Seleccione Edição
Login
ANÁLISE

Jean-Claude Juncker fala italiano

O novo presidente assentará seu mandato sobre um grande pacto entre as principais forças europeístas, driblando o confronto ideológico entre esquerda e direita

"Salvamos a zona do euro e o mercado interno, mas seis milhões de pessoas perderam seus empregos, incluindo muitos jovens. A confiança está voltando lentamente à Europa, mas alguns países membros ainda estão longe de alcançar um crescimento sustentável. Cometemos erros no manejo da crise: o ajuste não foi distribuído equitativamente, mas de forma socialmente injusta e, além disso, as decisões tomadas durante a crise não desfrutaram de suficiente legitimidade democrática, o que deteriorou o apoio dos cidadãos à União Europeia ".

Este resumo do pronunciamento de Jean-Claude Juncker nesta terça-feira no Parlamento Europeu, significativamente intitulado Um Novo Começo para a Europa: Minha Agenda para o Emprego, o Crescimento, a Equidade e a Transformação Democrática, é o que explica o apoio de socialistas, liberais e verdes ao candidato de Luxemburgo à Comissão Europeia. A mensagem de Juncker, junto com as dez prioridades detalhadas em seu programa de governo, desenha uma Comissão assentada em um grande pacto político entre as principais forças europeístas que prefere esquivar-se do confronto ideológico entre esquerda e direita e colocar todo o seu peso sobre um eixo reformista. Juncker quer se concentrar na mobilização do investimento público, na promoção dos serviços digitais, na integração financeira, nas interconexões de energia, nas políticas de imigração e na criação de um orçamento separado para a zona do euro. Sem dúvida, o Juncker presidente da Comissão quis desvincular-se do Juncker presidente do Eurogrupo no auge da crise, ou do Juncker primeiro-ministro luxemburguês que, com base em práticas legais, mas pouco éticas, conseguiu transformar o pequeno país em um pequeno paraíso (fiscal e terrestre).

A transformação de Juncker deve ser creditada a Marine Le Pen, líder da Frente Nacional na França, e a Matteo Renzi, o recém-chegado primeiro-ministro italiano. À primeira, porque o auge dos populismos eurofóbicos convenceu os líderes europeus que, apesar de o projeto europeu ter sido severamente ameaçado pelos mercados, quem realmente poderia enterrá-lo seriam os cidadãos ao dar-lhe as costas. Ao segundo, Juncker deve algo que a UE já havia começado a praticar, mas precisava formalizar: um compromisso de flexibilidade em relação às políticas de austeridade e, em paralelo, um programa de investimentos públicos que estimule o crescimento e o emprego.

Os socialistas espanhóis, junto com o Partido Trabalhista britânico, distanciaram-se desse grande pacto. Cinco anos atrás, estavam no Governo, o que permitiu a eles apoiar Barroso em troca de colocar uma socialista, Lady Ashton como ministra das Relações Exteriores e conseguir uma pasta de primeiro escalão para Joaquín Almunia. Agora, como estão na oposição, em período de reconstituição e não disputavam nada, preferiram votar em chave interna e contrabalançar a ascensão da Esquerda Unida e do Podemos. A Itália de Renzi preenche a lacuna europeia deixada pelos socialistas espanhóis europeus. Uma frente que o novo líder, Pedro Sánchez, deverá priorizar.

Siga-me no Twitter @jitorreblanca e no blog Café Steiner em elpais.com