Um informe coloca em dúvida supostas provas do complô contra Maduro

Os e-mails atribuídos a um acusado são "montagens", segundo uma consultora

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro.
O presidente venezuelano, Nicolás Maduro.EFE

"Estamos mostrando a ponta do iceberg, mas repousam em poder do alto comando político da revolução bolivariana uma grande quantidade de correios eletrônicos sujeitos a investigação criminal que envolvem de forma direta setores da ultradireita venezuelana." Depois de pronunciar estas palavras no último 28 de maio, o prefeito de Caracas, Jorge Rodríguez, mostrou através da estatal venezuelana de televisão sete mensagens que supostamente provavam o mais recente plano urdido pela "ultradireita venezuelana" para derrubar e assassinar o presidente Nicolás Maduro. Em seguida, a promotoria local citou os supostos implicados e Maduro pediu publicamente sua captura por parte da Interpol. Mas esta semana, por pedido de um dos acusados, a empresa Google certificou perante um tribunal federal dos Estados Unidos que tais correios nunca saíram de seus servidores e que, em consequência, foram falsificados.

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O nome de Pedro Mario Burelli -ex-assessor externo da estatal Petróleos da Venezuela, residente nos Estados Unidos há mais de uma década- estava entre a meia dezena de opositores apontados pelo prefeito Rodríguez de trocar correspondência para planejar atos de violência na Venezuela, com estes objetivos em mente: "Tirar o Governo constitucional do poder, assassinar ao presidente constitucional da República, Nicolás Maduro; criar um banho de sangue, que se instalasse a violência e que eventualmente uma ingerência externa entrasse". Uma das mensagens atribuídas Burelli e lida ao vivo durante um ato do partido oficialista diz: "Vamos por tudo e com tudo, contra todos. Contamos com o departamento, a embaixada e daqui a pouco chegam as sanções do Senado. (…) Vamos tomar como nos corresponde as ruas do país, incluídas as do Palácio (do Governo) e vamos cercar esse filho da puta”.

Por frases como esta, a Promotoria Geral da Venezuela ditou uma ordem de apreensão contra Burelli, o ex-embaixador Diego Arria e o advogado Ricardo Koesling; e foram citados a declarar como suspeitos, a ex-deputada María Corina Machado e o ex-governador Henrique Salas Römer. No dia 12 de junho, o presidente Maduro disse que também ordenou a captura internacional de Burelli, Arria e Koesling, mas seu anúncio nunca foi formalizado através da Interpol. A Chancelaria venezuelana também publicou um informe com o conteúdo destas mensagens sob o título Revelado o Golpe de Estado e magnicídio na Venezuela, que distribuiu em suas embaixadas, em inglês e espanhol.

Desde o início da acusação, Burelli negou a autenticidade das mensagens e exigiu frente a um tribunal federal da Califórnia que Google certificasse se estes correios tinham sido enviados através de seu servidor. A informação fornecida por Google foi analisada, por sua vez, pela empresa auditora Kivu Consulting, que chegou às seguintes conclusões, em um texto entregue aos tribunais: "Os emails no informe do governo venezuelano são claramente montagens e não refletem capturas de tela. Os registros verificados provenientes do Google não demonstram prova alguma de que estes emails jamais tenha existido. Os registros verificados provenientes do Google confirmam que existe um e-mail de 2011 que contém linhas de texto que são idênticas às de um suposto e-mail de 2013 do Informe do governo venezuelano".

"Embora o ônus da prova recai sobre o acusador, iniciei as medidas para chegar onde estamos hoje. Esses emails foram inventados e apostaria que o caso é o mesmo para os outros quatro correios eletrônicos utilizados para vilipendiar e perseguir um grupo de venezuelanos que critica o governo de Maduro", assegurou esta quinta a EL PAÍS, Pedro Burelli. "Estou fazendo isto porque vivo fora, posso recorrer a uma instância que pode me ajudar a me defender, conheço como funciona a tecnologia e estou disposto a investir dinheiro e tempo para limpar meu nome. Mas quanta gente está presa agora na Venezuela ou saiu do país ou está aterrorizada porque utilizaram contra elas mentiras das quais não têm como se defender?", perguntou o funcionário da estatal petroleira Pdvsa.

O prefeito Jorge Rodríguez tinha respondido às dúvidas que despertaram sua denúncia entre a opinião pública venezuelana de que a Promotoria Geral da República contava com os elementos que dão "valor de prova" a estas mensagens. No entanto, nem o Governo nem o Ministério Público entregaram mais dados sobre a investigação, como ocorreu no passado com casos similares.

Mesmo antes de assumir a presidência da Venezuela, Nicolás Maduro denunciou mais de uma dezena de complôs para assassiná-lo. Em abril de 2013, em plena campanha presidencial, assegurou que seu principal rival, o opositor Henrique Capriles, tinha recrutado dois "grupos de mercenários" em El Salvador para disparar contra ele. Um mês depois, disse que o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe tinha enviado à Venezuela um grupo de "paramilitares" com o mesmo propósito. O mesmo fez seu antecessor, o falecido Hugo Chávez, em mais de 60 ocasiões.

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