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EDITORIAL

O futuro da memória

Cientistas de Barcelona conseguem reduzir o alzheimer em ratos

O futuro da memória

Viver muitos anos trouxe consigo um crescimento exponencial das doenças típicas da idade, designadamente o infarto, o câncer e as patologias neuro-degenerativas. O local de honra entre estas últimas é o alzheimer, a principal forma de demência associada à idade de nosso tempo, que afeta 30 milhões de pessoas no mundo. Uma cifra que provavelmente se duplicará nas próximas décadas.

Só cabe, portanto, receber com esperança o notável avanço que uma equipe de neuro-cientistas da Universidade Autônoma de Barcelona acaba de conseguir. Trabalhando com ratos modificados para que funcionem como modelo do alzheimer humano —com altos níveis da mesma proteína beta-amiloide, que se acumula no cérebro dos pacientes—, os pesquisadores descobriram um gene essencial para as conexões neuronais (chamado Crtc1) que está alterado nas fases iniciais da doença; e não só nos ratos, mas também em amostras cerebrais de pacientes humanos.

Os cientistas pensaram que, se a função defeituosa desse gene está associada à perda de memória nas fases iniciais do alzheimer, sua estimulação poderia reverter os sintomas.

É o que comprovaram em seus animais de uma forma espetacular. A injeção correta do gene Crtc1 diretamente no hipocampo —a região cerebral mais importante para a formação das lembranças— consegue fazer com que os ratos recuperem a memória que já começavam a perder.

Injetar genes no cérebro de um doente está, de momento, fora das possibilidades da prática médica. No entanto, tal limitação não tira nem um pouco da importância do experimento barcelonês. É perfeitamente possível que essa ação possa ser mimetizada com uma pequena molécula —um candidato a remédio— que estimule o gene natural do paciente ou que corrija seus efeitos indesejáveis. Não há nenhuma garantia de que essa estratégia funcione, obviamente, mas é evidente que vale a pena tentar. O que está em jogo é nada menos que o futuro da memória.