Os ucranianos se ajustam ao cinto do resgate do FMI

O fundo anuncia um pacote de ajuda de 62 bilhões de reais a Kiev. As medidas de austeridade de foram aprovadas na segunda rodada de votação no Congresso do país

Mostrando os bilhões de dólares roubados do erário público pelo ex-presidente Víctor Yanukóvich e seu clã em uma mão, e, na outra, indicando o regime de austeridade que a partir de agora deverão seguir todos os ucranianos, o primeiro-ministro interino, Arseni Yatseniuk, compareceu nesta quinta-feira diante da Rada Suprema (Parlamento) de Kiev para pedir apoio ao amplo pacote de reformas imposto pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em troca de uma ajuda de 62 bilhões de reais destinada a aquecer uma economia em queda livre. A Rada Suprema aprovou, na segunda rodada de votações, a proposta do Yatseniuk que impõem fortes medidas de ajuste à economia ucraniana pela bilionária ajuda do FMI.

Se este país fosse uma empresa, já estaria falido”, disse Arseni Yatseniuk durante os 30 minutos de sua audiência com os parlamentares. O déficit alcançará neste ano os 26 bilhões de dólares, equivalente à metade do orçamento nacional (50 bilhões de dólares), enquanto o PIB registrará em 2014 uma queda de 3% caso sejam adotadas as medidas propostas, e de 10% se o Parlamento recusá-las, ameaçou Yatseniuk durante seu discurso. A inflação se situará entre 12% e 14%.

O Governo interino da Ucrânia deve converter rapidamente em projeto de lei as reformas pedidas pelo FMI e outros financiadores internacionais, que injetarão dinheiro durante os próximos dois anos para ajudar o país a se recuperar do gerenciamento econômico e do saque de Yanukóvich. Com isso, também deve tentar mitigar instabilidade provocada pelas revoltas de Maidán, que desembocaram na sangrenta saída de Yanukóvich do poder em fevereiro. As medidas têm como objetivo, entre outras coisas, frear a despesa pública, com um corte imediato na Administração de 24.000 servidores públicos (dos 249.000 existentes); incrementar a arrecadação fiscal, com taxas extras inclusive para consumo de fumo e álcool, embora se descarte por enquanto a imposição de um imposto aos depósitos para evitar a fuga em massa de capital; combater a corrupção, também presente na Crimeia –por exemplo, na venda fraudulenta de bens públicos a parentes de Yanukóvich-, e, finalmente, implementar reformas estruturais em setores essenciais, como o energético.

O acréscimo do preço do gás para o consumidor é o ponto mais sensível –e impopular, a apenas dois meses das eleições de 25 de maio, para a qual anunciou sua candidatura a antiga primeira-ministra Yulia Timoshenko nesta quinta-feira - do pacote de reforma que será votado no final desta quinta-feira pelos deputados. Yatseniuk advertiu que a Ucrânia pagará a partir de abril pelo fornecimento de gás russo 480 dólares por cada mil metros cúbicos de gás, em vez dos 280 dólares pagos agora, e lembrou também que os ucranianos desfrutavam de um dos preços mais baixos da região, menor inclusive que o praticado na Rússia. Para enfrentar um aumento tão drástica, o dirigente anunciou subsídios para a compra de gás de até 500 grivnas [equivalente a cerca de 100 reais] ao mês para quatro milhões de famílias, isto é, 30% da população de 46 milhões de habitantes.

O chefe do Executivo –que ele mesmo qualifica de “suicida”, porque pagará com a autodestruição a impopularidade de suas decisões- creditou todos os males atuais ao Governo de Yanukóvich: não só por fazer desaparecer do orçamento 37 bilhões de dólares-, mas também por esbanjar 20 bilhões para manter uma taxa cambial fictícia, e desviar outros 70 bilhões de dólares a paraísos fiscais. O FMI solicitava havia meses que a moeda grivna (4,8 por um real) flutuasse livremente em relação ao dólar, uma demanda que Yanukóvich negou veementemente.

A todos esses buracos se soma um mais recente, a perda de propriedades militares na Crimeia no valor de 1,7 bilhão de dólares depois da saída ainda em curso das tropas ucranianas da península.

Este empréstimo de 62 bilhões de reais por parte do FMI e de outras instituições internacionais soma-se a outros atingindo 37 bilhões de dólares. O Parlamento da Crimeia declarou nesta quinta-feira uma lista de 321 responsáveis e personalidades ucranianas non gratas. Entre elas se encontra o primeiro-ministro Arseni Yatseniuk, cuja presença já não é bem-vinda nesta península que desde a semana passada integra a Federação Russa, segundo informa a agência local Crimeia Inform.

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