Copa do Mundo 2014 | PORTUGAL

O drama de ‘Johnny Bravo’

Caçoado por seus companheiros como o infeliz personagem do Cartoon Network, Cristiano Ronaldo vai para o tudo ou nada contra Gana com pouquíssimas esperanças

Cristiano, na partida contra os Estados Unidos (atlas)

Rui Faria, o preparador físico do corpo técnico de José Mourinho, teve que dar um jeito para convencer Cristiano Ronaldo a não fazer tanta musculação, argumentando que o excesso de carga poderia diminuir suas qualidades. Jorge Valdano, ex-diretor geral esportivo do Real Madrid, pensava que o goleador português trabalhava a musculatura da parte superior por razões psicológicas, porque a couraça o fazia se sentir mais seguro dentro do campo. Futebolisticamente, aumentar os dorsais ou os peitorais não tinha tanto sentido. Mas Rui Faria foi embora e no ano passado Cristiano voltou a redobrar as sessões no supino, na barra fixa e nas demais máquinas da academia de Valdebebas. Lá era visto por seus companheiros malhando com entusiasmo, quando não o fazia na academia de sua própria mansão, na Finca. Espantados diante da hipertrofia do colega, os jogadores praticaram um velho hábito do grêmio: a gozação. Cristiano se tornou assim Johnny Bravo.

Johnny Bravo é o personagem central da comédia de desenho animado produzida pelo canal Cartoon Networks. Trata-se de um jovem de topete proeminente, torso desproporcionado e pernas curtas que vive em um estado de permanente angústia narcisista, desejando conquistas que nunca se concretizam. Nisso começa a ter semelhança com o Cristiano do Brasil. O homem passa anos sonhando em se exibir na Copa do Mundo e agora que chega a hora tudo ameaça ruir ao seu redor. Portugal, sua seleção, precisa preencher três condições para ser a segunda no grupo G: ganhar de Gana, esperar que a Alemanha derrote os Estados Unidos no outro encontro, e neutralizar os quatro gols contra de diferença –seja fazendo mais de três gols em Gana ou esperando que a Alemanha goleie os norte-americanos.

Dizem seus companheiros de clube que a obtenção de sua segunda Bola de Ouro, em janeiro, mudou o caráter de Cristiano. Logo começou a se mostrar enfadonho e exuberante. Como se extrapolasse em sua própria vida. Na semana passada, na expedição de Portugal alguns jogadores ficaram perturbados quando, depois de empatar (2-2) com os Estados Unidos, o ouviram dizer publicamente que não eram favoritos. “Não devemos esperar ser campeões”, disse. “Nós chegamos aqui porque fomos ao ‘playoff’ contra a Suécia e aconteceu o que aconteceu”.

“O que aconteceu” foi que Cristiano arrebentou a Suécia. Fez quatro gols que deram a classificação à Copa para sua equipe e lhe permitiram ganhar a Bola de Ouro. Em Manaus, o jogador lembrou a todos que sem suas façanhas Portugal não é nada. O comentário, quase uma repreensão depois de uma derrota e um empate que quase leva à eliminação, foi inoportuno, na opinião de um grupo cada vez mais numeroso de jogadores portugueses. Ultimamente Cristiano anda rodeado por seu séquito: seu Pepe, seu Coentrão, seu fisioterapeuta, seu médico, seu secretário. Os companheiros de Portugal o observam com distância, e até com desagrado, como quando o viram gesticular de modo depreciativo durante a goleada (4-1) diante da Alemanha. O técnico Paulo Bento também não gostou daquelas caretas acusatórias.

A dor contribui para alienar Cristiano. Seu joelho esquerdo, com uma tendinite grave, o tortura. No elenco do Real Madrid acreditam que o aumento da massa muscular na parte superior de Cristiano é bom para as reportagens fotográficas na ‘Vogue’ mas não para suas articulações. Dizem que os joelhos suportam um peso adicional desnecessário cada vez que ele imprime potência na corrida, quando gira, freia ou muda de direção. O doutor Alfonso del Corral, que foi médico do Real Madrid, opina que a musculação é necessária, mas com controle: “É muito recomendável fortalecer a parte superior, mas sem ganhar peso. Cada jogador tem de se submeter a um estudo antropométrico que indica onde estão as proporções. Se o preço para aumentar a massa muscular é ganhar mais de cinco quilos, não convém fazê-lo”.

O maior goleador da Europa corre o risco de abandonar o Brasil sem ter feito um único solo gol. Aos 29 anos é duvidoso que consiga brilhar em outra Copa do Mundo. Este torneio é implacável com as figuras consagradas. Mas com nenhuma é mais cruel do que com Johnny Bravo.