crise na ucrânia

A ex-primeira-ministra Timoshenko se reúne com os rebeldes em Donetsk

É a primeira representante da elite política ucraniana que viaja ao leste do país

Yulia Timoshenko em uma coletiva de imprensa em Donetsk.
Yulia Timoshenko em uma coletiva de imprensa em Donetsk.

Yulia Timoshenko, candidata à presidência e ex-primeira-ministra da Ucrânia, viajou na sexta-feira a Donetsk para se reunir com os líderes da autointitulada República Popular de Donetsk (RPD), o movimento que coordena os protestos federalistas e separatistas pró-russos desta importante região industrial e mineradora, que desafia os líderes interinos de Kiev.

A líder do partido Pátria se tornou assim a primeira representante da elite política ucraniana a viajar a Donetsk com a intenção de “compreender”, como salientou em uma entrevista coletiva realizada antes de ela se reunir com os líderes da RPD e depois de conversar com o governador Serguei Taruta. Pelo visto, Timoshenko não se reunia com todos os dirigentes dos protestos de uma só vez, e sim em grupos.

Antes, os representantes da RPD haviam rechaçado o acordo obtido na véspera em Genebra pelos chefes da diplomacia da Ucrânia, Rússia, União Europeia e Estados Unidos. Comentando o acordo, Denis Pushilin, um dos membros do gabinete da RPD, afirmou que, para desalojar os edifícios ocupados é necessário que anteriormente as autoridades provisórias centrais da Ucrânia façam a sua parte, deixando a sede da presidência e a sede do Governo, que ocuparam depois do “golpe de Estado” de fevereiro.

Os membros da RPD não consideram legítimos o presidente em exercício, Olexandr Turchinov, e o primeiro-ministro Arseni Yatseniuk, nem aceitam as eleições presidenciais de 25 de maio, pois insistem que antes disso deve ocorrer um referendo de autodeterminação, previsto para 11 de maio.

Por enquanto, tal como está concebida, a consulta consta de uma só pergunta sobre o status da região de Donetsk. Até agora, a RDP não teve sucesso em sua tentativa de estender a consulta a outras regiões, como Carcóvia e Lugansk. A falta de avanço na extensão da consulta parece indicar que os líderes da RPD estão encontrando dificuldades para ampliar sua base de apoio, embora por enquanto tenham conseguido se concentrar em uma só pergunta (sobre a autodeterminação e uma maior autonomia), superando a tentação de acrescentar outra sobre o futuro da região, seja a manutenção na Ucrânia ou a incorporação à Rússia.

Os representantes da RPD afirmaram que a desocupação dos prédios públicos só deverá ocorrer após uma reforma constitucional que assegure o federalismo e a posição da língua russa na Ucrânia. Quanto ao desarmamento, afirmaram que este deve ser generalizado, e que não se pode tratar de “terroristas” àqueles que protestam no Leste e como heróis os que protestaram no Maidan de Kiev. Pushilin acusou o Ocidente de ambiguidade moral, e Alexandr Khriakov, outro integrante da cúpula da RPD, negou que a Rússia esteja ajudando militarmente a RPD. “O urso russo somos nós”, disse.

Em sua entrevista coletiva, Timoshenko qualificou as eleições presidenciais de 25 de maio como um “fator de estabilização”. Em relação às negociações com os líderes dos protestos, manifestou que estas deveriam começar precisamente “com as pessoas que expressam seu protesto da forma mais elevada”. “As conversas para consolidar o leste e o sul da Ucrânia não podem ser mantidas a partir da Rada [Parlamento], que está muito longe tanto do leste quanto do oeste [...]. Quero começar compreendendo de uma forma total quais são as exigências das pessoas que participam do protesto”, afirmou. “Parece-me que, se em seu momento o ex-presidente da Ucrânia tivesse encontrado a valentia e a sabedoria para conversar com as pessoas do Maidan, certamente não teríamos hoje o sangue que se derramou, e talvez não tivéssemos tido a agressão por parte da Rússia”, acrescentou Timoshenko. “O importante agora é compreender que exigências podem ser satisfeitas”, disse a líder do Pátria. “Este é o objetivo, e o desbloqueio do edifício pode ser o resultado das conversações e da compreensão mútua”, afirmou Timoshenko, para quem o resultado depende também de que a Rússia cumpra os acordos de Genebra. “O fim principal da minha visita é escutar os que protestam, escutar o Donbas [bacia do Donetsk] e entender exatamente suas reivindicações.”

Timoshenko afirmou que “os líderes da Rússia só entendem a linguagem da força”, mas opinou que existem possibilidades de desbloquear a situação utilizando para isso os acordos de Genebra. As autoridades centrais de Kiev não reconhecem o referendo, já que a legislação ucraniana não contempla consultas locais.

“Em Lugansk é muito difícil organizar o referendo a partir da sede do Serviço de Segurança da Ucrânia”, disse um dos líderes da RPD, observando que o edifício a partir do qual se coordena o protesto naquela região está em uma situação mais complicada e permite menos liberdade de movimento do que a Administração Provincial de Donetsk. “Algumas cidades e territórios das regiões vizinhas querem se unir a nós”, dizia um porta-voz da RPD, acrescentando que não estava decidido como atuar com as localidades que se desvincularem das suas unidades administrativas correspondentes para apoiar a RPD.