Seleccione Edição
Login

Uma vitória que caiu do céu

Uma partida marcada pela memória do ex-treinador Tito Vilanova, com dois gols contra do Villarreal

Messi comemora o terceiro gol com Cesc e Busquets, levantando os dedos em homenagem a Tito Vilanova, ex-treinador do Barça que morreu nesta semana.
Messi comemora o terceiro gol com Cesc e Busquets, levantando os dedos em homenagem a Tito Vilanova, ex-treinador do Barça que morreu nesta semana. AP

“Seny, pit i collons!” (senso comum, peito e culhões, em catalão). Ainda que o câncer tenha matado Tito Vilanova, seu lema continua vigente e sua gigantesca batalha foi contagiosa para os jogadores do Barça, favorecidos sem dúvida pelo Villareal, solidário na dor e abatimento do Barcelona. Os azuis-grená se apegam à Liga como Tito à vida. Até que o Atlético e o Madrid digam o contrário, os barcelonistas aspiram revalidar o título que ganharam precisamente com Tito.

A temporada é um calvário para a equipe e para o clube, sacudido no campo e na rua, e, no entanto, o Barça não se rende. Não há dia sem uma má notícia e se contam poucas partidas que ultimamente tenham valido a pena, a maioria ausentes de futebol, de torcida e de paixão, e também de falta de Messi. Algumas servirão, em todo caso, para manter a esperança e o de domingo serviu para honrar Tito. O encontro começou com a imagem do choro de Busquets e acabou com uma jogada de Busquets que Messi carimbou o 2-3, já com Cesc no campo, protagonista da reação barcelonista ao lado de Alves. A energia de ambos e as falhas do Villareal reabilitaram uma equipe desanimada e inoperante, sem categoria e inanimada, especialmente frágil e vulnerável, capaz de sofrer um 2-0.

VILLARREAL 2 X 3 BARCELONA

Villarreal: Asenjo; Mario, Musacchio, Gabriel, Jokic; Bruno, Trigueros, Pina (Aquino, m . 35); Cani, Giovani (Uche, m. 82); yePerbet (Jonathan Pereira, m. 13). Não utilizados: Juan Carlos; Costa, Ó. Torres e Pantic.

Barcelona: Pinto; Alves, Bartra, Mascherano, Adriano; Xavi (Cesc, m. 62), Busquets, Iniesta; Alexis (Tello, m. 62), Messi e Pedro (Sergi Roberto, m. 90). Não utilizados: Oier; Afellay, Song e Montoya.

Gole: 1-0. M. 45. Cani, em um contra-ataque. 2-0. Trigueros, de cabeça. 2-1. M. 65. Gabriel, gol contra. 2-2. M. 78. Musacchio, gol contra. 3-2. M. 83. Messi.

Árbitro: Fernández Borbalán. Amarelou Alexis, Mario, Busquets, Trigueros, Cani e Alves.

El Madrigal. 24.000 espectadores.

 

Muito aplicado, o Barcelona havia atacado de maneira constante e inocente o Villareal. Restou a Martino uma equipe tão acadêmica como mansa pelas ausências de ilustres como Neymar, Piqué ou Jordi Alba e a reserva de Cesc. Os azuis-grená jogavam com muita atenção e intensidade, agressivos com a bola, buscando o resultado, sempre protagonistas no El Madrigal. À ortodoxia barcelonista, expressada sobretudo na pressão de Pedro e Alexis e o delicado jogo pelo meio de Xavi e Iniesta, lhe faltava no entanto profundidade e desequilíbrio de Messi, tão presente quanto pouco decisivo, muito bem defendido pelos zagueiros e os três meio-campistas de Marcelino. As equipes do técnico asturiano sempre foram difíceis de bater, bem organizadas, rápidas no contra-ataque, irredutíveis, até domingo no Madrigal, quando os zagueiros apagaram o excelente trabalho dos atacantes do Villareal.

 

A temporada é um calvario para a equipe e para o clube, sacudido no campo e a rua

O Barcelona não sabia romper a partida, faltou contundência e finalização, frágil nas linhas, e se recompunha bem o Villareal apesar das lesões de Perbet e Pina. As transições locais acabaram por ser mais importantes que a sustentação do plano de jogo ofensivo do Barcelona. A velocidade de Giovani e a verticalidade de Jonathan Pereira desarmarão os laterais e zagueiros azuis-grená, como já é normal a cada saída do Barça. Bartra tirou embaixo das traves uma bola chutada por Aquino e pouco depois, justo antes do intervalo, Cani empurrou para a rede uma assistência de Pereira, mal defendida por Alves e não cortada por Adriano. Já é normal que mais cedo ou mais tarde o Barça jogue com um gol de desvantagem quando sai do Camp Nou. E também é sabido que custa a se recuperar se não aparece Messi.

 

A timidez do 10 era clara a cada vez que se apresentava frente a Asenjo, Messi chutava para colocar e não para destruir, como se não quisesse ferir o goleiro, reflexo da frouxidão do Barça. A cândida azulgrená contrastava com um Villareal cheio de vitalidade. As chegadas ao gol de Pinto eram o anúncio de uma ocasião de gol no Madrigal. O 2-0 foi tão anunciado como o 1-0: o passe em profundidade de Cani, a entrada pela lateral direita de Aquino e a cabeçada da marca do pênalti de Trigueros.

 

 

Contra a falta de atacantes, o Barcelona encontrou consolo de forma surpreendente nos zagueiros do Villareal. Gabriel colocou contra o próprio gol um chute de Alves depois de uma jogada tão bem desenhada como mal resolvida pelos azuis-grená, condizente com o rumo da partida: o excelente passe de Cesc, o calcanhar de Pedro não tiveram continuidade no arremate de Alves, somente útil pelo erro do defensor do Villareal. Alves, sempre protagonista, tanto para o bom como para o mau, insistiu nos cruzamentos, empenhado em desmentir à crítica, até conseguir que Musacchio cabeceasse contra o gol de Asenjo: 2-2. As facilidades locais deixaram o Barcelona valente, que assinou a virada com um bom gol de Messi, servido pela cabeça de Cesc, decisivo em suas aparições para dar a reviravolta na partida.

 

E não houve mais história. Não dava pé com bola o Villareal, desfalecido, incapaz de repor-se de seus erros, como si assumisse a fatalidade como uma coisa do destino. E tão pouco fez mais o Barcelona, convencido de que aquela vitória era um prêmio caído do céu, por mais empenho. O evento teve muitas alusões a Tito. Vilanova sempre soube entender o jogo e mudar para bem na hora de corrigir as partidas. Domingo as substituições resultaram decisivas por maior ajuda que houvesse por parte de Gabriel e Musacchhio. Ainda que não será fácil terminar a temporada, e a torcida já se esqueceu do jogo criativo e brilhante, refinado e preciso, o Barça parece disposto ao menos a sacrificar seu coração para reter o título ganhado por Tito.