Calor e salário atraem, mas burocracia desestimula

Governo tenta entender as razões por que os estrangeiros deixaram de vir para cá, apesar de receberem convites

Controle de passaportes em Cumbica.
Controle de passaportes em Cumbica.Lalo de Almeida (Folhapress)

Adrien Bayle é francês, tem 32 anos, veio trabalhar na cidade de São Paulo a convite de uma empresa de trading de matérias primas agrícolas e realizou o sonho de trabalhar na América Latina. A cultura brasileira, o potencial de crescimento do país, o espírito empreendedor do brasileiro e o clima foram essenciais na sua decisão de se mudar para o Brasil. Porém ele é bastante crítico no que diz respeito ao processo do visto. “O primeiro visto é muito complicado. Nunca entendi porque é tão difícil quanto nos EUA. Até a empresa se assustou, demorou muito”, reclama. Bayle morou também na Argentina e na Colômbia, além de outros países europeus, e compara: “Se eu tivesse escolhido a Argentina eu já seria um cidadão. Na França, eu poderia depois de dois anos pedir a residência permanente e votar”, lamenta.

A Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República apresentou uma pesquisa que está em andamento para entender os fatores que levam o estrangeiro vir ao Brasil e também coletando dados de cerca de 800 empresas multinacionais que têm carência de profissionais bem qualificados, para entender quais são as dificuldades na hora de contratar. O panorama atual do Brasil foi comparado ao de outros países, como Suíça, Austrália, Estados Unidos e África do Sul, que possuem números representativos de estrangeiros trabalhando no país. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, o PNAD de 2009, mais de um terço dos imigrantes que vivem no país atualmente, que representam 0,10% da população, têm mais de 65 anos e já não participam no mercado de trabalho tão ativamente quanto os mais novos. E, nesta comparativa, o Brasil estaria muito atrás dos outros países em nível de competitividade.

Rosane Silva Pinto de Mendonça, subsecretária de ações estratégicas da SAE, explica que o Brasil avançou muito em relação aos entraves dos trâmites legais. O que é bastante relativo, já que se um trabalhador estrangeiro ficar sem trabalho, deverá retornar ao país de origem para refazer todos os trâmites do visto novamente, caso encontre uma outra oportunidade no país. No entanto, para ela, “a dificuldade hoje parece ser muito mais convencê-lo a vir ao país”, explica. Entender as razões é um dos pontos centrais da pesquisa, que pretende analisar se se trata de motivos relacionados à empresa, como plano de carreira e benefícios, ou ao país, como medo à violência ou a qualidade limitada de ofertas educacionais e de saúde. Como o levantamento ainda não está concluído, as razões ainda não estão claras. “Dentre aqueles que foram convidados a vir para o Brasil e não aceitaram estamos tentando descobrir os motivos. Hoje há muito problema de atratividade neste sentido, do estrangeiro querer vir para o Brasil”, conclui Mendonça.

Para ela, dois pontos centrais facilitariam enormemente a contratação de estrangeiros: a coordenação dos agentes envolvidos em facilitar a vinda do profissional, e permitir que eles entrem no país com o visto transitório. “Seria o mais indicado para aqueles que estão prospectando um negócio e depois, estando no Brasil, possam obter a permissão de trabalho”, indica.

Para o espanhol Enric Cid, 38 anos, que trabalhou por quatro anos no Brasil, esta teria sido a solução ideal para evitar idas e vindas à Espanha até conseguir se estabelecer aqui. “O visto demora em média seis meses. Se supõe que a pessoa está no seu local de origem enquanto os trâmites são realizados lá e isso para uma empresa é uma eternidade”, conta Cid, que é diretor de uma empresa de pesquisas de mercado espanhola que agora está também no Chile. “Em comparação, o mesmo processo no Chile se adequa muito mais à realidade. Basta um contrato de trabalho e em 60 dias você tem o visto”, compara. Cid veio ao país pela oportunidade de trazer sua família e de ter uma experiência diferente da europeia. Isso é comum entre os estrangeiros que vêm morar no Brasil. “O primeiro objetivo não é o dinheiro, mas sim a experiência no país. Depois de alguns anos descobrem que São Paulo e Rio é muito caro e que precisam ganhar mais”, brinca Natasha Patel, gerente de RH da Hay Group, que é inglesa descendente de indianos.

Alguns países da Europa possuem listas de ocupações de difícil cobertura, que facilitam a entrada do estrangeiro através das necessidades do mercado. Na Espanha, por exemplo, a lista é elaborada de três em três meses. Para Marques, “isso seria um sonho de consumo”. Já Mendonça, crê que “seria mais auxiliar que central, pois as necessidades das empresas são tão específicas e voláteis que um sistema estatístico jamais substituiria a oportunidade de selecionar quem ela precisa para demonstrar que não há similar no país”. Ainda assim, a espanhola Mercè Ribera veio para trabalhar com comunicação, uma área onde abundam empresas. Teve a sorte de contar com a assessoria de advogados para resolver o visto, mas no dia a dia, o Brasil é um país muito complicado para ela. “Fico desconcertada com a burocracia brasileira, principalmente os trâmites bancários e a necessidade contínua de cartórios”. Mas, Ribera é uma fã incondicional do país, principalmente pela natureza, e veio para ter uma “experiência internacional”.

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