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Los Van Van: o Ás na manga da música cubana

Juan Formell, que morreu aos 71 anos, colocou trilha sonora à vida da ilha caribenha a partir de 1969. Desenvolveu o songo, uma saborosa variante da salsa

O músico cubano fundador da orquestra Los Van Van, em 2012.
O músico cubano fundador da orquestra Los Van Van, em 2012. reuters

No final do século passado, com a implantação do Período Especial, uma Cuba reticente abriu suas portas ao turismo. Muitas surpresas esperavam os visitantes. E entre as mais agradáveis estavam Los Van Van. Uma orquestra que crescia paralela ao esplendor da salsa nova-iorquina mas com um som genuinamente cubano: qualquer um reconhecia os trombones e o piano desenfreado, embora tudo estivesse personalizado pelos violinos e a flauta da charanga.

Los Van Van davam concertos em massa para o público cubano mas também trabalhavam o circuito do dólar, oferecendo sessões embriagadoras que desembocavam em verdadeiras festas, caraterizadas por suas peças elásticas, a multiplicidad de vozes, os refrões adesivos. Além disso, suas canções soavam em todos os cantos da Ilha Grande. Eles eram o ás na manga: a demonstração de que, fora dos holofotes internacionais, a música cubana continuava crescendo e representando o sentir do povo comum.

No coração de Los Van Van latiam as inquietudes de Juan Formell. Dizia-se que seu truque secreto era o conhecimento do catálogo dos Beatles; de fato, durante boa parte de sua carreira, Formell tocou um baixo elétrico com forma de violino, o Höfner popularizado por Paul McCartney. Na realidade, suas referências eram muito mais ecléticas: aproveitando a proximidade de Cuba com a Florida, sabia o que fazia sucesso nos Estados Unidos, do pop à disco music, que lhe permitiam rejuvenescer sua oferta constantemente.

Generacionalmente, Formell era uma criatura da Revolução: nasceu em Havana (2 de agosto de 1942). Já era profissional antes de alcançar a maioridade. Em 1959, assumiu o posto de contrabaixista da Banda da Polícia Nacional Revolucionária, uma formação cujas obrigações protocolares exigiam o domínio das formas musicais nativas. Foi um conhecimento que lhe serviu para se integrar sem problemas nas orquestras de Peruchín, Rubalcaba, Faxas e o cabaret Caribe.

Estava na banda de Elio Revé quando teve a oportunidade para criar algo fresco. Revé, percussionista de Guantánamo, o nomeou diretor musical com a missão de renovar o ritmo changüí, variante oriental do som, e Formell se converteu no favorito dos fãs do baile. Em 1969, com um tapa levou boa parte da orquestra (algo bastante habitual no competitivo mundo da música popular cubana).

Los Van Van nasceram em 1969, em tempos de entusiasmo revolucionário: o próprio nome derivava de um slogan da infeliz safra dos dez milhões (de toneladas de açúcar), com os que Fidel Castro esperava resolver o déficit do comércio exterior. Fracassou, mas Los Van Van ficaram.

Los Van Van não eram uma banda doutrinária, embora Formell tinha suficiente mão esquerda para incluir referências à “Havana socialista” ou traduzir preocupações governamentais em canções irresistíveis, como La Habana no aguanta más, em referência à migração interior que colocou a infraestrutura da capital à beira do colapso. De modo geral, seus grandes sucessos tinham conteúdo apolítico: falavam de sexo, comida ou uma combinação de ambas as obsessões. Todo o Caribe que falava espanhol entendia as letras: El baile del buey cansao, Que le den candela, Por encima del nivel (Sandunguera), ¡Ay Dios, ampárame! ou Anda ven y muévete, retomada habilmente por Rubén Blades.

Formell denominou songo sua música, que soube modernizar regularmente dando jogo à guitarra, à bateria, ao sintetizador e, ocasionalmente, usando ritmos programados. Permitiu liberdade criativa a músicos talentosos como o percussionista Changuito, o sonero Pedro Calvo, o pianista —e prolífico compositor— Pupy Pedroso ou o flautista José Luis Cortés, depois fundador da explosiva NG La Banda.

Com a abertura de Cuba ao mundo, Los Van Van viajaram regularmente para fora da ilha; desafiando as maldições do exílio, tocaram inclusive em Miami. O selo Atlantic tentou lançar o grupo com Llegó…Van Van, que ganhou um Grammy em 2000. No entanto, nunca chegaram a se estabelecer como atração estelar no circuito da world music. Economicamente, custava rentabilizar os deslocamentos de uma tropa tão numerosa. Musicalmente, tinha que estar predisposto a se deixar levar por aquela máquina incandescente. E as letras, importantes mas repletas de cubanismos, dificilmente eram entendidas pelo público internacional.

Formell também não fazia o tipo do cubano vulgar. Em ocasiões, evitava entrevistas, usando como escudo sua má saúde: melhor não se meter nos problemas que amarguraram a existência de alguns de seus alunos. Havana transbordava de rumores sobre seus hábitos e os supostos pactos secretos com o castrismo. A vida complicou pela via familiar. Seu filho, o cantor Juan Carlos Formell, se mudou aos Estados Unidos em 1993, chegando a testemunhar no Senado contra o regime cubano. A direção de Los Van Van foi herdada por outro descendente problemático, Samuel, em uma decisão muito discutida nos ambientes musicais. Mas continuaram deixando os ouvidos atentos encantados: até Paco de Lucía falou, em sua última viagem à Cuba, sobre uma possível colaboração.

Juan Formell se retirou dos shows ao vivo por uma doença hepática. Internato com urgência em um hospital de Havana, faleceu na quinta-feira 1 de maio. A Ilha Grande se despede com todas as honras, organizando amanhã [3 de maio] uma Cantata por Formell que apresentará interpretações de seus temas em diferentes espaços.