Copa do Mundo 2014 | BRASIL

O ‘nove’ invisível

Sem gols para comemorar, Fred iguala Serginho como o pior centroavante do Brasil nas duas primeiras partidas de uma Copa

Fred pede o apoio da torcida no jogo contra o México.
Fred pede o apoio da torcida no jogo contra o México.

A cada Copa, o Brasil é espreitado pela sua própria mística. A grandeza do seu passado submete os seus jogadores a angustiantes comparações com o número da camisa que vestem. Quem usa a 10 já sabe que pairarão sobre si as figuras de Pelé, Zico e Ronaldinho, que o 7 será contraposto a Garrincha ou Jairzinho, e que o 9 será confrontado com Romário e Ronaldo. Fred vive sob essa pressão desde primeiros dias de concentração em Teresópolis.

Contra a Croácia, safou-se das críticas por cavar aquele pênalti inexistente que significou a vitória. Contudo, desde a partida inaugural já era um nove desimportante no jogo e na área, com uma bagagem de zero chute a gol. Sua decepcionante partida contra o México acabou por deixá-lo na mira. Quando Luiz Felipe Scolari o substitui por Jô, parte da torcida lhe dedicou uma sonora vaia.

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Ontem, com apenas dois arremates a gol e 14 bolas perdidas, Fred estabeleceu um recorde negativo neste início de Copa. Ele e Serginho, o contestado centroavante da Copa de 82, são os dois únicos centroavantes brasileiros a terem passado em branco nos dois primeiros jogos de uma Copa.

“Estamos em busca de melhoras, e os gols vão acabar chegando”, argumentava um abatido Fred na zona mista. “Tentamos fazer com que ele não recebesse de costas e não deixar espaços para ele, sempre com ajudas entre nós”, explicava o veterano Márquez sobre a marcação à qual foi submetido por ele mesmo, por Maza Rodríguez e por Héctor Moreno. “Tentamos não cair nas artimanhas dele para criar espaços para Neymar, e quando ele recebia o cercávamos para que não pudesse descarregar o jogo”, explica Rodríguez.

Fred é uma aposta muito pessoal de Scolari, que tem muito a ver com seu libreto. Além de um goleador, Scolari procurava uma referência de infiltração, um pivô que favorecesse as chegadas da segunda linha encabeçada por Neymar.

“Adoro jogar com um centroavante”,  foi uma das primeiras ideias que Felipão difundiu ao voltar à seleção

Na primeira entrevista coletiva que deu como novo treinador brasileiro, Felipão enterrou uma das propostas que seu antecessor, Mano Menezes, havia tentado sem sucesso implantar na seleção – a de tentar construir uma seleção se inspirasse na Espanha para tentar dominar o jogo a partir da posse de bola. Menezes desenhou um esquema a partir do qual tentou impulsionar com Neymar a figura do falso 9. “Só é possível atacar quando há posse de bola, é isso o que estou tentando mudar. Ultimamente o Brasil vinha jogando mais no contra-ataque do que no ataque, acredito que precisamos ter a capacidade de propor o jogo. O Neymar é chave como falso 9”, apregoava.

Menezes fracassou na Copa América e foi destituído a menos de um ano do início da Copa das Confederações, e o retorno de Scolari significou o fim dessa ideia que pretendia um Brasil mais de acordo com a sua história. “Adoro jogar com um centroavante”, foi uma das primeiras ideias que Felipão difundiu em sua volta. Sua primeira convocação para um amistoso contra a Inglaterra, em fevereiro de 2013, incluiu Fred e Luis Fabiano. Deu um tempo para cada um, e Fred se saiu melhor no teste. Convertido em 9 de referência, os cinco gols que fez na Copa das Confederações lhe concederam um crédito que está perto de se esgotar neste Mundial. Naquela época, a imprensa brasileira brincava com o passado de garimpeiro do seu pai. Associava seu instinto na área ao do seu pai como buscador de pedras preciosas.

A um ano da Copa, se tornou um personagem cuja vida pessoal era celebrada em extensas reportagens que falavam de um bon vivant amante do vinho francês e das mulheres, morador do boêmio e movimentado bairro do Leblon, na Zona Sul do Rio, onde se instalou desde que deixou o Lyon para jogar pelo Fluminense. Nesta temporada, no entanto, seus números – apenas quatro gols – abriram dúvidas sobre um atacante que reconhece seus limites. “Na Copa das Confederações, quando eu disse que faria um gol e passei dois jogos, me mataram”, dizia ele antes do começo da Copa. “Sei que para mim é impossível driblar cinco jogadores e marcar gol”, admitia Fred, quando sua figura já começava a ser questionada. Agora, jogará com a pressão adicional de saber ser o 9 com os piores números da história do Brasil em Copas. Até agora, foi um atacante invisível.