O Brasil aposta nos EUA para abrir sua economia

A agência de promoção comercial acredita que o país tem que aumentar suas exportações e apostar mais na produtividade e inovação

Uma das grandes críticas que se faz à economia brasileira é que continua sendo muito fechada e que coloca muita ênfase em fomentar o consumo interno em vez de focar mais na produtividade e em propiciar o aumento do investimento privado. Por isso não deixa de ser relevante que as autoridades brasileiras tenham exaltado na terça-feira em Washington a importância de abrir mais a economia, investir na produtividade e inovação e, sobretudo, em aumentar as exportações.

Tudo isso poucos dias depois do rebaixamento da nota de avaliação de risco do Brasil pela a agência Standard & Poors, um duro revés às tentativas do gigante sul-americano de recuperar a credibilidade dos mercados depois da freada em seu crescimento. Em um colóquio no Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (SIIS), Marcia Nejaim, gerente executiva de competitividade e inovação da Agência Brasileira de Promoção de Exportações (Apex-Brasil) fez um apelo em prol da internacionalização da economia brasileira e de uma aposta decidida pela inovação que não beneficie apenas as empresas locais, mas que também atraia companhias estrangeiras.

Nejaim defendeu “abrir mais o mercado brasileiro” e aumentar as vendas ao exterior porque fazê-lo reduz os “riscos” na economia local. As exportações, lamentou, representam apenas 12% do PIB brasileiro em comparação, por exemplo, com 58% na Coreia do Sul. Na mesma direção, lembrou que as seis grandes potências econômicas mundiais são países exportadores líquidos, o que significa que se o Brasil quer consolidar sua presença entre as maiores economias tem que se internacionalizar muito mais. Entretanto, perguntada a respeito, a diretora evitou mencionar um objetivo concreto de aumento das exportações, embora tenha se mostrado confiante de que as cifras melhorarão nos próximos anos, uma vez que a crise econômica internacional já foi superada.

O Brasil fechou 2013 com um superávit de 2,56 bilhões de dólares (5,79 bilhões de reais) em sua balança comercial, o que representou o pior resultado desde 2001 e uma redução de 86,8% com relação a 2012. A média diária das exportações caiu 1% entre um ano e outro, enquanto que a das importações cresceu 6,5% no mesmo período. Os países latino-americanos foram o principal destino das exportações brasileiras, seguidos pela União Europeia, China e Estados Unidos, onde as vendas caíram 8,2%, ficando em 24,86 bilhões de dólares (56,21 bilhões de reais), embora o comércio bilateral entre os dois gigantes não tenha parado de crescer.

Em sua intervenção, Nejaim também considerou “crucial” que o Brasil invista mais em produtividade, assim como em Inovação e Desenvolvimento (I+D). Apesar de destacar os esforços do governo nesse sentido, ela explicou que o Brasil conta com 696 pesquisas para cada 1.000 habitantes em comparação com 4.673 dos EUA. Mesmo assim, supera os padrões de outros países da região como o México (347). Na mesma linha, ela defendeu a melhoria da qualidade da educação (cujas deficiências foram mais uma vez evidenciadas pelo recente relatório do Pisa) e a interação entre governo, universidades e empresas.

No terreno da inovação, a diretora da agência de promoção de exportações – que tem dois escritórios nos EUA – destacou que o Brasil atraiu em 2013 cerca de 570 milhões de dólares (1,29 bilhões de reais) em projetos de capital de risco estrangeiro e que empresas norte-americanas, como a General Eletric e a IBM, instalaram centros de I+D no país. Mas os objetivos são muito mais ambiciosos. Nejaim aposta em melhorar a burocracia que as pequenas e médias empresas enfrentam e em atrair para o Brasil empresas estrangeiras de quatro setores: petróleo e gás natural, energias renováveis, biotecnologia e tecnologias da informação e de comunicação.

Tomou parte no colóquio também precisamente um representante da General Eletric, que se mostrou extremamente conciliador. David Nelson, gerente sênior de assuntos governamentais globais, frisou que o país representa 40% dos negócios do grupo na América Latina e destacou o crescimento contínuo da economia brasileira na última década, o aumento da demanda interna e a estabilidade política do país. E, assim, as “numerosas oportunidades” que isso gera.

Tanto Nelson como Nejaim evitaram avaliar a deterioração das relações bilaterais entre EUA e Brasil por conta das revelações da espionagem da Agência Nacional de Segurança (NSA) a Dilma Rousseff, o que fez com que a presidenta brasileira cancelasse uma visita de Estado a Washington em outubro. E ambos minimizaram de forma genérica o impacto da espionagem na área empresarial.

Por fim, o embaixador brasileiro nos EUA, Mauro Vieira, que abriu o debate, destacou que a inovação é um tema chave na amálgama de prioridades abordadas na relação diplomática entre o Brasil e os EUA. Nesse sentido, enfatizou que os EUA é o maior receptor de pesquisadores de um programa científico do Brasil e que várias empresas tecnológicas do país sul-americano, como o fabricante de aviões Embraer, têm presença na primeira potência mundial.