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Chefes do PCC, principal grupo criminoso do Brasil, são isolados em presídio

Marcola e outros três líderes da facção criminosa vão para penitenciária chamada de “fábrica de loucos”, onde não há visita íntima, acesso a notícias e o banho de sol dura apenas duas horas

O criminoso Marcola, em foto de 2005.
O criminoso Marcola, em foto de 2005. Agência Estado

Marcos Willians Herbas Camacho, 45 anos, é um dos criminosos mais temidos do Brasil. Mesmo estando há quase duas décadas atrás das grades, ele ainda comanda uma série de crimes pelo país, como ataques a policiais, tráfico de drogas e assassinatos de supostos traidores de seu grupo criminoso, o Primeiro Comando da Capital (PCC). Pelos próximos dois meses, porém, Marcola, como é conhecido, encontrará mais dificuldades para continuar mandando na sua facção, que tem um “exército” de aproximadamente 1.500 bandidos só em São Paulo, além de ramificações em diversos Estados brasileiros, no Paraguai e na Bolívia.

Na tarde desta terça-feira, Marcola e outros três membros do alto escalão do PCC foram transferidos da penitenciária de Presidente Venceslau para a de Presidente Bernardes, ambos municípios do interior de São Paulo. Mais do que uma mudança de presídio, essa transferência se trata de um golpe no crime organizado e uma dura punição contra a cúpula da facção.

Na prisão de Presidente Bernardes vigora o regime disciplinar diferenciado (o RDD). Nele, o preso não tem direito a visita íntima, não tem acesso a TV, rádio ou jornal, fica em celas pequenas, muitas das vezes sozinho e isolado, e só tem direito a duas horas de banho de sol por dia, contra as quatro ou cinco horas que têm nas outras cadeias paulistas. Apenas para efeito de comparação, em Venceslau há 818 detentos em 781 vagas. Em Bernardes, são 17 detentos em 185 vagas. Só ficam nela quem a Justiça ordena porque cometeu faltas graves na prisão, como tentativa de fuga ou comprovadas práticas frequentes de crimes. Os advogados que defendem condenados que já passaram por esse regime o chamam de “fábrica de loucos”.

Outra exceção de segurança nesse presídio, conhecido como “tranca dura”, é que os detentos só conversam com as visitas por meio de um parlatório, separados por um grosso vidro. Como há poucos presos e as visitas são monitoradas, dificilmente eles têm acesso a telefones celulares ou drogas, algo comum na imensa maioria das prisões brasileiras.

Os advogados que defendem condenados que já passaram por esse regime o chamam de “fábrica de loucos”

A autorização judicial para a transferência de Marcola, Claudio Barbará da Silva, Célio Marcelo da Silva (o Bin Laden) e Luiz Eduardo Marcondes Machado de Barros (o Du Bela Vista) foi dada nesta segunda-feira após o Ministério Público descobrir um plano de resgate deles. Conforme o plano descoberto pelos promotores, a fuga de Presidente Venceslau ocorreria por meio de um helicóptero roubado que, depois de fazer uma escala no Paraná, seguiria para o Paraguai. O plano não foi posto em prática e ninguém foi preso como articulador dele.

Em princípio, o quarteto deve ficar dois meses nesse regime disciplinar, conforme a decisão judicial. O governo paulista, porém, quer estender a permanência deles em Presidente Bernardes para um ano.

Ataques de 2006

Essa não será a primeira vez que Marcola irá para o RDD. Ele já esteve nesse regime após a série de ataques que parou São Paulo em maio de 2006. Na ocasião, Marcola era suspeito de ter ordenado a série de ataques que resultou na morte de 493 pessoas (entre policiais, agentes penitenciários, criminosos e cidadãos inocentes) durante uma onda de atentados entre os dias 12 e 26 daquele mês.

A Segurança Pública de São Paulo está em alerta

Entre os vários motivos para os ataques de maio estão: as transferências de membros do PCC para o regime disciplinar diferenciado e os achaques feitos por policiais contra representantes dessa facção criminosa, entre eles o próprio Marcola, que teve de pagar 300.000 reais a agentes que sequestraram seu enteado. A ONG Humans Rights Watch elaborou, em 2011, um relatório detalhando os ataques de maio de 2006.

Após essas novas transferências, a Segurança Pública de São Paulo está em alerta. Algumas regiões do Estado inclusive já receberam reforço no policiamento para evitar alguns ataques que poderiam acontecer como uma forma de revide do grupo criminoso.