Operação limite protetor

Marinheiros israelenses se chocam com homens armados do Hamas em Gaza

O enfrentamento é o primeiro tiroteio trocado pelos dois lados nos seis dias de ofensiva sobre a Faixa de Gaza

Nem um minuto se passa em Gaza sem o ruído dos aviões não tripulados (drones) israelenses que, às 10 da manhã, voavam com proximidade e insistência notáveis sobre a praia de Sudaniya. De madrugada, soldados israelenses tinham enfrentado ali um grupo de milicianos palestinos. Restam marcas de explosões de diferentes potências, queimaduras no solo e cápsulas do que foi a primeira escaramuça terrestre de que se tem conhecimento desde que começou a pesada operação militar israelense contra a Faixa de Gaza, na segunda-feira à noite. Quatro soldados israelenses ficaram feridos por um pelotão de milicianos palestinos que, segundo testemunhas de moradores, localizaram os soldados israelenses quando se aproximavam da praia e repeliram seu desembarque. Segundo Saad Dawla, funcionário de um hotel de praia agradável chamado el Mathaf, “os palestinos disparavam da água”.

No domingo ao meio-dia, os bombardeios constantes de Israel já tinham custado a vida de pelo menos 167 vidas palestinas, segundo as autoridades. Trinta deles, crianças. Também são crianças entre 25% e 30% dos feridos que chegam aos hospitais.

Vinte e dois palestinos morreram às 22 horas de sábado no bairro de Tuffah, e pela manhã continuavam as buscas pelos corpos de cinco desaparecidos em um bombardeio israelense. Duas explosões de alta potência destruíram um bloco de casas e afetaram várias edifícios adjacentes, em sua maioria habitados por familiares de Taisir el Batsh, chefe de polícia da Faixa de Gaza. Ele ficou ferido, mas continua estável no hospital de Al Shifa. Seu sobrinho, Mohammed, de 20 anos, contava no domingo como as explosões sacudiram as ruas próximas “como um terremoto” quando ele saía da mesquita. Houve dezenas de feridos. Uma escavadeira tateava em busca de desaparecidos. Quando encontraram um braço de uma mulher esmagado, os presentes repetiram a meia voz a oração muçulmana: “Não há outro deus além de Alá”.

Enquanto procuravam, muitos celulares do norte de Gaza recebiam chamadas e mensagens de texto ameaçadores. Anunciavam um bombardeio iminente e instavam os palestinos da região a deixar suas casas. Na localidade de Beit Lahia, também no norte, ouvem-se desde o meio-dia impactos regulares da artilharia naval, que parece especialmente forte. Os moradores fogem às centenas para a Cidade de Gaza. Saher al Jabar, um homem de meia idade que não quer ir embora, ria ao explicar que a mensagem dos israelenses “termina com uma ameaça mafiosa: nós avisamos”. O mecânico palestino sorria: “Nos mataram em nossas próprias casas e vão dizer que somos escudos humanos”.

Os drones submetem os habitantes de Gaza à supervisão constante de soldados israelenses que, sentados em uma base a vários quilômetros, manejam equipamentos feitos para vigiar e castigar. O ataque de um deles deixou Usamah manco e ferido no sábado à noite. Ele está entubado em uma cama do hospital de Al Shifa, onde o cirurgião norueguês Erik Fosse explicava no domingo que o paciente quase foi morto por um projétil de drone, que são “precisos e teleguiados”. Com uma câmera própria, são feitos de materiais muito leves. Por isso, quase não deixam rastro sobre as calçadas ou edifícios que atingem. Sua onda expansiva, por sua vez, mata tudo que existe em um raio de 10 a 15 metros. A explosão desprende gotas de metal quente que provocam pequenas queimaduras como as apresentadas pelo corpo quase nu de Usamah em sua cama na UTI do Al Shifa. Fosse diz que “sua eficiência é enorme”.

O professor de cirurgia da Universidade de Oslo explica com a frieza dos especialistas que “quase ninguém sobrevive a esses ataques” teleguiados. Desde que os bombardeios israelenses começaram, há menos de uma semana, o norueguês viu “duas crianças mortas por esses projéteis de drone”. O soldado israelense vê pela tela contra quem a bomba é dirigida? O professor Fosse assente: “É um assassinato”.

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