Israel cogita intervenção terrestre em Gaza

Os bombardeios israelenses causaram 130 mortos, entre eles 23 crianças O Governo de Benjamin Netanyahu pede aos habitantes do norte da faixa de Gaza que deixem suas casas

Colunas de fumaça depois de um ataque israelense sábado em Gaza.
Colunas de fumaça depois de um ataque israelense sábado em Gaza.T. C. (AFP)

Para chegar ao que foi o lar para deficientes de Beit Lahia, era só seguir, sexta-feira, em sentido inverso, as marcas de sangue úmido deixadas pelos pés descalços da enfermeira Salwa Abu Alqamsam, depois da explosão que a deixou ferida. O que se conta nessa localidade no norte da Faixa de Gaza é que os aviões israelenses enviaram um foguete de advertência às 4h20 da madrugada. Cinco minutos depois caiu um potente míssil sobre a casa. Morreram Saha Abu Saada e Ola Wishahi, duas mulheres incapazes de se locomover. Outros três pacientes ficaram feridos. Ninguém sabe porque Israel escolheu esse alvo, ainda que os vizinhos aventurem-se a dizer que um antigo inquilino do andar de cima poderia ser militante da jihad islâmica. Mudou-se há um mês.

Um vizinho chamado Sadala el Masri explicava que, depois de ouvir o foguete de advertência que às vezes são disparados pelos israelenses para alertar a possibilidade de um ataque iminente, muitos ficam em casa por medo. Ele não saiu da cama porque se sentia mais seguro ali do que fora. Os deficientes físicos não tiveram escolha. Mas El Masri tirou a sorte grande.

Não foi assim com Yusef e Anas Qandil, pai e filho de 38 e 18 anos. Sabiam que em seu edifício no campo de refugiados de Yabaliya tinha vivido um certo líder jihadista. Por isso saíram de casa ao ouvir uma explosão de aviso na noite de quinta-feira. Sentaram-se a uma distância prudente, com alguns vizinhos. Foram atingidos por um pequeno projétil de precisão, desses que são disparados por aviões não tripulados (drones) israelenses que sobrevoam Gaza dia e noite. Fazem um buraco minúsculo quando explodem. Sua onda expansiva mata em um raio limitado de 10 a 12 metros.

Enquanto, ao cair da noite, crescia em Gaza o temor a uma invasão terrestre israelense, o Ministério da Saúde palestino já contava 130 palestinos mortos, entre eles pelo menos 23 crianças. O número de feridos passava de 1.000 ao meio-dia. Nos mais de 1.100 ataques contra casas de supostos militantes do Hamas e da Jihad Islâmica e as estruturas de ambas as organizações islâmicas, Israel não tinha matado até sexta à noite nenhum de seus dirigentes principais nem de seus comandantes.

O Hamas e a Jihad Islâmica continuaram disparando foguetes contra Israel. Segundo as contas oficiais do Exército, na sexta foram lançados 36 projéteis de diferentes potências. No total, já somam mais de 550 desde terça-feira, apesar de Israel bombardear a Faixa a cada poucos minutos. Na sexta-feira, resultaram no primeiro ferido considerável em uma semana de guerra, um homem de 61 anos em Ashdod. Hamas lançou sexta à noite vários foguetes contra Tel Aviv, dos quais quatro foram interceptados.

O cirurgião Sobhi Skaik, diretor clínico do grande hospital de Al Shifa, lamentava no sábado “a perversão” de se chamar de “ataques cirúrgicos” aos bombardeios israelenses com drones. Encheram sua clínica de amputados, como Rashid Kafernah, um policial de 30 anos ferido por um desses  mísseis. Sua mãe, Feryal, espera-o “dia e noite desde quarta-feira” em um canto do vestíbulo do hospital. Talvez o rapaz sobreviva. O médico veterano explicou que os estilhaços dessas bombas “cortam os membros como lâminas”.

Seu chefe, Naser Tatar, não dormiu “mais de uma hora seguida” desde domingo. Com um aspecto de cansaço atroz, o diretor do Al Shifa explicava em sua sala que “a situação já é muito pior do que [nas operações militares israelenses de] 2008 e 2012”. Em Gaza há muitas carências desde o cerco imposto por Israel depois da guerra civil que, em 2007, separou Gaza, controlada pelos muçulmanos do Hamas, da Cisjordânia, governada pela Al Fatah. Agravaram-se com o golpe de Estado que depôs há um ano o Governo islâmico de Mohamed Morsi, aliado do Hamas no Egito. No Al Shifa “já escasseiam a adrenalina, a anestesia, os antibióticos...”, explicou Tatar em surpreendente ordem alfabética antes de dar a entender com um gesto que tudo é escasso. As necessidades quadruplicaram desde o início dos bombardeios israelenses.

Se a temida invasão terrestre começar, “vai duplicar novamente”, segundo Tatar. A carência se transformará em emergência “e vamos ter de ficar olhando os feridos morrerem”. A UTI do Al Shifa já estava, no sábado, “no limite de sua capacidade”. Há duas semanas que não se fornece nada além de “insumos para diálise; nada para emergências”.

Em Gaza, ficou complicado encontrar algum sentido político para essas hostilidades, cujo desenlace é imprevisível. O Hamas tem muito pouco a perder em uma região depauperada, cercada por Israel e isolada por terra, mar e ar desde que o Egito fechou sua fronteira depois da queda de Morsi. Uma guerra une a população e relega outras penúrias a segundo plano. Se esse é o lucro que os líderes do Hamas procuram, se arriscam a que a destruição acabe afetando-o.

De sua parte, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, com a guerra fez as pazes com os parceiros mais à direita de sua coalizão de Governo, que pediam mão mais firme com o Hamas. Mas corre o risco de que a situação desemboque em outra Intifada. Além disso, sua esmagadora superioridade militar e a clamorosa desproporção entre os danos sofridos por Israel e os infligidos por palestinos continuarão minando sua imagem internacional . Quaisquer que sejam os cálculos, os 1,8 milhões de habitantes de Gaza estão pagando essa fatura fora de proporção.

Os ministros de Relações Internacionais de EUA, Reino Unido, França e Alemanha, que se reúnem hoje em Viena, anunciaram que tentarão conduzir os dois lados a um cessar fogo.

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