União Europeia

Juncker assume a Comissão Europeia com promessas de estímulo econômico

Com 58% dos votos, o Parlamento Europeu elegeu o conservador luxemburguês como presidente do Poder Executivo da UE

O líder do UKIP britânico conversa com Juncker na Eurocâmara.
O líder do UKIP britânico conversa com Juncker na Eurocâmara.V. K. (Reuters)

Mais política. E coragem: “Quero uma Europa que vá ao ataque”. O Parlamento Europeu aprovou ontem por ampla maioria a nomeação do social-cristão Jean-Claude Juncker como presidente da Comissão Europeia, o cargo mais influente em Bruxelas. Frente ao otimismo profissional dos mandatários da União nesta crise interminável, o líder do PP europeu passou à ofensiva na Eurocâmara. Negou que o continente tenha deixado os problemas para trás. E apresentou as linhas mestras do seu mandato com um discurso sóbrio – a seu estilo –, mas com momentos impetuosos. Prometeu estímulos e flexibilidade com as regras fiscais, sem deixar de lado as reformas e os ajustes. Prometeu reformar as troikas “para suavizar as consequências sociais” de suas políticas. Prometeu um salário mínimo europeu, um mercado único de capitais, um último empurrão na taxa Tobin. Prometeu e prometeu, enfim, para conseguir votos entre os sociais-democratas e os liberais, que voltaram a selar uma santa aliança de forças pró-europeias, com uma ou outra exceção notável: os socialistas espanhóis, por exemplo, votaram contra o novo homem forte da Comissão.

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Juncker teve 422 dos 751 votos possíveis, com uma incrível sucessão de acenos aos verdes (mais energias limpas), aos liberais (mais mercado), à esquerda (mais estímulos) e ao seu próprio partido, com uma defesa intransigente da discutível gestão do último quinquênio. Conseguiu concluir assim uma longa travessia que começou após a vitória de seu bloco nas eleições de 25 de maio – em meio aos avanços dos populistas –, o que lhe permitiu posteriormente obter o apoio dos líderes europeus, apesar das hesitações da chanceler (primeira-ministra) alemã, Angela Merkel, e da raivosa oposição do premiê britânico, David Cameron – que, com a nomeação de Juncker, se torna o principal responsável pela maior humilhação diplomática do Reino Unido em várias décadas.

“Não posso pretender que a história da Europa comece comigo. Ou que estejamos diante de uma nova e incrível etapa”, disse Juncker em um exercício de realismo no qual procurava, ao mesmo tempo, defender o legado do seu antecessor, José Manuel Barroso, que deixa a principal instituição da UE mergulhada em uma grave crise de identidade. A União, com um conservador de novo à frente do seu Poder Executivo, sem dúvida manterá a ladainha das reformas estruturais como forma de combater uma doce decadência que já dura anos. E continuará também com o necessário ajuste fiscal de inspiração alemã: o ex-premiê luxemburguês foi muito claro a respeito disso. Mas Juncker se comprometeu com uma guinada na política econômica. Por um lado, observou que a sua Comissão aplicará as regras fiscais com flexibilidade, como pedem a França e Itália. Por outro, tirou da manga um pacote de estímulo, embora ainda não esteja claro onde ele obterá os recursos para financiá-lo, e inclusive se conseguirá incluir dinheiro novo nesse plano.

“Houve erros na gestão da crise”, reconheceu. “Em parte foi como tentar consertar um avião em pleno voo”, justificou. Sem citar explicitamente os estragos causados pela overdose de cortes orçamentários decretada em plena recessão, Juncker afirmou que prefere olhar para frente e que Europa precisa com urgência de mais crescimento e mais emprego. Para isso, disse que ativará “um ambicioso pacote de investimentos”, a ser definido antes de março de 2015. “O objetivo é mobilizar 300 bilhões de euros (900 bilhões de reais) em investimento público e privado nos próximos três anos”, acrescentou, citando áreas como infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento, banda larga, energia e setor industrial. Esse plano equivale a 2,3% do PIB europeu em três anos, ou 0,76% por ano. Não se sabe, no entanto, se ele incluirá novos recursos ou se é apenas uma nova embalagem dos já existentes, e mal é citada uma futura ampliação do capital do Banco Europeu de Investimentos (BEI), com desembolsos de Estados membros que já têm seus cofres públicos bastante castigados pela crise. “Não é o dia dos detalhes”, defendeu-se ele perante a imprensa.

Tampouco deu uma só pista sobre a sua equipe: há uma miríade de nomes esperando cargos, mas as primeiras certezas acerca disso só chegarão na cúpula desta noite em Bruxelas. No plenário, vários parlamentares o recriminaram por ser oriundo de um paraíso fiscal (Luxemburgo) e pelo fato de que dificilmente poderá ser o homem que renovará a Europa, uma vez que há três décadas já está na linha de frente da política continental – presidiu a conferência que costurou o Tratado de Maastricht, foi uma figura-chave na introdução do euro, elaborou as regras fiscais que criaram uma espécie de camisa-de-força em muitas fases desta crise, aplicou-as como presidente do Eurogrupo e, definitivamente, é um dos arquétipos desse “inferno” que é a “velha Europa”, como resumiu Marine Le Pen, do partido francês Frente Nacional. “Acho ótimo que a senhora, que não respeita pessoas de outros credos, de outras raças e com outras ideias, rejeite minha nomeação”, cutucou o novo chefe da Comissão, dirigindo-se a Le Pen, sem nunca fugir do corpo a corpo. Juncker começa com ímpeto: “Quero mais política em Bruxelas”, disse ele, numa mensagem cifrada a Cameron, aos eurocéticos e possivelmente também aos chefes de Governo que deixaram a Comissão de lado em toda a gestão da crise. “Quero que a Comissão seja um órgão altamente politizado”, insistiu, num derradeiro rufar de tambores, esse que é o último arauto de um renascimento da política mil vezes anunciado, mas que não chega a se concretizar.

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