A Otan volta ao jogo de dissuasão

Rússia leva a Aliança a mover tropas para a Ucrânia contra Putin

Imagen de satélite que supostamente mostra um batalhão de artilharia russo em Novocherkassk.
Imagen de satélite que supostamente mostra um batalhão de artilharia russo em Novocherkassk.REUTERS

Armas, dinheiro e diplomacia. O mundo mudou, mas os intrumentos que as grandes potências usam para fazer valer seus interesses continuam os mesmos: armas, dinheiro e diplomacia. A OTAN deixa para trás 12 longos anos no Afeganistão, uma missão que foi sangrenta, às vezes frustrante, e na qual se viu divisões internas, mas que também serviu para a Aliança vislumbrar um futuro com pontos de interconexão entre as forças aliadas e terceiros, com novas linhas de atividade, como o treinamento de exércitos, o projeto de infraestruturas defensivas e a chamada defesa inteligente (a velha história de fazer mais com menos recursos).

O desafio na Rússia devolve a Aliança às raízes: sem esquecer esses planos, tem que garantir a segurança das fronteiras 25 anos depois da queda do Muro de Berlim. Não há dinheiro - cortesia da crise -, portanto, restam armas e diplomacia: a OTAN deve traçar uma linha fina que permita demonstrações de poderío militar para que o talento diplomático faça o resto. Depois de alguns anos ocupada com sua projeção além de suas fronteiras (Afeganistão, Balcãs), Putin obrigou-a a tirar do armário os planos para proteger seus sócios. A OTAN volta a sua vocação tradicional: preocupar-se com a Rússia, ainda que a Rússia não seja o que era. E volta ao que estava acostumada: a Aliança prepara exercícios militares, atualizará seus planos de contingência no Leste, e inclusive prevê a movimentação de armamentos e tropas, de forma limitada, segundo fontes consultadas da OTAN, em círculos diplomáticos e em instituições Think Tanks norte-americanas e europeias.

Os tempos da dissuasão, portanto, estão de volta. Duas décadas depois da dissolução do Pacto de Varsóvia, a Aliança Atlântica continua existindo e até se expandiu, mas essa supremacia oculta fraquezas que refletem a ausência de uma ameaça real e a guerrilha de poder entre seus participantes, com a liderança de um Estados Unidos cada vez mais cansado da Europa negligenciar suas defesas, e também com alguns membros europeus com visões distintas e incomodados com a forma com que Washington exerce sua hegemonia. Alguns anos depois de analistas perguntarem-se para que serve a Otan, Putin pode ser o catalizador de uma espécie de reformulação.

"Há um despertar da OTAN", dizem fontes da Aliança, "fruto de um desafio que obriga a voltar a prestar atenção na segurança dos membros, por causa desses 40 mil soldados russos em volta da Ucrânia". "Trata-se de uma chamada de alerta, que implica uma reorientação da segurança coletiva: envio de frotas ao Mar Báltico e ao Mar Negro, de aviões para a Polônia, Romênia e os países bálticos, e, posteriormente, novos exercícios na fronteira com a Ucrânia, uma revisão e ampliação dos planos de contingência, e possivelmente também o envio de pequenos contingentes de tropas para a zona, mas muito menos em relação à Rússia", acrescentam outras fontes.

A OTAN não quer perder a oportunidade de recuperar a relevância. O desafio da Rússia e as demandas de países como Polônia e os bálticos podem facilitar esse processo, apesar de Berlim, deliberadamente, mostrar dúvidas, e de Washington deixar claro que nem a Rússia nem a antiga União Soviética temem uma reedição da Guerra Fria. Há uma batalha escondida pela crise ucraniana que vai dexar uma marca no futuro da OTAN. A curto prazo, as coisas são claras: os analistas esperam demonstrações de força, com exercícios na zona em que há cerca de 5 mil soldados; além disso, estuda enviar uniformizados para a área de conflitos, uma quantidade que não vai realmente irritar Putin (pouco mais de 10 mil unidades, segundo outros especialistas), mas que o obrigue a calibrar seu próximo passo. O suficiente para reforçar suas defesas na área, embora não seja o suficiente para atender às aspirações do Leste.

"Não será nada mais além de mostrar vontade política e diplomática; o contrário seria um erro terrível. Grandes contingentes de tropas não são movidos: a Europa quer usar as sanções econômicas combinadas com um pouco de dissuasão", resume Javier Solana, ex-alto representante da União Europeia. Diante dessa opção, o almirante James Stravidis, ex-comandante supremo da OTAN e agora decano da Fletcher School, aponta uma abordagem mais dura: "Depois da crescente tensão com a Rússia, os movimentos de tropas, frotas e aviões da OTAN para a fronteira orienta da Aliação são justificáveis e devem ser notáveis".

Junto com o envio de tropas da Aliança, Washington planeja enviar efetivos próprios. Mas pode encontrar resistências: "Einsenhower estaria horrorizado de saber que os Estados Unidos ainda têm tropas na Europa. Os países orientais estão nervosos, mas o envio de tropas norte-americanas não é necessário; os europeus são perfeitamente capazes", diz Kori Schake, ex-membro da administração Bush e pesquisador do Instituto Hoover.

Os analistas concordam que a OTAN enfrenta desafios que vão desde as consequências dos citados cortes na defesa aos novos interesses dos Estados Unidos no Pacífico, e a necessidade de reforçar a credibilidade entre os novos parceiros orientais. Charles Kupchan, do Conselho de Relações Exteriores, explica que a Aliança "tem um novo interesse na defesa do território, que implica medidas de precaução; a Rússia provoca uma remilitarização potencial de sua relação com o Ocidente". Christian Mölling, analista de um Think Thank alemão, diz que a Rússia, "sofreu um golpe com a crise de identidade depois do Afeganistão". "O problema", acrescenta, "é que agora, para mudar o modelo, precisa de dinheiro, e ninguém é capaz de gastá-lo. Berlim, que poderia, tem um homem chamado Wolfgang Schäuble que impede". Borja Lasheras, do Conselho Europeu de Relações Exteriores, prevê um confronto de pontos de vista. "Assim como há uma divisão norte-sul na zona do euro, pode haver entre os membros da OTAN. Os Estados Unidos tem se concentrado no Pacífico e em uma agenda mais global; os países próximos à Rússia querem atenção com o flanco oriental, e os das margens do Mediterrâneo não querem que as ameaças contra o Sul sejam negligenciadas. A nova OTAN será uma conciliação dessas três visões"

 A Ucrânia corre o risco de se tornar um conflito sonâmbulo: a ofensiva russa e a potencial contra-ofensiva de dissuasão da OTAN não alteram fundamentalmente o equilíbrio de forças; segundo fontes diplomáticas, "a extensão do desafio russo depende mais das limitações políticas e econômicas de uns e outros do que estritamente da sua capacidade militar". A volta à dissuasão é evidente tanto na ação quanto no discurso. O secretário-geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, culpou, ontem, Putin pela tensão na Ucrânia. "A Rússia leva 40 mil tropas para a fronteira, mais tanques, aviões, artilharia e helicópteros: isso é uma escalada. A OTAN envia aviões com radares para a Polônia e Romênia, e seis aviões aos países bálticos: isso não é". A Rússia acusa a OTAN de mentir com os números de causar essa escalada. Em suma, armas, dinheiro e diplomacia; e talvez um pouco de propaganda dos dois lados.

 

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