A oposição varre o chavismo em dois municípios que repetiram votações

As esposas dos dois prefeitos destituídos pelo Supremo da Venezuela se impõem com ampla vantagem nas eleições para eleger os sucessores

Patrícia de Ceballos, ganhadora das eleições de San Cristóbal.
Patrícia de Ceballos, ganhadora das eleições de San Cristóbal. (REUTERS)

A oposição da Venezuela ratificou o triunfo que dois de seus prefeitos, destituídos por decisões sumárias do Tribunal Supremo de Justiça, obtiveram nas eleições municipais de dezembro passado.

As cabeças de Daniel Ceballos, primeira autoridade do município de San Cristóbal (no estado de Táchira, localizado nos Andes venezuelanos) e Enzo Scarano, do município de San Diego (em Carabobo, centro do país) caíram em março depois que a Sala Constitucional do Supremo os condenou a doze e dez meses de prisão, respectivamente, por desacatar uma sentença que lhes ordenava garantir o trânsito livre em suas jurisdições e evitar a formação de barricadas violentas (chamadas guarimbas no espanhol da Venezuela).

Simultaneamente o Conselho Nacional Eleitoral ordenou que se repetissem as votações porque os prefeitos não cumpriam a metade de seu período no cargo. A oposição, através de sua coligação de partidos Mesa de La Unidad, decidiu lançar as esposas dos dirigentes como candidatas. Patrícia Gutiérrez de Ceballos e Rosa de Scarano proporcionaram ao chavismo uma derrota inesperada e significativa. A vantagem obtida por ambas, assim que foi emitido o primeiro boletim por parte da Junta Eleitoral Municipal das circunscrições, supera a obtida por seus consortes em dezembro.

Foi uma medida que desafia não apenas a decisão do Supremo, mas também foi uma mostra de como nas zonas onde as barricadas foram mais duras os eleitores não castigaram as autoridades que decidiram apoiá-las. Com uma participação de 58,58% do eleitorado Gutiérrez de Ceballos obteve 73,62% dos votos em San Cristóbal, cenário dos protestos mais encarniçados contra o governo do presidente Nicolás Maduro; quase o triplo da porcentagem obtida pelo candidato chavista Jesús Alejandro Méndez Pineda (25,52% dos votos) e somou seis por cento a mais do que seu marido conseguiu em dezembro. “Minha esposa Patrícia suportou toda carga de injustiça de tudo o que ocorreu. Vamos seguir lutando por Táchira”, disse Daniel Ceballos em declaração escrita.

Rosa de Scarano, por seu lado, será a nova prefeita do município de San Diego ao obter 87,68% dos votos, doze pontos percentuais a mais do que obteve seu marido em dezembro de 2013. “Obrigado, San Diego”, escreveu em sua conta do twitter o político encarcerado ao tomar conhecimento dos resultados

Na parte da tarde as pesquisas de boca de urna já indicavam uma tendência quase irreversível a favor da oposição. Maduro, que organizou passeio de bicicleta com a primeira dama Cilia Flores e parte de seu gabinete no Paseo de Los Próceres, local de desfiles militares construído durante a ditadura de Marcos Pérez Jiménez, parecia não ter muitas esperanças de que seus candidatos pudessem reverter o resultado quando foi entrevistado pela imprensa. Mas advertiu: “Se perderem a cabeça outra vez e tentarem queimar o município as autoridades entrarão em ação”. De noite, quando a derrota já era oficial, o chavismo aproveitou para veicular mais duas mensagens: ressaltar a confiabilidade do polêmico sistema eleitoral, muito questionado pela oposição quando é derrotada, e avisar a parte mais radical que pede a renúncia imediata de Maduro. “A única forma de se conseguir mudanças é pelo voto”, disse o prefeito de Libertador (centro-oeste de Caracas), Jorge Rodríguez, um dos líderes do Partido Socialista Unido da Venezuela.

O ex-candidato presidencial Henrique Capriles mostrou-se satisfeito em sua conta do Twitter: “Nosso povo em San Cristóbal e San Diego derrotou Nicolás e seu governo, para que respeitem a voz do povo”. Em outra postagem felicitou as ganhadoras e exigiu a liberdade dos dirigentes encarcerados.

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