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O reino dos dinossauros gigantes

Desde que Carlos III ordenou que lhe trouxessem um animal pré-histórico vivo até o recente achado do maior exemplar conhecido, a Argentina vem proporcionando marcos na história na paleontologia

O paleontólogo José Luis Carballido, com o fêmur que descobriu.
O paleontólogo José Luis Carballido, com o fêmur que descobriu.

Com frequência, atrás dos grandes golpes de sorte há muito trabalho. Pode parecer um acaso que há dois anos um trabalhador rural em um lugar perdido da Patagônia vislumbrasse um osso enorme; que o trabalhador avisasse os donos do terreno, que os donos se comunicassem com o museu Egidio Feruglio, em Trelew (província de Chubut) e que se descobrisse que o osso era um fêmur de 2,4 metros pertencente ao que os descobridores consideram ser o maior dinossauro encontrado até agora: um saurópodo –devorador de grandes massas de mata, longo pescoço e cabeça pequena–, de 40 metros de comprimento e 20 de altura, com peso aproximado de 77 toneladas e equivalente a 14 elefantes africanos.

Os dinossauros gigantes da Patagônia.  EL PAÍS ampliar foto
Os dinossauros gigantes da Patagônia. / EL PAÍS

Parece acaso, mas a cadeia de achados fortuitos nos leva a outro dia, de 1787, quando o frei dominicano Manuel de Torres começou a desenterrar às margens do rio Luján, a 68 quilômetros da cidade de Buenos Aires, os restos de um bicho de quase cinco metros de comprimento. O frei comunicou o fato ao vice-rei Nicolás Francisco Cristóbal del Campo, marquês de Loreto. E em 1788 o vice-rei enviou os restos para a Espanha dentro de sete caixotes. Quando o carregamento chegou à Corte, Carlos III pediu: “Procure por todos os meios possíveis averiguar se na comarca de Luján ou em outra desse vice-reino se pode conseguir algum animal vivo, embora pequeno... enviando-o vivo, se for possível, e na sua falta, empalhado e cheio de palha...”.

No vice-reinado se se organizou uma expedição na região para ver se encontravam outro animal desse porte. “Hoje parece engraçado, mas não era algo tão absurdo”, comenta o paleontólogo Fernando Novas, do Museu de Ciências Naturais de Buenos Aires. “Pelo menos se deram conta de que os fósseis eram algo valioso, quiseram descobrir mais sobre ele.” Com o tempo se soube que aquele era um mamífero extinto havia uns 8 bilhões de anos. Foi batizado como Megatherium americanum (besta gigante americana) e pode ser visto hoje, repousando sobre suas quatro patas, no Museu de Ciências Naturais de Madri. “Foi o primeiro fóssil ao qual se concedeu um nome científico em toda a América”, explica Novas.

Na Patagônia argentina apareceram restos dos maiores dinossauros do mundo

Depois vieram muito mais achados na Argentina, não tão por acaso. O zoólogo argentino Florentino Ameghino (1854-1911) desenvolveu uma atividade febril com seu irmão Carlos. “Seu irmão explorava o local, descobria os fósseis e os descrevia.” Florentino custeou expedições do irmão à Patagônia. Já não buscavam apenas mamíferos do Pampa como o Megatherium,desaparecidos 8 bilhões de anos antes, mas dinossauros extintos havia 65 milhões de anos.

Atraído pela enorme influência dos Ameghinos chegou às margens do rio Luján um autodidata que depois se tornaria o paleontólogo vivo do país com maior quantidade de espécies de dinossauros válidas descobertas: 23. José Bonaparte é, aos 84 anos, mestre dos mestres. De novo, o aparente acaso fez com que um camponês descobrisse em 1989 ali na Patagônia um osso que não sabia exatamente o que era. Ele o extraiu da terra e o doou ao Museu Carmen Funes, do município de Plaza Huincul, na província patagônica de Neuquén. Meses depois, em uma de suas viagens à área, Bonaparte viu o material e se deu conta de que era uma tíbia descomunal. Assim começou a retirar o que em 1991 passaria a ser conhecido como o Argentinosaurus huinculensis, o maior dinossauro da América do Sul descoberto até este ano e um dos maiores do mundo.

Na época, a paixão pelos dinossauros já havia se apoderado de Sebastián Apesteguía, paleontólogo de 44 anos e um dos alunos prediletos de Bonaparte. “Em minha adolescência me inteirei da possibilidade de que podia existir um dinossauro vivo no Congo. Em 1902 tinha sido feito um relatório de um belga que falava de um enorme bicho metade elefante metade crocodilo. Era o famoso Mokèle-mbèmbé. Cheguei a fazer contato com uma freira congolesa que vivia em Luján para ver se podia aprender a lingala (língua bantu). Nem me ocorreu que poderia me virar com o francês. Ela me pôs em contato com seu irmão que vivia em Londres e me fez um pequeno dicionário.” Por fim, não foi ao Congo, mas aos 18 se deparou com José Bonaparte no Museu de Ciências Naturais de Buenos Aires e a partir daí deu início a uma frutífera carreira no estudo.

Outro aluno de Bonaparte foi Pablo Puerta, de 48 anos, chefe da equipe técnica no museu de Trelew, que acolhe os primeiros restos do maior dinossauro do mundo. Puerta participou do achado, mas o momento mais feliz de sua carreira ocorreu em 1989. “Passamos pela margem do lago Viedma, perto do glacial Perito Moreno, na província patagônica de Santa Cruz. E vimos uma vértebra gigantesca. Decidiram atribuir o achado a mim e o batizaram de Puertasaurus. Até a recente descoberta esse era o maior do mundo, junto com o Argentinosaurus”.

As pessoas do campo nos avisam, têm isso em mente”, diz o paleontólogo Carballido

A que se deve, então, o fato de os três maiores dinossauros do mundo terem aparecido na Argentina? “Temos um país extraordinariamente rico em fósseis”, diz Fernando Novas, membro da equipe que encontrou o fêmur em Chubut. “Lugar em que se escava, lugar onde aparecem ossos pré-históricos. Mas não menos importante é a tradição cultural da Argentina, que apesar de ter passado pelos mais diversos percalços políticos e econômicos possui uma boa parte da sociedade com sólida formação acadêmica, o que nos permite compreender o que aqui descobrimos. Estamos na vanguarda dos descobrimentos e estudos de dinossauros no hemisfério sul.”

“No total, 60% do país é semidesértico, exposto a uma erosão constante”, acrescenta Sebastián Apesteguía. “E isso faz com que as rochas fiquem expostas na superfície, que os fósseis sejam muito fáceis de ver.” O paleontólogo José Luis Carballido, de 36 anos, do museu de Trelew, elenca mais um motivo: “Muitos dos achados são possíveis graças aos avisos das pessoas do campo. Mas se as pessoas comuns não tivessem em mente a palavra dinossauro nós receberíamos somente 2% das denúncias que recebemos e descobriríamos 10%. Isso, porém, faz com que muitos dos avisos sejam infundados. Na Patagônia, qualquer pessoa vê uma pedra diferente e já pensa que é um ovo de dinossauro. Os ovos são um pouco menores que uma bola de futebol e a maioria puxa para a cor cinza. Um paleontólogo os identifica logo. Mas quando denunciam algo é preciso ir porque talvez você acabe fazendo a descoberta da sua vida.”

Carballido acredita que nessa cadeia de conhecimentos Bonaparte foi essencial. “Formou pesquisadores e foi muito importante o que ele provocou nas pessoas. Pôs nos olhos de todo mundo que a Patagônia está cheia de dinossauros. Na represa de Chocón, se você caminha pela margem do lago está pisando nas pegadas deixadas pelos dinossauros há 90 milhões de anos. Tudo é muito louco. A pegada de um saurópodo não passa de um poço profundo com água e as pessoas não lhe dariam bola se não fosse pelo trabalho prévio de pesquisa e difusão.”

Em um lugar com tanta riqueza de fósseis não poderia faltar o contrabando ilegal. Em 2006, a Interpol interceptou centenas de ovos de dinossauros patagônicos. Estavam sendo vendidos em uma feira de Tucson (Arizona) a 4.000 dólares cada um. “Em um país onde todo mundo sabe que há fósseis por todos os lados é impossível controlar isso”, reconhece Carballido.

“Se traficam seres humanos, por que não iriam fazer o mesmo com um ovo de dinossauro? Mas, apesar de tudo, agora as leis protegem melhor o patrimônio do que há alguns anos”, acredita.

Um patrimônio descomunal e que não para de crescer desde aquelas expedições que tentaram capturar algum parente vivo do Megatherium americanum.