O mapa do magistério no México revela incongruências e desigualdades

Setenta professores ganham mais que o presidente da República 1.442 docentes ativos teriam mais de 100 anos

Aluno em uma escola central na Cidade do México.
Aluno em uma escola central na Cidade do México.saul ruíz

No México há 1.906 escolas fantasmas que somam 24.230 folhas de pagamento. Embora estes centros educativos não existam, custam ao mês mais de 343 milhões de pesos, cerca de 58,8 milhões de reais. Os dados apresentados nesta quarta-feira pelo Instituto Mexicano para a Competitividade são o resultado do cruzamento entre informações do Censo de Escolas, Professores e Alunos da Educação Básica Especial, publicado em abril, e dos bancos de dados de folhas de pagamentos de professores do último trimestre de 2013. Os resultados mostram incongruências em várias categorias e revelam um mapa profundamente desigual no país.

As escolas fantasmas não aparecem no censo oficial, mas têm equipe contratada. 812 profissionais estão em Guanajuato, um estado no centro do país, e custam 98 milhões de pesos ao mês (3,3 milhões de reais). Oaxaca, ao sul do México, ocupa o segundo posto em quantidade com mais 324 escolas fictícias, mas o custo de lá acaba sendo maior porque “emprega” mais gente, gastando 122 milhões ao mês, cerca de 4,2 milhões de reais.

As irregularidades do censo aparecem também nas idades dos professores. Segundo os dados, no país haveria 1.442 professores com mais de cem anos dando aulas de educação básica. Destes, 1.441 trabalham nas sala de aulas de Hidalgo e além disso todos têm a mesma data de nascimento: 12 dezembro de 1912. Deles, por exemplo, 127 trabalham em um programa de educação ambiental sustentável e recebem até 2.985.705,96 pesos por trimestre (104.600 reais).

Entre as incongruências, o estudo aponta que há 536 escolas telesecundárias (que funcionam sob o modelo de tele-aula) sem luz, das quais 156 localizadas em Veracruz. Além disso, existem outros 93 centros inscritos no programa Habilidades Digitais para Todos que também não têm luz. “Nestes casos, o que aconteceu com o dinheiro?”, pergunta a coordenadora do projeto Melhora sua Escola, Alexandra Zapata.

Os resultados, no entanto, mostram algumas das complexidades já apontadas no Censo de Escolas, Professores e Alunos da Educação Básica e Especial, o primeiro deste tipo feito no México. O documento revelava que existem 39.222 professores que ninguém conhece e quase 300.000 docentes, 13,3 % do total do censo, que não trabalham no centro onde deveriam trabalhar.

Os dados apresentados pelo IMCO não incluem todos os Estados: Nuevo León, Tamaulipas, Quintana Roo e San Luis Potosí não contribuíram com nenhuma informação. Com os dados coletados, o perfil do professor médio no México é uma mulher (quase 60 % do total) de 42,4 anos, que cobra um salário de 25.143 pesos ao mês (pouco mais que 4.000 reais), embora os salários variem muito de um Estado para outro. O relatório aponta que 91.129 professores poderiam estar entre os 10 % dos lares mais ricos do México, aqueles que ganham mais de 44.335 pesos ao mês (quase 7.500 reais). Deles, 7.183 pessoas com idades que vão de 26 anos a 91 anos ganham mais de 100.000 pesos ao mês (17.000 reais) e 70 professores ganham mais que o salário do presidente da República, Enrique Peña Nieto (193.458 pesos ao mês, pouco mais de 33.000 reais). “Só 25 deles trabalham em escolas e apenas quatro trabalham em centros que aparecem catalogados como Excelente no portal Melhora sua escola”, explica Zapata. Neste sentido, o relatório aponta que o docente com o maior salário do país está no Estado de Oaxaca e tem um salário mensal de 603.069,40 pesos (cerca de 103.000 reais).

Os graus de salário variam também muito de uma entidade a outra. Em Zacatecas há 1.235 categorias salariais, enquanto em Sonora 135. Além disso, segundo os dados apresentados, o salário de um professor sindicalizado quase que triplica comparada a outro profissional de idêntico nível no México. Neste sentido, o diretor da ONG Mexicanos Primero, David Calderón, especifica que os salários podem oscilar de 3.500 pesos para um jovem no início de carreira a até 100.000 de um professor com 25 anos de serviço na Cidade do México, Estado do México ou Querétaro. O Instituto Mexicano para a Competitividade revela que há uma minoria de professores que cobra, "de forma inexplicável", ao redor de meio milhão de pesos ao mês, quase 86.000 reais, 278 vezes o salário mínimo no país.