A renovação renovável uruguaia

Cerca de 84% da eletricidade do país vem de fontes alternativas

Moinhos de vento na Sierra de Caracoles, Uruguai.
Moinhos de vento na Sierra de Caracoles, Uruguai.Andres Stapff (REUTERS)

A rápida introdução de energias renováveis na matriz energética do Uruguai era, até há pouco tempo, uma notícia recorrente na imprensa especializada, um sucesso teórico com cifras espetaculares. Até que neste mês de julho se materializou em algo tangível para os cidadãos: uma queda na conta de luz.

A mudança tem sua origem nas fortes chuvas que encheram as represas este ano e em uma nova realidade: 84% da eletricidade do Uruguai vem de recursos próprios, como vento, sol, chuva ou queima de resíduos agrícolas. As energias verdes logo chegarão a 40% da matriz energética local, quando a média mundial não passa de 17%.

A partir de julho, os lares pagarão 5,5% a menos de tarifa de energia e as empresas pequenas e médias, 6% a menos. Um alívio em um país no qual a energia é cara. Por mais que nos últimos anos o preço da eletricidade tenha subido abaixo da inflação —o que representa uma economia para o consumidor— agora a redução é direta.

Com pouco mais de 3,2 milhões de habitantes, o Uruguai não dispõe de petróleo nem de gás e até há pouco tempo a conta de energia era um entrave a sua produtividade

Com pouco mais de 3,2 milhões de habitantes, o Uruguai não dispõe de petróleo nem de gás e até há pouco a conta de luz pesava como uma pedra sobre a produtividade do país. Também condenava parte da população a passar frio e a considerar um luxo comodidades como lavadoras de pratos ou secadoras de roupa. Montevidéu é a capital mais ao sul da América Latina e, ainda que os inverno dure cerca de quatro meses, os ventos marinhos e um índice de umidade que às vezes chega a 98% o tornam interminável.

Com uma renda média por família de 41.000 pesos (cerca de 3.900 reais), a conta de energia mensal passa facilmente dos 5.000 pesos (cerca de 480 reais) quando é preciso ter calefação. Os lares modestos, cerca de um terço da população (o salário mínimo é de cerca de 950 reais) aguenta como pode as inclemências do tempo. Em colégios, universidades, repartições públicas passar frio é algo frequente.

Esse cenário está mudando rapidamente, como explica a principal referência no assunto no país, Ramón Méndez, diretor nacional de Energia desde 2008. “No Uruguai estamos falando de uma política de longo prazo e isso é central, muito poucos países no mundo têm algo parecido. Essa política foi acordada entre todos os partidos políticos”, garante esse doutor em Física que projetou 25 anos de revolução energética.

“A introdução da energia renovável aumenta nossa soberania energética. É uma questão de sobrevivência da economia. Tudo isso permitiu garantir o abastecimento, coisa que historicamente não era trivial no Uruguai. A tal ponto que no verão passado exportamos para a Argentina o equivalente a 50% de nosso consumo”, diz Méndez.

Desde 2008, o Uruguai investe 3% de seu PIB anual na mudança de sua matriz energética. O modelo uruguaio tem características particulares: diferentemente da vizinha Argentina, da Espanha ou da União Europeia, “nós não subsidiamos a energia”, afirma o responsável uruguaio. O sistema se baseia na associação do setor público e de empresas privadas, a Direção Nacional de Energia abre leilões e concursos, escolhe a tecnologia mais madura e rentável para o país. Um dos maiores sucessos foi registrado na instalação de eólicas: “O vento é mais estável do que a chuva, se repete todos os anos, é um negócio financeiro”, afirma Méndez.

Dentro de dez anos, o pequeno país sul-americano, que já dependeu tanto das importações de petróleo, poderá ser autossuficiente

Javier Tirado, chefe de projeto da empresa espanhola R del Sur, confirma que o vento, “bastante estável em longo prazo, muito variável em períodos curtos”, constitui um bom negócio. A empresa construiu o maior parque eólico do país, com 25 geradores de tecnologia espanhola. O investimento foi de 100 milhões de dólares e outro de mesma envergadura está em projeto.

“As empresas espanholas são maioria no Uruguai, porque somos pioneiros no setor de energia renovável. O caso do Uruguai é bem particular. É pequeno e por isso é o cenário ideal para enfrentar esses desafios de maneira controlável por parte do Estado”, diz Tirado.

No caso uruguaio, é chave que a distribuição da eletricidade seja monopólio de uma empresa, a estatal UTE. O nível de penetração de energias renováveis no Uruguai “não tem paralelo no mundo, é uma invenção muito interessante e estamos esperançosos de ver como funciona”, garante Tirado.

Dentro de dez anos, o pequeno país sul-americano que tanto dependeu das importações de petróleo poderá ser autossuficiente e até se tornar exportador de energia. Uma revolução ecológica e silenciosa como os moinhos de vento.

Um pacto de Estado para o caso de haver petróleo

M. MARTÍNEZ

Neste mês de julho começará a perfuração do primeiro poço de prospecção de petróleo nas costas do Atlântico, em frente ao Uruguai. Há vários anos as principais companhias petrolíferas do mundo investem dois bilhões de dólares na busca de hidrocarbonetos em uma região geológica similar à jazida do pré-sal do Brasil. Em troca do trabalho de prospecção, o Governo do Uruguai oferece um contrato de exploração de 30 anos para as empresas envolvidas no processo.

Desde já se pensa em um novo pacto de Estado sobre o petróleo, semelhante ao selado em 2008 para introduzir energias renováveis no país. O atual Governo da esquerdista Frente Amplio procura um consenso para que uma hipotética renda petrolífera não encerre os esforços para introduzir energia verde. Também se busca evitar que o combustível seja quase gratuito, como no caso da Venezuela. Nos próximos cinco anos não se saberá se o Uruguai será um país petroleiro, uma condição tão vantajosa quanto perigosa para o futuro de um país.

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