Copa do Mundo 2014

Del Bosque aposta em Diego Costa no ataque da Espanha

O treinador confia no atacante do Atlético, apesar de suas lesões físicas Também entra Juanfran no lugar de Carvajal. Ficaram de fora Moreno, Iturraspe, Navas, Llorente e Negredo

SEFútbol

Comedido em tudo e respeitoso como poucos com os galões e hierarquias, atitude que lhe fornece tantos elogios e êxitos, Vicente Del Bosque entende que no futebol jogam os melhores. É o seu grupo e cofia nele de olhos fechados. Assim demonstrou com a lista definitiva do Mundial, com 18 jogadores que participaram da última Eurocopa, na Ucrânia e Polônia; com 16 que estiveram no Mundial da África do Sul. Apenas o descarte de Navas, que na última sexta andava com a expressão aberta e confiante pelo Estádio Sánchez Pijuán porque acreditava que viria para o Brasil – “fiquei muito triste ao ver como ele ficou ”, reconheceu o treinador – além da inclusão de um machucado Diego costa, são as escolhas originais, quiçá as duas únicas dúvidas acentuadas de Del Bosque. Mas o técnico, agarrado às suas ideias por um senso comum e direito próprio, acredita que o estilo da Espanha é irrenunciável, que não o modelo não se muda, e aposta no que se sabe, pelo ataque de passes pelo centro, sempre que não conta com um atacante que faça cruzamentos nem centroavantes altos que cacem bolas pelo alto.

Com Thiago descartado antes do tempo por ter machucado o joelho direito, Del Bosque descartou no último duelo contra a Bolívia o meia Iturraspe e o lateral esquerdo Alberto Moreno, duas apostas para o futuro, mas não para o presente, como ocorreu também com Deulofeu, chamado às pressas pelos desfalques e que este ano terá sua prova de fogo na equipe principal do Barcelona. O treinador definiu também, com pesar, que Navas não estava pronto após dois meses de inatividade – “estou orgulhoso de ter me recuperado a tempo e de haver lutado para estar no Brasil; desejo aos meus companheiros e ao técnico toda a sorte para repetir o título”, escreveu ontem o jogador do Manchester City em sua conta do Twitter – circunstância que joga o protagonismo e presença para Negredo e Llorente, atacantes oportunistas, monstros da área que já estavam de férias como diziam nas redes sociais antes de se conhecer a lista definitiva. Por que a Espanha, com uma lista na qual talvez nada sobre, e sim falte, se apega ao conhecido, a redundância do passe em busca da quebra definitiva do rival, o jogo de tabelas com ultrapassagem pelo meio, o ataque estático, pois não conta com um ala de profundidade nem um velocista, sem um jogador de drible e cruzamentos, uma solução para o contra-ataque ou o chutão em último caso.

Fica a dúvida, no entanto, sobre se a coluna vertebral, formada pelos solistas do Barça –contribui com oito para a seleção, seguido pelo Atlético de Madri (4) e o Real Madrid (3)–, por Piqué, Busquets, Xavi e Iniesta, aguentará as exigências competitivas do torneio, extenuados neste momento pelo final da Copa do Rei e as quartas de final da Europa, também pela Liga no último duelo diante do Atlético. Mas Del Bosque, que com eles alcançou o topo europeu primeiro e o universal depois, não titubeia nem um átimo. Por algum motivo em 8 de maio, quando se anunciou o ranking da FIFA das seleções, a Espanha encabeçava a lista seguida pela Alemanha, Portugal e Brasil, vindo depois Colômbia, Uruguai e Argentina.

Diego Costa, De Gea, Azpilicueta, Koke e Villa, as novidades em relação à Eurocopa

Preocupado por dobrar todas as posições da equipe, no entanto, o técnico tem soluções para qualquer marcação por mais que Jordi Alba seja o único lateral esquerdo natural, talvez com a confiança de que Azpilicueta possa atuar como polivalente em caso de urgências. Ele sobrecarregou, em todo o caso, o meio campo porque compartilha com Guardiola a teoria de que o futebol é dos meio-campistas, jogadores de perfil muito semelhante, como Mata, Silva, Cesc, Cazorla... E também conta com três atacantes, com a prioridade para Diego Costa se recuperar, além de Villa –porque Del Bosque entende que não há outro como ele para compreender tanto o jogo como aos companheiros– e Fernando Torres. Atacantes que não completam os centros laterais nem oferecem o peito para proporcionar jogadas para a segunda linha, mas que fazem das escapadas do adversário a sua definição. Figurinhas um tanto repetidas que, além do mais, negam à Espanha um hipotético plano B, além de jogar com um falso 9 —o que desarticula os três pontas, a não ser que Cesc e Silva peçam para ocupar o lugar– quando o rival exija que haja mais controle da bola e da partida.

As únicas novidades em relação à Eurocopa passada são cinco: De Gea, que entra na lista pela ausência de Valdés (recuperando o joelho em Ausburgo e esperando confirmar sua contratação pelo Mônaco) e que não dá mostras de que jogará um minuto sequer na competição; Azpilicueta que teve um bom ano na defesa do Chelsea e que toma o lugar de Arbeloa na briga pela titularidade da lateral direita; Koke, que foi fundamental na excelente temporada do Atlético de Madri e que ocuparia o lugar de Navas para ser opção reserva de passe e comprometimento, além de ser o homem da bola parada; Villa, que perdeu a Eurocopa por lesão e que tampouco teve ano muito prolífico, mas que tomou o lugar de Negredo como maior goleador da história da Espanha (58 gols), capaz de jogar tanto pelo lado esquerdo do ataque como centroavante puro; e Diego Costa, que chega com uma micro ruptura no bíceps que o transforma em dúvida para a estreia contra a Holanda em 13 de junho, em Salvador, mas que luta mais do que qualquer outro, à vontade contra a marcação, certeiro no chute e substituto de Llorente. E não há mais mudanças para fazer porque Del Bosque não quer, porque se entrega aos seus.

A expectativa para saber a lista era enorme, ao ponto do site da federação espanhola saiu do ar durante duas horas pela grande quantidade de visitas. O desafio de conquistar o Mundial é difícil, mas também excitante, sobretudo porque desde 1962 uma equipe não é bicampeã como o fez o Brasil de Pelé. E Del Bosque sabe que o caminho passa pelo toque e pelo passe, para dar continuidade. Assim, o técnico não enganou ninguém, sobretudo porque não lhe importa a falta de diversidade, mas que ganhará ou cairá com suas ideias, seus jogadores, seu grupo.

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