crise na ucrânia

Os separatistas pedem a união com a Rússia

Os líderes rebeldes de Donetsk propõem a anexação a Moscou O leste da Ucrânia não realizará eleições presidenciais Kiev condena o referendo como uma farsa

Várias pessoas se reúnem para celebrar o resultado do referendo de Luhansk.
Várias pessoas se reúnem para celebrar o resultado do referendo de Luhansk.IGOR KOVALENKO / EFE

Os dirigentes da autoproclamada República Popular de Donetsk (RPD) se dirigiram nesta segunda-feira pela tarde à Rússia para pedir que incorpore essa região (a província industrial e de mineração de mesmo nome) ao território da Federação Russa. Como argumento, citam o resultado do referendo de 11 de maio, uma consulta não reconhecida pela legislação ucraniana, na qual afirmam ter obtido mais de 2.250.000 votos a favor da autodeterminação de Donetsk, cuja população é de cerca de 4,5 milhões de pessoas. As eleições presidenciais da Ucrânia, previstas para 25 de maio, “não serão realizadas” em Donetsk, afirmou Denis Pushilin, um dos líderes separatistas.

O referendo foi condenado como uma “farsa propagandística” pelas autoridades de Kiev, enquanto o Kremlin exortou ao “diálogo” e à “implementação pacífica” dos resultados, além de enfatizar a alta participação e as dificuldades para realizar a consulta. Contudo, o Governo russo não se pronunciou sobre a solicitação de incorporação territorial.

A petição dos líderes da RPD ao Kremlin vai no mesmo sentido da que foi feita pelos dirigentes da república autônoma da Crimeia (parte do território da Ucrânia hoje anexado pela Rússia), embora na época os organizadores do referendo equivalente na península, em 16 de março, tenham apresentado o pedido de incorporação diretamente à Rússia. A consulta da RPD, por outro lado, somente perguntou ao eleitor se aprovava ou não a “autodeterminação” ou “independência” da província. Ativistas envolvidos no processo conjecturavam no domingo que, depois de uma fase de existência solitária, a RPD convocaria um novo referendo sobre o desejo de união ou não à Rússia.

No entanto, nesta segunda-feira os líderes da RPD, em uma entrevista coletiva à imprensa, negaram que vão realizar um novo referendo. Donetsk “obteve a soberania, ou seja, o direito de usar e determinar de forma independente o estabelecimento de uma relação federativa ou confederativa com qualquer país”, disse Pushilin. “Será informado com que país depois de consultas diretas com especialistas, porque já se elaboraram alguns modelos”, afirmou, dizendo ainda que as “possibilidades de colaboração” com as autoridades provisórias ucranianas se restringiram em consequência dos confrontos armados.

Román Lyaguin, o chefe da Comissão Eleitoral da RPD, qualificou de “medida adequada” a incorporação à Rússia. O que está para ser ver é se a Rússia decidirá incorporar esse território maior e muito mais problemático do que a Crimeia. Na avaliação de Boris Litvinov, um jurista que preparou o referendo, o Kremlin precisa de algum tempo para digerir os resultados da consulta.

Denis Pushilin, um dos líderes separatistas

De acordo com os resultados definitivos anunciados pelo chefe da Comissão Eleitoral da RPD, foram registrados 2.252.867 votos a favor da autodeterminação (89,7% do total de votos) e 256.040 contra (10,12%). Em um referendo semelhante na região de Lugansk votaram 75% dos eleitores e 96,2% deles se pronunciou pela autodeterminação. Donetsk e Lugansk formam a bacia do Don, conhecida como Donbas.

Qualquer que seja o desdobramento político, o certo é que a indústria e a mineração local sofrem de modo cada vez mais acelerado as consequências da instabilidade reinante

Uma hora e meia depois do término da coletiva de imprensa dos líderes da RPD, Denis Pushilin leu a declaração na qual se afirma que “partindo da expressão da vontade popular da República Popular de Donetsk e com o objetivo de restabelecer a justiça histórica, pedimos que a Federação Russa examine o tema da incorporação da República Popular de Donetsk à Federação Russa”.

Antes, Pushilin havia dito que a única relação possível com a Ucrânia é para intercâmbio de prisioneiros com a ajuda de mediadores russos. Sobre a possibilidade de recorrer ao Exército russo para controlar o território, o líder separatista afirmou que a RPD tentará resolver os problemas com as próprias forças, embora não exclua a possibilidade de que, “se a situação piorar”, se possa pedir um “contingente de pacificadores” à Rússia. Ele afirmou também que em Donetsk a OSCE somente poderia desempenhar um papel inferior ao da Rússia.

Pavel Gúbarev, o denominado "governador popular" de Donetsk, disse em uma entrevista publicada no jornal governamental russo Rossiskaia Gazeta que Akhmetov financia as formações armadas da RDP

O coronel Igor Strelok (o sobrenome é um pseudônimo) foi nomeado comandante-chefe de todos os grupos armados da RPD, confirmou Pushilin. Strelok está baseado em Slaviansk, de onde dirige as operações armadas contra as forças leais a Kiev. É militar e russo, segundo fontes da RPD, e os meios de comunicação ucranianos o identificam como Igor Girkin, cidadão russo supostamente membro do serviço de contrainteligência do Exército (o GRU). Em uma entrevista ao diário russo Komsomolskaia Pravda, Strelok (assim chamado pelo jornal) dizia ser natural da Crimeia e ter ido a Donetsk à frente de um grupo de voluntários dos quais dois terços são ucranianos.

Ele disse que a maioria de seus homens tem experiência militar e havia lutado nas Forças Armadas da Rússia e em lugares como a Chechênia, a Ásia Central e o Iraque. Segundo informou na segunda-feira o jornal Novosti Donbasa, Strelok deu uma ordem para subordinação de todas as formações militares, órgãos de segurança, polícia, aduana, serviço de proteção de fronteiras, promotoria e outras estruturas paramilitares da região e declarando uma operação “contraterrorista” dirigida contra os uniformizados de Kiev que atuam em outra operação “contraterrorista” ordenada pelo presidente interino Oleksandr Turchinov.

Strelok enviou um representante permanente de Slaviansk a Donetsk para que esteja presente em todas as reuniões dos líderes da RPD, Meios vinculados com as estruturas de segurança da RPD afirmam que o militar teme que alguns deles possam ser comprados pelo oligarca Rinat Akhmetov, que se encontra em uma posição delicada, já que está diante da opção de integrar-se a uma nova entidade autoproclamada independente ou arriscar-se a perder seus ativos na região. Qualquer quer seja o desdobramento político, o certo é que a indústria e a mineração local sofrem de modo cada vez mais acelerado as consequências da instabilidade reinante.

Os líderes da RPD formam um grupo heterogêneo no qual ocorreram conflitos sobre a estratégia a seguir. Nesta segunda-feira, Pavel Gubarev, o denominado “governador popular” de Donetsk, disse em uma entrevista publicada no jornal governamental russo Rossiskaia Gazeta que Akhmetov financia as formações armadas da RDP. O oligarca negou a informação em um comunicado. “Estou firmemente convencido de que Donbas só pode ser feliz em uma Ucrânia unida. Estou a favor de uma Donbas forte em uma Ucrânia forte”, assinalou o oligarca.

Entre os incidentes do dia figura a tentativa de uma investida contra o hotel Vitoria de Donetsk, onde estabeleceu sua sede provisória o governador provincial, o oligarca Sergei Taruta, desde a ocupação da sede da administração provincial no início de março.

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