“Estão nos matando pouco a pouco”

A guarda do palácio impede o acesso de EL PAÍS à residência das princesas sauditas que denunciaram ser prisioneiras de seu pai, o rei Abdalá

As princesas Sahar, Maha em Marrocos.
As princesas Sahar, Maha em Marrocos.FACEBOOK

Cheguei até as portas do palácio real em Yeddah. A princesa Sahar, uma das quatro filhas do rei Abdalá da Arábia Saudita que denunciaram estar presas em uma bagunçada vila do complexo palaciano, tinha me convidado para conhecer suas condições de vida. Seja qual for o motivo do aprisionamento, está claro que as mulheres não têm liberdade para receber visitas e seu caso resulta tóxico para as autoridades. Depois da confusão inicial que a minha presença causou na guarita da entrada e vários telefonemas, um oficial da Direção-geral de Segurança, a polícia secreta, me ordena a desistir da tentativa. “Você vai embora, devolvemos o seu passaporte e como se nada tivesse acontecido”, sugere em inglês uma voz ao telefone, depois de ter me submetido a um detalhado interrogatório. Diante da minha insistência, se identifica como “o responsável por toda a segurança”. “Está me dizendo que não posso ver a princesa?”, me atrevo a perguntar. Meu interlocutor segue como se não tivesse ouvido, mas o tom de sua voz resulta imperativo. Quando um dos guardas me entrega o passaporte, após ter feito uma cópia de todas as páginas, entendo que devo ir embora.

O que mais eu posso fazer? Estou em um local com três policiais de uniforme e um à paisana. Os muros que rodeiam o complexo palaciano em Al Murjan, um luxuoso bairro ao norte de Yeddah, têm vários metros de altura. E o portão que dá acesso ao enorme recinto está vigiado por dois tanques e membros da Guarda Nacional. “Agora você se convenceu de que estamos encarceradas sob circunstâncias brutais?”, me pergunta mais tarde Sahar. Dada a falta de resultados depois que a sua mãe denunciou a prisão que sofrem, ela teme que o mundo não tenha as encontrado. “Se cometemos algum crime, que nos levem a um tribunal e nos julguem”, volta a repetir para mim. Sua voz contida transmite autocontrole. São 13 anos de cárcere, 13 anos de desespero.

Durante uma semana de telefonemas e mensagens pela internet, a princesa me confirmou a história que a imprensa britânica revelou, e aceitou com paciência minhas perguntas, tratando de juntar as pontas de um assunto que qualquer um que não conheça a Arábia Saudita achará incrível. Desde 2001, elas estão presas pelo pai. Sahar, de 42 anos, e Jawaher, de 38, compartilham, com dois cães e um gato, uma enorme vila que elas mesmas têm que limpar. Outras duas irmãs, Maha, de 41, e Hala, de 39, estão isoladas em alguma outra parte do recinto, e tanto elas como sua mãe temem por sua saúde. “Estão nos matando pouco a pouco, querem que nos suicidemos; por isso minha mãe se foi, para buscar ajuda e nos proteger".

Que um pai ou um marido prenda suas filhas ou esposas não é raro na Arábia Saudita, mas surpreende que isso ocorra no seio da família real. Seus membros têm os meios para pular as anacrônicas normas sociais impostas pelos mais retrógrados, e são, em geral, bastante cosmopolitas. “Sim, essa é a situação de muitas mulheres sauditas”, admite a princesa. “O sistema de tutela é um sistema de escravatura em pleno século XXI. Pela lei saudita, o pai, o marido ou o irmão têm todo o poder de decisão sobre nós; o islã no entanto reconhece os nossos direitos”, defende.

Sahar faz questão de dizer que não se trata só delas; mas da situação dos direitos humanos em seu país, e que seu caso é um exemplo. Também sublinha que denunciou essas injustiças em sua conta no Twitter. Chama a atenção que, nessas circunstâncias, ela siga tendo acesso a uma linha telefônica e à Internet. Mas isto é a Arábia Saudita, onde há um festival de cinema apesar de as salas de projeção estarem proibidas; ou acaba de ocorrer a semana de artes de Yeddah, mas não existem escolas de belas artes. “Tudo é muito ambíguo”, reconhece a própria Sahar. Permitiram tanto a ela como a Jawaher sair de vez em quando a comprar mantimentos. Porém, sob estrita vigilância.

Ela diz desconhecer o que motivou sua detenção. No entanto, atribui a medida à sua irmã menor, Hala, que se graduou em psicologia na Universidade Rey Saud de Riad e descobriu enquanto fazia práticas no Hospital Militar que “ingressavam presos políticos na área da psiquiatria, onde administravam alucinógenos a eles”.

“Quis denunciá-lo ao seu superior, mas disseram a ela que não era assunto seu. Disseram para que ela se calasse, ou teria que enfrentar as consequências”, manifesta Sahar. Segundo seu relato, Hala pagou por isso. “De repente, tudo mudou. Ficou doente; descobrimos que colocavam drogas na comida dela. Trataram de destruir sua reputação dizendo que a encontraram no meio do deserto, inconsciente junto ao seu carro, em um país onde as mulheres não podem conduzir e a enviaram ao cárcere”.

Ao que parece, a jovem princesa foi acusada de ser uma drogada, algo que sua irmã recusa de prontidão. “Inclusive se fôssemos umas drogadas ou umas desequilibradas, por que não nos dão tratamento real como foi o caso de outros filhos, que foram levados às melhores clínicas da Europa e da América?”, pergunta. “Por que este castigo coletivo?”

O Palácio Real guarda silêncio. No Ocidente, quem cala consente, mas na Arábia resulta impensável a mínima alusão a algo tão privado. O que não é mencionado, não existe. Nem sequer Sahar e Jawaher sentiram mudança alguma na prisão depois da publicação do caso. “Nos ingnoram”, conclui.

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