A Unasul adia sua visita a Caracas para reativar o diálogo

Uma delegação chefiada pelo ministro brasileiro de Relações Exteriores planejava viajar à Venezuela nesta quinta-feira

A segurança Bolivariana prende um grupo de manifestantes da oposição.
A segurança Bolivariana prende um grupo de manifestantes da oposição.F.L (AP)

Um mês depois de seu início, o diálogo de paz na Venezuela caiu por terra. O ministro brasileiro de Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, anunciou em Brasília a suspensão da visita que faria nesta quinta-feira à Venezuela com seus homólogos da Colômbia, María Ángela Holguín, e do Equador, Ricardo Patiño, em uma missão da União Sul-Americana das Nações (Unasul) para retomar as conversações entre o Governo de Nicolás Maduro e a oposição reunida na Mesa de Unidade Democrática (MUD). O Vaticano e a Unasul promovem a mesa de diálogo, iniciada em 10 de abril passado como resposta à crise política gerada pelos protestos nas ruas, que já entram em seu quarto mês.

A declaração do Itamaraty anuncia que a visita será realizada em data a definir “em breve”. A missão chegará à capital venezuelana entre domingo e segunda-feira próximos, de acordo com fontes políticas.

Embora a versão oficial atribua a mudança de planos a problemas de agenda dos ministros Figueiredo e Patiño, o adiamento reflete as dificuldades enfrentadas por um processo que nasceu frágil, com escassa convicção de seus atores e grande ceticismo por parte da opinião pública.

Somente na quarta-feira a oposicionista MUD anunciou, por meio de seu secretário executivo, Ramón Guillermo Aveledo, que não participaria das reuniões programadas com o Governo em protesto ao que qualificou como o “estancamento” do diálogo e a “repressão desproporcional” lançada na semana passada contra os estudantes que manifestavam na rua.

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Segundo fontes internas da MUD, a delegação oposicionista que participa, com um alto custo político, das conversações com o Executivo sofre um forte e crescente mal-estar porque os acordos alcançados entre ambas as partes, na prática, não resultaram em nada. Entre os fiascos está o acordo para se tomar alguma medida humanitária com relação a Ivan Simonovis, ex-delegado de polícia de Caracas preso há quase 10 anos, que a oposição define como preso político. Simonovis foi examinado por uma comissão bipartidária de médicos que constatou a deterioração de sua saúde, um pré-requisito para libertá-lo segundo um acordo alcançado na mesa. Contudo, a ordem de soltura não foi emitida. “Parece que há um Governo que se senta à mesa e outro que está nas ruas”, declarou a este jornal Ramón José Medina, coordenador da MUD.

Outro contratempo com que terão que lidar as testemunhas e os facilitadores internacionais é a escalada dos conflitos nas ruas, avivados pela atuação de agentes de segurança que, no dia 8, detiveram 243 estudantes em uma batida policial e desmantelaram os acampamentos onde pernoitavam. Nesta quarta-feira, véspera da anunciada visita da Unasul, a Guarda Nacional e a Polícia Bolivariana prenderam 103 jovens – entre eles, 11 menores de idade e 38 estudantes da Universidade Central da Venezuela (UCV), a mais importante do país – participantes de uma passeata na zona leste de Caracas que se desviou de seu destino original, a sede da Procuradoria Geral da Venezuela, para evitar choques.

Com essas prisões, já são mais de 3.000 as pessoas detidas na Venezuela desde o início dos protestos em 12 de fevereiro, uma média de 26 por dia. Mais de 2.000 enfrentam a ameaça de processo judicial e 225 continuam detidas.

Em vista de tudo isso, a agenda dos chanceleres da Unasul e do núncio mudou radicalmente pouco antes da visita programada a Caracas. O que seria uma missão de testemunhas para a quarta rodada de conversações deverá se transformar em um esforço de persuasão para que as partes voltem à mesa. Entre domingo e segunda-feira, se não surgir outro contratempo, eles vão se reunir separadamente com representantes do Governo e da oposição.

“O diálogo precisa continuar”, disse nesta quinta-feira o núncio apostólico em Caracas, Aldo Giordano, durante a reunião com opositor Ramón Guillermo, a quem expressou sua preocupação com o congelamento das conversações. O próprio presidente, Nicolás Maduro, havia anunciado na terça-feira, em seu programa semanal de rádio, a visita do secretário de Estado da Santa Sé, Pietro Parolin, para participar na rodada de negociações que acabou sendo suspensa.