OBITUARIO

Gary Becker, primeiras lembranças

O professor da Universidade de Chicago morre aos 83 anos. Ele estudou o capital humano e utilizou o raciocínio econômico para analisar inclusive o comportamento criminoso.

Gary Becker, esquerda, recebe o Nobel de mãos do príncipe de Suecia, Carl Gustaf, em 1992.
Gary Becker, esquerda, recebe o Nobel de mãos do príncipe de Suecia, Carl Gustaf, em 1992.TOBBE GUSTAVSSON / AP

Gary Becker (1930-2014) foi uma dessas pessoas que, ao longo da história, honraram a profissão de economista, entendida como o exercício da capacidade de reflexão para compreender e explicar racionalmente o comportamento humano.

Seu pensamento esteve sempre guiado pelo afã de aplicar o fino bisturi da racionalidade, inclusive além dos limites que a ciência econômica vinha se autoimpondo desde os longínquos tempos de Adam Smith. O pensamento de Gary Becker ultrapassou, com efeito, as fronteiras convencionais da economia e debruçou as categorias do pensamento econômico sobre novos âmbitos da antropologia e do agir humano, para iluminá-los com a tocha da racionalidade. Foi, nesse sentido, um ilustre precursor de toda uma escola de pensamento.

Conheci Gary Becker pessoalmente em 1967, durante um seminário realizado na Universidade de Chicago. O ato havia sido promovido por Milton Friedman, com quem a essa altura eu já tinha tido a honra de trabalhar arduamente no desenvolvimento de minha tese de doutorado. Pode-se dizer que o seminário em questão fez parte da “tradição oral de Chicago”, um esporádico e tênue sistema de encontros em que professores liberais dos anos sessenta naquela universidade discutiam – ou, pelo menos, comentavam – suas ideias e propostas em voz alta. Suas intervenções tinham lugar diante dos pós-graduandos como eu, que, obviamente, acompanhávamos as conversas dos nossos professores com autêntica fruição, conscientes de estarmos assistindo a uma autêntica revolução do pensamento econômico, que até então havia sido monopolizado pelo raciocínio keynesiano.

Naturalmente, Gary Becker já era considerado um membro destacado da comunidade acadêmica liberal de Chicago, onde de fato se doutorou apesar de estar naquela época desenvolvendo seu trabalho acadêmico na Universidade Columbia, longe da sua alma mater. Três anos antes do seminário em questão, ou seja, em 1964, Becker havia publicado sua obra Teoria do Capital Humano, um trabalho seminal. Sua originalidade residia em enfocar o esforço educativo como um autêntico processo de investimento e em valorizar o conhecimento como parte integrante da riqueza humana, também em sua vertente econômica.

Como aplicação imediata daquelas ideias, recordo que, dias depois da sessão do seminário, Harry Johnson (a quem, sem dúvida, uma morte prematura privou do Nobel de Economia) nos explicou como o raciocínio de Becker permitia afirmar que neste mundo, e em média, “os estudantes universitários valiam seu peso em ouro”. Para demonstrar isso, bastava averiguar o peso em onças de cada aluno e avaliar aquela magnitude em termos do preço do ouro (à época, a 24 dólares a onça). Seguindo o raciocínio de Becker, era preciso então descontar a taxa de juros de mercado sobre os ganhos futuros que, em média, cabia esperar do exercício da profissão ao longo da vida útil do aluno. Por último, seria preciso comparar a avaliação atual desse fluxo de renda com o valor, pelo peso em ouro, do estudante-padrão. Assim, concluía-se que o capital humano acumulado nos anos universitários excedia claramente o “peso em ouro”, ao menos para aqueles estudantes que não sofressem de obesidade e que aproveitassem bem a oportunidade de formação que a universidade lhes oferecia. Hoje, tal raciocínio pode parecer corriqueiro, mas há quase cinquenta anos constituía toda uma descoberta, inteiramente atribuível a Becker.

Claro que depois Gary Becker foi depois além e ultrapassou a sua própria análise do capital humano ao publicar obras importantes como The Economics of Discrimination ou, já mais perto da sua aposentadoria, o conhecido A Treatise on the Family. Por tudo isso e pela sabedoria acumulada após tantos anos de reflexão e dedicação acadêmica, Becker foi galardoado com o Prêmio Nobel de Economia em 1992, tornando-se uma referência obrigatória no aprofundamento do pensamento econômico do nosso tempo.

Para quem o conheceu, será difícil esquecer a força de um pensamento tão bem organizado como o de Becker. Ainda mais difícil será pagar a dívida que temos com ele nós, os que continuamos valorizando o enfoque liberal da economia como maior contribuição histórica para o progresso humano e o bem-estar social.

* Juan José Toribio é professor emérito de Economia do IESE e porta-voz da entidade patronal AEB.

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