cortantes de sua guitarra, como se o velho pistoleiro, que estava cego de um olho, ainda pudesse acertar o alvo bem no meio da testa, em um último movimento.

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