A UE escolhe Juncker apesar das pressões do Reino Unido

O conservador luxemburguês deve ser ratificado pelo Parlamento Europeu em 16 de julho

Jean-Claude Juncker, o novo presidente da Comissão Europeia.
Jean-Claude Juncker, o novo presidente da Comissão Europeia.Yves Logghe (AP)

Um federalista luxemburguês, o conservador Jean-Claude Juncker, foi nomeado candidato à presidência da Comissão Europeia —o posto mais importante de Bruxelas— pelos chefes de Estado e de Governo reunidos em Bruxelas. Juncker é o escolhido apesar da série de ameaças, pressões e golpes baixos que o primeiro-ministro britânico, David Cameron, protagonizou —ele que é o grande perdedor das eleições europeias de 25 de maio: derrotado em casa pelos eurófobos do Partido da Independência do Reino Unido e, sobretudo, derrotado na Europa depois de uma campanha de descrédito contra Juncker que o deixou completamente isolado.

Nem mesmo seus aliados tradicionais, os países nórdicos e alguns da Europa Central, apoiaram Cameron nessa afronta contra o candidato mais votado nas eleições europeias. Só o primeiro ministro húngaro, o ultradireitista Viktor Orbán, votou com os britânicos. Vinte e seis a dois: esse foi o resultado do encastelamento do Reino Unido. Consciente de sua derrota, Cameron advertiu os parceiros de que “viverão para lamentar o processo de eleição do presidente da Comissão Europeia”. Mas nem esses avisos nem as ameaças de um eventual apoio do partido conservador britânico ao não no referendo de 2017 sobre o pertencimento do Reino Unido à UE serviram para demovê-lo da candidatura.

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Cameron forçou uma votação pela primeira vez na história das nomeações do Conselho. E perdeu de goleada, com apoio apenas da Hungria. Tudo apontava para esse resultado, depois que Holanda e Suécia anunciaram, no meio da semana, que apoiariam Juncker e sobretudo depois do respaldo da chanceler alemã, Angela Merkel, que virou o jogo ao lado do primeiro-ministro italiano, o socialdemocrata Matteo Renzi. Juncker sucederá o conservador português José Manuel Barroso, que permaneceu 10 anos no cargo e administrou de forma mais do que discutível a maior crise da região do Euro desde a sua criação.

A nomeação do político veterano luxemburguês deve ser ratificada pelo Parlamento no próximo 16 de julho.

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, afirmou nesta sexta-feira em Bruxelas que Juncker é “a pessoa errada” para o cargo. Com essas declarações na chegada à reunião de chefes de Estado e de Governo da União Europeia (UE), Cameron volta a se distanciar de seus colegas europeus no início de uma jornada chave para o futuro da Europa nos próximos cinco anos.

“Sei que está tudo contra mim, mas isso não significa que tenha de mudar de opinião. Tenho de defender o que acredito e votar de forma correspondente”, destacou o dirigente britânico ao chegar à sede do Conselho Europeu. “As eleições europeias mostraram que há uma grande inquietude sobre o funcionamento da UE e Juncker estava no coração do projeto. Contribuiu, durante toda a sua carreira política, para incrementar o poder de Bruxelas e diminuiu o poder dos Estados”, concluiu Cameron. No meio da tarde, o dirigente britânico publicou um tuíte duro no qual alertava os colegas europeus sobre a transcendência de sua decisão. “Disse aos líderes europeus que poderiam viver para lamentar o novo processo de escolha do presidente da Comissão”, escreveu em sua conta do Twitter. “Sempre defenderei os interesses do Reino Unido”, destaca.

O primeiro-ministro do Reino Unido não conseguiu grandes apoios em sua postura inflamada contra Juncker. Nas últimas semanas, Downing Street tentou, sem sucesso, trazer os Países Baixos e a Suécia para sua cruzada contra o candidato.

Juncker encabeçava a lista do Partido Popular Europeu, que se impôs por ampla margem de assentos (221 contra 191 dos socialistas) nas eleições para a renovação da Câmara Europeia. Além da nomeação do novo presidente do Executivo da comunidade, os líderes dos 28 Estados membros debaterão a agenda da UE para os próximos cinco anos em termos de política energética, imigração e segurança.

Além disso, os chefes de Estado e de Governo assinaram nesta sexta-feira os acordos de associação e livre comércio com a Moldávia, a Ucrânia e a Georgia.

Merkel e Renzi aparam suas arestas

Depois de conseguir que o rascunho das conclusões da reunião europeia inclua uma flexibilização das regras fiscais europeias —e com isso mais tempo para reduzir os altos níveis de déficit da periferia—, o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi teve ontem à noite um encontro bilateral com a chanceler alemã Angela Merkel para tentar aparar as arestas em uma questão central nas prioridades do Governo transalpino. Segundo informa o Corriere della Sera citando fontes oficiais, ambos os dignitários se reuniram ontem antes do jantar com o objetivo de chegar à reunião de hoje com um texto "um pouco menos genérico". Nessa tomada de contato bilateral, Renzi lembrou a Merkel —em tom de brincadeira, lembra o diário italiano— que seu país não violará o Pacto de Estabilidade e Crescimento, tal como fez a Alemanha em 2003. Hoje pela manhã, pouco antes do início da reunião, ambos os líderes voltaram a conversar na sede do Conselho Europeu em Bruxelas para discutir as novas nomeações nas instituições comunitárias.

Em paralelo aos últimos encontros comunitários —uma prática habitual nas altas esferas da comunidade— tanto Renzi como o presidente francês François Hollande tentaram relançar o debate sobre a flexibilidade da consolidação orçamentária a fim de impulsionar o crescimento e o emprego, o calcanhar de Aquiles dos países do sul. E, considerando-se a postura reticente da Europa mais ortodoxa —Alemanha à frente— tudo parece indicar que serão bem sucedidos em seu objetivo de incluir as ansiadas mudanças no texto final de conclusões do encontro. Esse acordo faz parte de um quebra-cabeças segundo o qual Renzi e Hollande votarão a favor de Juncker como próximo presidente da Comissão Europeia em troca da flexibilização das regras fiscais e de maior poder de decisão sobre o restante dos postos-chave do novo mandato europeu (Alto Representante e presidente do Conselho, especialmente). Merkel, por sua vez, aceita essas variações em seu rígido guia de reformas desde que isso não implique em mudança nos Tratados, coração da arquitetura legal da comunidade.