ENTREVISTA | HELENA COSTA

“O futebol nasceu comigo”

A técnica portuguesa Helena Costa é a primeira mulher a dirigir a uma equipe masculina profissional na França

Helena Costa, dirigindo a seleção do Qatar em 2012.
Helena Costa, dirigindo a seleção do Qatar em 2012.AFP

O telefone de Helena Costa (Alhandra, Portugal, 1978) não parou de tocar nos últimos dias. Tanto que se não reconhece o número deixa que toque e toque. Tudo se deve a que na próxima temporada ela se transformará na primeira mulher a dirigir uma equipe masculina de futebol profissional na França, o Clermont Foot, da Segunda Divisão. Depois de várias tentativas, ela responde em tom tranquilo à que certamente não será a última chamada do dia.

Pergunta. Quantas pessoas quiseram falar com você nos últimos dias?

Resposta. Não tenho ideia, foram dias muito movimentados. O impacto midiático foi muito grande, não está sendo fácil digerir. Tenho muitas chamadas perdidas no telefone. É preciso começar a trabalhar já e deixar de falar porque tenho que focar no trabalho, que é o que conta.

P. Está nervosa com a repercussão que teve a sua nomeação?

R. Eu estou como sempre, calma, não há nada que me altere. Estou contente porque aceitar esse projeto foi uma boa decisão, e tanto para mim como para o clube é algo positivo. Também os jogadores poderão aproveitar, agora toda a imprensa estará atenta a eles e vão poder melhorar muitíssimo.

P. Como surgiu a proposta do Clermont Foot?

R. Dois agentes me chamaram para dizer-me que o perfil que este clube buscava era o meu e me perguntaram se estava interessada em assumir a direção de uma equipe profissional. Eu disse que sim e muito pouco tempo depois me reuni com o presidente. Falamos de maneira franca e direta sobre o projeto, o clube e também sobre a minha carreira, meus objetivos... Pouco tempo depois voltou a entrar em contato comigo para assinar o contrato.

P. Não demorou então para decidir-se.

R. Eu vivi isso com muita tranquilidade porque não acreditava que o que estava me acontecendo pudesse ser realidade, era difícil de imaginar. Respondi rápido e eles também tinham isso claro desde o princípio.

P. Que esperam de você?

R. Esperam de mim o mesmo que de todos os treinadores. Mas acima do que eles esperam de mim está o que eu espero de mim mesma. Sou uma pessoa ambiciosa e se assinei é porque confio muito no que é possível e só me interessa a vitória. Acima dos objetivos do clube eu ponho os meus.

P. Quando decidiu que queria ser treinadora de futebol?

R. O futebol nasceu comigo, está em minha vida desde sempre e isso porque não tive nenhuma influência familiar. É algo de que gosto desde pequena, algo de vocação, nasceu comigo. Decidi que estudaria educação física para poder dedicar-me depois ao mundo do futebol e comecei a treinar com 19 anos. Desde sempre persegui esse objetivo.

P. Não lhe disseram, as pessoas à sua volta, que estava um pouco louca?

R. Sim, no começo, sim (risos), mas depois entenderam e me motivaram para que conseguisse meus objetivos e minha felicidade. A ideia deles sempre foi que se tem de ser feliz com o que se faz.

P. Você trabalhou para o Benfica e o Odivelas em Portugal, também dirigiu as seleções femininas do Catar e Irã e foi olheira do Celtic. Não é um mau currículo.

R. Sou uma pessoa humilde, mas acho que sim, que tenho alguma experiência.

P. Alguma vez lhe fecharam a porta por ser mulher?

R. Não diria que encontrei problemas, mas senti que estava abrindo portas e janelas. E quando você é a primeira mulher a fazer algo, é certo que você tem de enfrentar algumas dificuldades.

P. Mudou o futebol desde que abriu a primeira porta?

R. Comparando com o que era quando comecei, sim, mudou. O que digo é que eu quero que as pessoas me olhem como mais um treinador e seja valorizada pela minha competência e meu trabalho, não por ser mulher. Ontem e hoje todas as pessoas falam de mim por ser mulher, mas espero que isso termine aqui e logo tudo mude. Agora, toca a trabalhar.

P. Como são suas equipes? Há quem a compare com Mourinho.

R. Não. Eu quero a posse da bola. Que minhas equipes sejam inteligentes e saibam selecionar quando é o momento de atacar, sendo, isso sim, muito rigorosas na defesa. Eu sou assim e por isso quero que o futebol seja espetáculo.

P. Quando se mudará para a França?

R. A temporada ainda não terminou e quero respeitar a direção atual do clube. Tenho muito respeito pelo treinador que agora está lá. Quando a Liga terminar haverá uma coletiva de imprensa para apresentação, e depois já me mudarei para a França para poder começar a trabalhar.

P. Que objetivos definiu para a próxima temporada?

R. Subir para a Primeira Divisão é um sonho, mas estou certa de que com trabalho podemos conseguir.