Operação limite protetor

O Exército de Israel avisa a vários bairros de Gaza para que evacuem

As autoridades palestinas estimam que pelo menos 145 pessoas já morreram no ataque. Entre as vítimas, 23 crianças

Para chegar ao que um dia foi a residência de deficientes de Beit Lahia, bastava seguir ontem, em sentido inverso, as pegadas de sangue úmido que deixaram os pés descalços da enfermeira Salwa Abu Alqamsam depois da explosão que a feriu. Dizem, neste lugar no norte da faixa de Gaza, que os aviões israelenses mandaram um foguete de advertência às quatro e vinte da madrugada. Cinco minutos depois, um potente míssil caiu sobre a residência. Morreram Saha Abu Saada e Ola Wishahi, duas mulheres paralíticas. Outros três pacientes foram feridos. Ninguém sabe por que Israel escolheu esse alvo, ainda que na vizinhança especula-se que um antigo inquilino do apartamento acima poderia ser militante da Jihad Islâmica. Ele mudou-se há um mês.

Um vizinho chamado Sadala el Masri explicava, que depois de ouvir o foguete de advertência que os israelenses às vezes disparam para alertar sobre um ataque iminente, muita gente fica em casa por medo. Ele mesmo não saiu da cama porque sentia-se mais seguro do que na rua. Os deficientes físicos não tiveram alternativa. El Masri deu sorte.

O mesmo não aconteceu com Yusef e Anas Qandil, pai e filho de 38 e 18 anos. Eles sabiam que, em seu prédio do campo de refugiados de Yabaliya, já havia vivido um líder jihadista. Por isso saíram de casa depois de escutarem a explosão de aviso na noite de sexta-feira. Eles ficaram com alguns vizinhos, a uma distância segura. Mas foram atingidos por um pequeno projétil de precisão, disparados por um dos aviões não tripulados (drone) israelenses que sobrevoam Gaza dia e noite. Esses projéteis deixam uma cratera minúscula quando explodem. Sua onda expansiva alcança um raio entre 10 e 12 metros.

Enquanto isso, a noite caía em Gaza e aumentava o temor de uma invasão terrestre dos israelenses. O Exército pediu aos vizinhos do norte da Faixa que deixassem suas casas. Avisou que, nas próximas horas, lançaria um “ataque importante”.

Fontes palestinas já chegavam hoje ao número de 167 palestinos mortos, entre eles pelo menos 30 crianças. O número de feridos superava 1.000. Nos mais de 1.100 ataques contra casas de supostos militantes do Hamas e da Jihad Islâmica e das estruturas das duas organizações, Israel não havia atado ainda nenhum dos principais dirigentes ou comandantes dos grupos. Ontem, 15 pessoas morreram em um ataque contra a casa do chefe da polícia de Gaza, segundo informou a agência Reuters, citando fontes do Ministério da Saúde.

O Hamas e a Jihad Islâmica continuaram disparando mísseis contra Israel. Segundo as contas oficiais do Exército, ontem foram lançados 36 projéteis de diferentes potências. No total, já são mais de 550 desde terça-feira, que continuam sendo lançados apesar dos bombardeios de Israel à Faixa, que acontecem a cada poucos minutos. Na sexta-feira, os mísseis contra Israel causaram o primeiro ferido com gravidade, um homem de 61 anos em Ashdod. O Hamas lançou, à noite, vários mísseis contra Tel Aviv, e quatro deles foram interceptados.

O cirurgião Sobbi Skaik, diretor clínico do grande hospital de Al Shifa, lamentava desde sábado “a perversão” de chamar de “ataques cirúrgicos” os bombardeiros israelenses com drones. Sua clínica ficou cheia de amputados, como Rashid Kafernah, um policial de 30 anos ferido por uma dessas pequenas bombas móveis. Sua mãe, Feryal, o espera “dia e noite desde quarta-feira” em um canto da recepção do hospital. Talvez ele sobreviva. O médico, veterano, explicou que os estilhaços dessas bombas “cortam os membros como lâminas”.

O chefe do cirurgião, Naser Tatar, não consegue dormir “mais de uma hora seguida” desde o domingo. Com um aspecto de cansaço profundo, o diretor do Al Shifa explicou em seu escritório que “a situação já é muito pior que [nas operações militares israelenses] em 2008 e 2012”. Em Gaza, há carências desde o cerco imposto por Israel depois da guerra civil que em 2007 separou a faixam, controlada pelos islamitas do Hamas, da Cisjordânia, governada pelo Al Fatah. Essas carências se agravaram com o golpe de Estado que depôs há um ano o Governo islâmico de Mohamed Morsi, aliado do Hamas no Egito. No hospital Al Shifa, “já estão em falta adrenalina, anestesia, antibióticos...”, segundo explica Tatar em uma surpreendente ordem alfabética, antes de dar a entender, com um gesto, que na verdade falta tudo. As necessidades se quadruplicaram desde o início dos bombardeios israelenses.

Se acontecer a temida invasão terrestre, “ficará duas vezes pior”, segundo Tatar. A carência passará a emergência, “e teremos de assistir aos feridos morrendo”. A UTI do Al Shifa estava, já no sábado, “no limite de sua capacidade”. Há duas semanas eles não recebem mais material além de “aparatos para diálise; nada para emergências”.

Em Gaza é complicado encontrar algum sentido político para as hostilidades, as quais o desfecho é impossível prever. O Hamas tem muito pouco a perder em uma região empobrecida, cercada por Israel e ilhada por terra, mar e espaço aéreo desde que o Egito fechou sua fronteira após a queda de Morsi. Uma guerra unifica a população e deixa outros problemas em segundo plano. Se é isso que buscam os líderes do Hamas, eles se arriscam a serem afetados em meio à destruição.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, por sua vez, apaziguou com a guerra os militantes mais direitistas de sua direitista coalisão de Governo, que pediam um tratamento mais duro ao Hamas. Corre-se o risco de que a situação se descontrole até outra Intifada. Além disso, sua esmagadora superioridade militar e a clamorosa desproporção entre os danos que Israel sofre e os que provoca aos palestinos continuarão afundando sua imagem internacional. Sejam quais forem os cálculos, são os 1,8 milhão de habitantes de Gaza que pagam o preço desta loucura.

Os ministros do Exterior dos Estados Unidos, do Reio Unido, da França e a da Alemanha, que se reúnem neste domingo em Viena, anunciaram que tentarão fazer as duas partes chegarem a um acordo para um cessar-fogo.

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