A Christie’s obtém a maior arrecadação da história em uma única sessão de leilão

A casa de leilões vende em Nova York obras avaliadas em 543 milhões de euros (1,65 bilhão de reais) A Christie’s bate o recorde para obras de Barnett Newman, Alexander Calder, Joseph Cornell e Joan Mitchel

‘Race Riot’, de 1964, de Andy Warhol.
‘Race Riot’, de 1964, de Andy Warhol. (efe)

Nos dias de hoje, o dinheiro nem se cria, nem se destrói, apenas se transforma em arte. Na noite de terça-feira, a espaçosa sala (Rockefeller Center) nova-iorquina da casa de leilões Christie’s parecia uma festa organizada pelo O Grande Gatsby. Todo o mundo da arte, e os seus arredores, estava por lá: colecionadores (Eli Broad), donos de galerias (Larry Gagosian), estilistas de moda (Marc Jacobs), especialistas em fundos de alto risco (Andrew Saul) e investidores imobiliários (Marcos Fisch). Não havia nenhum assento livre para fazer lances ou observar a venda, nem espaço vazio no painel que exibe os lances feitos por telefone ou na sala. Faltava até a respiração, mas não a emoção das cifras, que foram enormes.

A casa vendeu em seu leilão de arte contemporânea e do pós-guerra obras avaliadas em 744,9 milhões de dólares (1,65 bilhão de reais), o valor mais elevado da sua história em uma única sessão, bem longe dos 691,5 milhões de dólares (1,53 bilhão de reais) obtidos no ano passado durante o mesmo leilão. Além disso, quatro artistas alcançaram o seu recorde mundial: Barnett Newman, Alexander Calder, Joseph Cornell e Joan Mitchell. Enquanto isso, as obras de primeira classe de Andy Warhol, Francis Bacon, Gerhard Richter e Jean-Michel Basquiat, entre outros nomes, mudaram de donos por cifras astronômicas. Anotem. Foram colocados à venda 72 lotes e apenas quatro ficaram sem vender. Uma alegria (quase) completa.

Quando Jussi Pylkkamen, presidente da Christie’s na Europa, a pessoa que em 12 de novembro do ano passado vendeu por 142 milhões de dólares (315 milhões de reais) o famoso tríptico de Bacon Três estudos de Lucian Freud, a obra mais cara já concedida em leilão, disse: “Vendido!”, a sala aplaudiu. Havia sido arrematada uma tela soberba (Black fire I) de Barnett Newman, criada em 1961, por 84,1 milhões de dólares (186 milhões de reais). Foi a obra mais cobiçada e estabeleceu um recorde mundial do pintor.

A noite começou com força. Logo veio o lote número oito. A organização exibiu Poisson volant (Peixe voador), uma das famosas obras móveis de Alexander Calder. Pertencente à coleção do industrial norte-americano Bergman, a escultura, de grandes dimensões (61 x 226 x 101 centímetros), começou o leilão em nove milhões de dólares (20 milhões de reais), mas foi arrematada por 25,9 milhões de dólares (57,4 milhões de reais). Algo ajudaria, já que na China o peixe simboliza fortuna e boa sorte.

Também havia uma grande expectativa em relação a Andy Warhol, e mais uma vez não decepcionou. Uma pequena imagem branca (50,8 x 40,6 centímetros) de Marilyn Monroe criada em 1962 pelo artista pop encontrou um comprador depois de vários minutos de lances, sendo arrematada por 41 milhões dólares (90,9 milhões de reais), mais do que o dobro do seu preço máximo estimado. A obra pertencia à marchand Eleanor Ward, que, na sua época, ofereceu ao artista a sua primeira exposição individual.

Race Riot também atraiu os colecionadores. A serigrafia sobre tela de Warhol mostra – através de imagens extraídas da imprensa – os distúrbios de 1963 em Birmingham (Alabama, EUA) em reação à segregação racial que os negros sofreram. A obra foi arrematada por 62,9 milhões de dólares (155 milhões de reais).

Neste leilão frenético, Francis Bacon também chamou a atenção. E sua obra não se saiu mal. Três estudos para um retrato de John Edwards, de 1984, foi vendida por 80 milhões de dólares (177,3 milhões de reais), mais ou menos a estimativa da Christie’s. E, embora não tenha sido a obra mais cara da noite, foi um negócio tremendo para o seu proprietário. A pintura foi vendida pelo bilionário taiwanês Pierre Chen, que, aparentemente, teria comprado em uma transação privada há uma década por 15 milhões de dólares (33,4 milhões de reais). O tríptico foi arrematado por um comprador asiático.

Mas junto à peça de Barnett Newman, a grande estrela do dia, pelo menos em termos de qualidade, foi um Mark Rothko de 1952. A obra, untitled, sem título, corresponde à sua fase de maturidade, e através de uma estrutura de blocos coloridos faz com que a tinta óleo alaranjada estendida sobre a tela pareça um amanhecer nos volumes horizontais da composição. Um colecionador entendeu que não se tratava de uma obra qualquer e pagou 66,2 milhões de dólares (146,8 milhões de reais). Esta joia esteve emprestada por décadas ao Museu de Arte de Filadélfia.

Outro mestre do expressionismo abstrato, Jackson Pollock, teve menos sorte. O quadro Number 5, 1951 (Elegant Lady) ficou em 11,3 milhões de dólares (25 milhões de reais), um valor abaixo do mínimo estimado (12 milhões de dólares, ou 26,6 milhões de reais). A tela, da gigante energética alemã E.ON, foi colocada à venda para levantar dinheiro e ajudar a continuar a manter as suas atividades culturais. E cumpriu a sua meta econômica. Em 1980, o quadro foi comprado pela Veba AG (a empresa que viria a ser fundida com a companhia alemã) por cerca de 500.000 dólares (1,1 milhão de reais). Além disso, tem uma história particular. Pollock trocou a obra com a galerista Martha Jackson em 1954 por um veículo conversível com o qual viria a morrer em uma batida dois anos depois.

Mais contemporâneos, dois artistas vivos mostraram que continuam sendo objeto de desejo. Gerhard Richter vendeu uma das suas conhecidas obras Abstraktes Bild, de 1990, por 29,2 milhões de dólares (64,7 milhões de reais). Aparentemente, o proprietário anterior havia adquirido em 2012 na Sotheby’s por 17,4 milhões de dólares (38,6 milhões de reais). Assim, deu um passo nada insignificante. Que esteve muito ativo na sessão foi a galeria Gagosian, talvez a mais poderosa do mundo. De fato, pagou (ou fez um lance em nome de outra pessoa) 23,6 milhões de dólares (52,3 milhões de reais) por If You, um esmalte sobre alumínio de tamanho grande (274,3 x 182,8 centímetros) de Christopher Wool, um dos artistas que representa.

Para muitos, o que aconteceu na noite de terça-feira em Nova York foi, à sua maneira, um déjà vu. Na segunda-feira, a própria Christie’s organizou, com Loic Gouzer, um especialista de apenas 33 anos, outro leilão de arte contemporânea com o título provocador If I live I’ll see you Tuesday (Se estiver vivo, nos vemos na terça-feira). Referia-se ao risco de convocar dois leilões similares em datas tão próximas. O jogo deu certo. A casa vendeu 97% dos lotes e arrecadou 134,6 milhões de dólares (298,4 milhões de reais). Nada menos do que 16 artistas alcançaram o seu recorde mundial. Nunca Peter Doig, On Kawara, Glenn Ligon, Richard Prince e Thomas Schutte haviam conseguido valores tão altos para as suas obras. Além disso, uma tela de 1988 do falecido artista alemão Martin Kippenberg – depois de uma intensa disputa de lances que durou seis minutos – foi arrematada pela cifra inesperada de 18,6 milhões de dólares (41,2 milhões de reais). O preço inicial era de nove milhões de dólares (20 milhões de reais).

Na tarde desta quarta-feira, a Sotheby’s tentará dar a sua resposta aos multimilionários lances da Christie’s em Nova York, e para isso conta, entre outras peças, com um Popeye, de Jeff Koons, estimado em 25 milhões de dólares (55,4 milhões de reais), a obra Six self portraits (Seis autorretratos), assinada por Andy Warhol, que está avaliada entre 25 milhões e 35 milhões de dólares (55,4 milhões e 77,6 milhões de reais), e a tela Blau (azul), de Richter. Será que vai ser suficiente?

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